Lugares de antes

12088116_10203583591189742_2875307653147869688_n-1

Um longo e estreito corredor levava aos fundos daquela casa de minha infância. “Fundos” lia-se na rara correspondência que lá chegava. Da pequena janela avistavam-se outras, tímidas, de venezianas sempre verdes e sempre semi cerradas preservando a preciosa intimidade. Caminho por esse corredor de volta ao meu quarto de menina. Meu e dos avós. Tento delinear sua presença entre aquelas paredes, mas os mortos partem sem deixar vestígios ou qualquer tênue sinal da vida que por ali passou. A menina que lá viveu também se foi. Perdeu-se num recanto inacessível do passado, como as dálias, as abelhas, o negro cão de olhar sempre alerta, os grilos cantores, as preciosas joaninhas, as pedras do jardim. Mas a luz continua a entrar pelas frestas da janela. A luz que revela as mesmas lágrimas de uma saudade antiga. Essa, que insiste em sobreviver. (Ludmila)

    

    Mar de dentro

    251509_224725037538297_1174021_n
    Eu era o mar por onde navegavas: cintilação, estrela, nuvem, alga, quimera, feixe de luz, barco de espuma, bruma.
    Teu corpo envolto por um sopro azul flutuava no itinerário lento das marés. E um manto de escamas o recobria.
    E havia dunas e aves que sonhavam ultrapassar a inatingível linha do horizonte.
    E havia o vento que varria as nuvens, que encrespava as ondas, que levantava a areia, que me dilacerava as entranhas.
    Em ti dançava o sal das águas e em mim o medo cego dos naufrágios. (Ludmila)

       

      Ave, poesia!

      14355583_1257440557619637_1813643980717461892_n
      Há certos momentos obsessivos em que intuo tua presença que em mim lateja. Estrelas preenchem meus olhos e a lua é foice de luz que me atravessa a alma andarilha. Fecho os olhos para ouvir-te e tua canção é sangue que alimenta minha loucura. Na catedral que ergo em mim para adorar-te, esse fervor coagula minhas crenças e tua rude beleza então se revela. Ave poesia! (Ludmila)

         

        Há dias em que escrever não basta.

        14264105_1249635728400120_8444050709089509569_n
        Há dias em que escrever não basta.
        É quando uma estaca crava-se no peito e emudecem as palavras.
        A mão pende, inativa. Reflui a canção na boca. A tristeza entra pelo papel, áspera, profunda e o exílio me toma em seus braços.
        Fujo de mim. Mas quem foi que cortou o cordão umbilical que me ligava aos sonhos? (Ludmila com ilustração da Internet)

          

          Indizível nome

          maxresdefault
          Doce…que seja doce o poema, mas, o coração estremece ante o arbítrio do barro misterioso no qual germinam as sementes das palavras. E é entre soluços que eu o concebo. Doto-o de guelras para que respire e de mandíbulas para que abocanhe as letras. E lhe ordeno: Faça-se poema! E ele se faz numa palpitação que delira ao ver-me. Eu: múltipla, ardente, arrebatada, apaixonada pela minha criação. Então, o poema me transcende e me chama pelo indizível nome. (Ludmila)

              

            Setembro avança

            primavera-4
            Setembro abre sua cauda de flores e aromas e se deita no colo dos dias. E eu, sonhando já com frutos e sementes deixo que ecoe, pleno em mim, seu nome: Primavera.
            Os jasmins desabrocham perfumando corpos, e os manacás, e as tímidas violetas. A alegria chega pelo ar e coroa campos e montanhas.
            O Vale se enche de um amor antigo, enquanto o céu pasta no rio com seu rebanho de nuvens. A natureza alarga seus braços e nos envolve cheia de promessas.Quem dera fôssemos o mel da vida! (Ludmila)

            Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...