Estrelas líquidas

Noite estrelada Vincent Van GoghDevaneios

Há noites em que as estrelas ficam líquidas no céu. Então, elas pingam sua leveza luminosa dentro de nossas retinas. Nesses momentos a gente clareia a alma e a solta da gaiola de ossos para que passeie sobre a terra: esfera intercalada por sombra e luz, gritos e silêncios, perdão e culpa, esperança e medo, dor e alegria. Ela, então, abdica de todas as urgências, interliga os opostos e retorna plena, flutuando feito pássaro noturno em busca do ninho, imortal, na falácia do tempo… (Ludmila)

Imagem: starry night by alex ruiz, em homenagem a Vincent Van Gogh

     

    Noturno de Chopin

    Livia

    “Converso com minha mãe através do Noturno de Chopin. Ela me diz as notas esquecidas para eu tocar a vida.”
    (Livia Garcia Roza)

    Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista. Estreou na ficção em 1995, com o romance Quarto de menina. Depois vieram Meus queridos estranhos, em 1997; Cartão-postal, em 1999; Cine Odeon, em 2001; Solo feminino, em 2002 (os dois últimos indicados ao prêmio Jabuti); e A palavra que veio do Sul, em 2004. É organizadora da antologia de contos Ficções fraternas (2003) e integra a coletânea Boa companhia – Contos (Companhia das Letras, 2003). Suas obras mais recentes são: Amor em dois tempos (2014) O caderno de Liliana (2011) A Cara da mãe (2007) Era outra vez (2009) e Restou o cão (2005)

      

      Patagônia: Rutas del Fin del Mundo

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      Crónica de viagem

      “A Patagónia é um mito, foi e será território alimentador de mitos. Para mim, até o dia da minha primeira incursão, foi sempre território imaginário, tão distante, misterioso e intangivel como o Grande Deserto da Austrália ou a Ferrovia Transsiberiana, com alguma aura mal afamada de Velho Oeste, isto é: natureza em estado bruto, terra de ninguém, terra sem lei, arrancada aos povos autóctones ao custo de desmedida truculência. E com uma história escrita pelos vencedores. Há muito tempo eu sentia uma espécie de “chamamento”, e à medida que fui me internando no território que o espelha, o das narrativas, entendi que esse “chamamento” impulsionou todos os que baixaram a estas terras inóspitas. Como diz Guillermo Saccomano, ensaista argentino (Narrar al sur) exploradores espanhóis e holandeses, naturalistas ingleseses e franceses, religiosos italianos, colonos galeses, estrategas argentinos e milionários norte-americanos parecem ter coincidido, ao longo de quase cinco séculos, de que ali está o que buscavam: um lugar estratégico, a chave para desvendar uma charada científica, um recurso natural e uma beleza extasiante que vão se extinguindo no resto do planeta, uma Cidade Encantada, na qual abunda o ouro, e também certa ideia da vida eterna, que já não espanta mais ninguém.”

      Por Frederico Füllgraf
      imagens do fotógrafo jacareiense Jarbas Mattos
      Favor não publicar sem a permissão do autor

        

        ‘Medio pan y un libro’

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        Discurso do poeta Federico García Lorca, na inauguração da biblioteca de sua cidade natal, “Fuente Vaqueros”, em Granada, Espanha, em setembro de 1931…

        ‘Medio pan y un libro’ (Meio pão e um livro)

        “Quando alguém vai ao teatro, a um concerto ou mesmo a uma festa de qualquer índole que seja, se a festa é de seu agrado, imediatamente lembra e lamenta que as pessoas que ele ama não se encontrem ali. «Minha irmã e meu pai gostariam de estar aqui», pensa, e não desfruta mais do espetáculo, a não ser através de uma leve melancolia. Esta é a melancolia que eu sinto, não pela gente de minha casa, o que seria pequeno e ruim, mas por todas as criaturas que por falta de meios e por desgraça não desfrutam do supremo bem da beleza que é vida e bondade, serenidade e paixão.

        Por isso nunca tenho um livro, porque presenteio todos que compro, que são numerosos, e por isso estou aqui honrado e contente em inaugurar esta biblioteca da cidadezinha, a primeira seguramente de toda a província de Granada.

        Não só de pão vive o homem. Eu se tivesse fome e estivesse à míngua na rua não pediria um pão; pediria meio pão e um livro. E daqui eu ataco violentamente aos que somente falam de reivindicações econômicas sem jamais apontar as reivindicações culturais que é o que os povos pedem aos gritos. Bem está que todos os homens comam, porém que todos os homens saibam. Que desfrutem de todos os frutos do espírito humano porque o contrário seria convertê-los em máquinas a serviço do Estado, seria convertê-los em escravos de uma terrível organização social.

        Eu tenho muito mais pena de um homem que quer saber e não pode, do que de um faminto. Porque um faminto pode acalmar sua fome facilmente com um pedaço de pão ou com umas frutas, porém um homem que tem ânsia de saber e não possui os meios, sofre uma terrível agonia porque são livros, livros, muitos livros o que necessita e onde estão estes livros?

        Livros! Livros! Aqui está uma palavra mágica que equivale a dizer: «amor, amor», e que deveriam pedir os povos como pedem pão ou como desejam a chuva para suas colheitas. Quando o insigne escritor russo Fedor Dostoievski, pai da revolução russa muito mais que Lênin, estava prisioneiro na Sibéria, afastado do mundo, entre quatro paredes e cercado por desoladas planícies de neve infinita; e pedia socorro em carta a sua família distante, somente dizia: «Envia-me livros, livros, muitos livros para que minha alma não morra!». Tinha frio e não pedia fogo, tinha uma sede terrível e não pedia água: pedia livros, ou seja, horizontes, escadas para subir a montanha do espírito e do coração. Porque a agonia física, biológica, natural, de um corpo por fome, sede ou frio, dura pouco, muito pouco, mas a agonia da alma insatisfeita dura a vida inteira.

        Já disse o grande Menéndez Pidal, um dos sábios mais verdadeiros da Europa, que o lema da República deve ser: «Cultura». Cultura porque somente através dela se pode resolver os problemas que hoje debate o povo, cheio de fé, porém falto de luz”.
        – Setembro de 1931

        Foto: Garcia Lorca con niña leyendo.
        Fonte: unisinos.br/ blogs/ biblioteca – (publicado em 25.05.2012)
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          Orfandade

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          Solto a minha orfandade ao vento.
          Que ele me leve de volta ao lar. Busco os meus mas não os reconheço. Em que encruzilhada os perdi?
          Solto a minha orfandade na água. E navego. A cada tempestade mais me afasto deste cais. Um profundo oceano me acolhe. No fundo só ossos e corais.
          Solto a minha orfandade no fogo. Ela queima memórias e lembranças, e, nas cinzas, enfim, me reconheço: Eu, caminho de terra em mim!
          Ludmila

            

            Crônica: O retrato de Ludmila

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            Ao entrar no ateliê para mais uma seção de pintura, hoje pela manhã, a placa com os dizeres: livrai-me senhor dos abestados e dos atoleimados, que peguei emprestado de Hilda Hilst (Os dizeres e não a placa, infelizmente não a conheci pessoalmente), que coloco em cima da porta para espantar os espíritos de porco, olhou-me alerta esperando me pegar desprevenido. Meu sorriso foi inevitável. Imaginei-a sentada na sala, encurvada sobre a mesa de tampo redondo e brilhante, escrevendo seus textos, a lucidez estalando, vibrando a sua volta como uma descarga elétrica, fazendo saltar todos aqueles que raso na suas intenções entravam desavisados em seu horizonte. Meu sorriso se estendeu, senti ímpeto de gargalhar. Por algum motivo, quando percebo aquela placa, que há anos está no mesmo lugar, o dia fica diferente, é como se algo bom fosse acontecer. O dia começara bem.

            Alegre voltei meus olhos para a tela sobre o cavalete. Fazem mais de duas semanas que o retrato está sendo elaborado, pensei que terminaria em dez dias como os outros, mas não deu, este é diferente. Faz parte da série de convidadas que estou pintando. É o segundo da série. Convidei-as por serem especiais, são algumas das mulheres que se preocupam com a cultura joseense, todas se esforçam para, de uma maneira ou de outra, deixar o povo menos atoleimado e isso para mim é uma causa muito nobre.

            Parei em frente ao cavalete e aqueles olhos verdes, enormes, irradiando inteligência me olharam inquiridores. Faltam apenas algumas pinceladas para terminar. Essa é a parte mais difícil. Como já sei o que fazer, termino rapidamente.

            A arte consiste em saber finalizar. O propósito caminha até o ponto da concretização, não podemos ultrapassa-lo ou ele se perde caindo no caos. Assino, está pronto. Não posso mais acrescentar nada. Esta é uma regra que para o bem do meu equilíbrio mental não quebro em hipótese alguma. É a minha gravidade.

            Coloquei meus óculos para enxergar de longe e analisei o quadro com cuidado. Fiquei feliz por ter assinado assim que me sento, outra alternativa para construir a mão surge espontânea em minha imaginação, mas não sinto vontade de pegar o pincel. A força descomunal que me fez pintar aquele retrato extinguiu-se. Sinto-me tranqüilo e espantado por ter conseguido terminar. É uma sensação extremamente agradável apesar de contraditórias.

            A luz da lanterna que o interlocutor joga sobre o rosto da sacerdotisa que me olha da tela, se espalha para todos os lados chocando-se e refletindo, voltando a chocar-se até criar a imagem que estou vendo, ela é única exatamente por só poder ser vista por mim. Sabemos que a luz só é percebida quando incide diretamente sobre a pupila, somente eu posso vê-la, portanto, preciso ser honesto na hora de retrata-la. Calculo os possíveis ângulos da luz rapidamente, poderia ter colocado mais sombra ali, mais luz acolá, percebo incomodado, mas não sinto vontade de me levantar, está terminado. No próximo acrescento, prometo cansado, sei que este é apenas um estudo.

            Quando recebi a foto que ela me mandou, fiquei preocupado, era um close. Como colocar aquele rosto em uma tela cinqüenta por setenta? – perguntei-me ansioso. A sacerdotisa pagã, meio Celta, meio cigana veio a minha mente quase imediatamente. A Ludmila é assim: uma sacerdotisa do século XII, obrigada a viver no século XXI por força do tempo que não para.

            Não gosto de fazer retrato baseado em fotografia. A fotografia é uma arte por si só, essa tal de releitura é um negócio que ainda não digeri direito. Sempre imagino estar em frente ao modelo – claro que tem exceção – o primeiro retrato desta série, o da Sônia Gabriel, por exemplo, copiei descaradamente da foto. O fotógrafo, apesar de ter recém entrado na adolescência, conseguiu captar a luz ideal, um verdadeiro olhar de gênio.

            Pretendo pintar nove telas, ou quase isso, minhas convidadas são arredias e, como demorei em criar coragem para expor minha arte ao público, sou um senhor desconhecido e isto espanta os colaboradores. Infelizmente o ser humano gosta mesmo é de acompanhar a opinião da maioria. Faz parte da genética acho. Lembranças de aventuras imemoriais. Deu certo com um é provável que de certo com muitos – algo assim.

            A calma invade meu corpo e saboreio a visão do retrato por um longo tempo. Será que ela vai gostar? – pergunto-me preocupado mas logo afasto a duvida. Ela me deu carta branca, não poderá reclamar. Mas não creio que emitirá sua opinião, se contentará com um franzir de nariz ou um comentário sarcástico sobre a minha idealização, não espero mais que isso. Estou satisfeito.

            Levanto-me e vou a procura da máquina fotográfica. Ela será a primeira a receber a imagem. Uma pequena deferência pelo imenso prazer que me proporcionou. (Milton T. Mendonça)
            Cronica publicada no jornal O Valeperaibano e na Revista Entrementes

              

              Ave lua! Brilhai por nós!

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              No abismo noturno brilha a lua.
              Ilha branca que esconde suas faces no descampado da noite.
              Prenha de silêncios, ela fulgura majestosa: ora nova, ora minguante,
              ora cheia de mistérios ela corta os céus e, crescendo, governa as marés
              e se reflete no espelho de tantas águas.
              Rodeada de estrelas a lua é uma deidade que nos vela e nos revela.
              Ave, Lua! Brilhai por nós!
              (Ludmila)

                

                O exercício da escrita

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                Dúvida!
                Teremos nós, escritores, poetas, pensadores, pintores, músicos, uma voz própria, ou apenas refletimos, em nossas idéias criativas, os conceitos de nossos predecessores? Como nos desvencilhar do pensamento daqueles que nos inspiraram, ensinaram, esclareceram? No caso da escrita, como conseguir usar essas palavras que nosso idioma nos legou e devolvê-las à primitiva virgindade de conceitos, ou incutir-lhes um novo e inusitado sentido, uma nova interpretação, uma outra vestimenta? Todo escritor busca comunicar-se num linguagem própria, original, única…mas quantos o conseguem? Afinal…o que buscamos no exercício da escrita? (Ludmila)

                Ludmila, eu penso que, baseado apenas na minha própria experiência, em relação a escrita, quando começamos a escrever, ao dar os primeiros passos na escrita, costumamos sentir o chão, farejar os ares, atualizar-se na área, situar-se no momento, e até mesmo se identificar com algum autor ou estilo, antigo ou contemporâneo, e após um certo tempo, com muita prática e produção literária, passamos a ter uma identidade própria, um estilo próprio e peculiar. A nossa própria voz começar a soar do mesmo modo que os nossos próprios passos, quando aprendemos a imitar os mais velhos. Neste ponto, devemos soltar nossas mãos dos mais velhos. (Manoel Ricardo Jurema)

                Salvar as letras, a poesia, a história de um povo e o povo que conta estórias…salvar a si mesmo dos medos e a inteligência…da ignorância! O que me pergunto é : O que esperar da falta desse exercício?! (Birma Vicentim)

                Lud, querida, bem que eu gostaria de saber, mas acho que buscamos mesmo é reinventar o mundo: coisas, ações e criaturas e, sobretudo, a nós mesmos. Cada palavra é uma voz, uma música, um pé na frente do outro. Um beijo, Luz e Alegria. (Esther Rosado)

                A escrita é o lápis com o qual desenhamos as coisas do mundo; muitas vezes, sobre algo já tratado, desenhamos as nuances que passaram despercebidas, mas, outras vezes, adentramos em terrenos desconhecidos, onde temos que fazer nosso próprio desenho; lembro de como os escritores românticos, no Brasil, tentaram – e por muitas vezes conseguiram – desdobramentos criativos completamente desligados da matéria portuguesa, contribuindo para o enriquecimento da linguagem e mesmo da forma de encarar o processo criativo; desbravaram um universo até então relativamente intocado, que eram as vertentes da própria cultura brasileira; Renato Russo, em uma de suas letras, dizia : “mas quais são as palavras que nunca são ditas?” Eu diria que, fugindo ao conceito de que apenas pinçamos as palavras e lhas damos sentido, muitas vezes nos vemos descobrindo não um sentido no que já existe, mas construindo um novo universo; veja, então, Guimarães Rosa; já imaginaste o impacto causado pelo surgimento da simples palavra “NONADA?” (Thomé Madeira)

                Isso mesmo, Thomé Madeira. Cito de memória (desculpem os que nos leem, por qualquer mudança involuntária no poema) Lindolf Bell, que nos diz: “Não é a palavra fácil que procuro…Procuro a palavra fóssil. A palavras antes da palavra. Procuro a palavra palavra. Esta que me antecede e se antecede na aurora e na origem do homem. Procuro desenhos dentro da palavra,sonoros desenhos tácteis, cheiros, desencantos e sombras. esquecidos traços. Laços, encantos reescritos na área dos atritos…”Disso falo. Dessas palavras que cometem poemas. Palavras únicas que descobrimos e que fazemos nascer em frases inquietantes, que não precisam ser compreendidas pela razão, e sim intuídas, desdobradas em novas conjugações do verbo. Beijos, amigos! (Ludmila)

                  

                  Assombro

                  539579_561235943887203_481136748_nO que busco, hoje, é uma fatia de assombro:
                  o perfume do arco íris trazido pelo orvalho
                  uma teia de rendas no varal da noite,
                  um solo e violino imantado em frestas,
                  uma réstia lunar vencendo as densas nuvens,
                  um sopro de alegria sobre o céu de agosto.
                  É tão pouco, reconheço, mas onde? Onde?
                  (Ludmila)

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