Canção de Maria

Sepulcro santo

Em que encaixe desta cruz
Insere-se meu drama?
Em que jazigo, em que mortalha,
em que sudário? Eu penso
enquanto teço este linho
Que cobrirá teu corpo solitário.
Ah! O suplício de ver-te abatido
por essa lança a atravessar também meu peito.
Perdão, peço, meu Pai, não sei o que faço
Quando Lhe imploro que mude teu calvário!
Sei que tua fome e sede por justiça
Levaram-te à Via Crucis que hoje segues
Mas…esse vinagre untando o talho aberto
E essa coroa de espinhos que te veste
Refletem em mim a dor toda que sentes
Por esses homens que seguem ignorantes…
Sou uma dentre tantas mulheres da Judéia
Que choram sobre os corpos
De seus filhos mortos,
pelas vidas que teceram e se consomem
em lutas, traições e injustiças
No solo seco dessa Palestina
No solo seco desse mundo inteiro
Que Páscoa alguma, nunca, ressuscita!

(Ludmila Saharovky – Publicado no longínquo ano de 1980 no
Diário de Jacareí)

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