As Faces de Cristo

Cristo e São Neméas

Num interessantíssimo documentário produzido para a BBC (Inglaterra) arqueólogos e especialistas em reconstituição física a partir de crânios e ossadas, com a ajuda de computação gráfica, tentaram chegar o mais próximo possível de como teria sido a face de Jesus de Nazaré.
O rosto que nos acostumamos a ver, estampado em livros santos, imagens, ícones, filmes, na verdade não corresponde em nada aos milhares de tipos de esqueletos pesquisados, dos homens que viveram em Jerusalém há dois mil anos atrás. E por quê?
Simplesmente porque o biotipo da época mostrou serem todos eles de tez muito morena, pouca barba, cabelo curtos e escuros, olhos negros e traços fortes, muito semelhantes à população árabe de hoje.
Para as crucificações, eram utilizados troncos de árvores mortas, sobre os quais eram colocados paus na transversal, e, os transgressores condenados, amarrados, antes de serem pregados. Isto porque os ossos das mãos não suportariam o peso do corpo sem se partirem. Pelo mesmo motivo os pés também eram apoiados em suportes toscos.
O documentário seguiu estritamente o caminho da pesquisa histórica. Sem questionar dogmas ou escrituras. Tentando não arranhar a fé, fosse ela qual fosse.
Foram ouvidos médicos, antropólogos, arqueólogos, cientistas sociais, teólogos, espiritualistas, na tentativa de reconstruir historicamente o contexto social e político de dois mil anos atrás, sobre o qual pairam tantas dúvidas e controvérsias. Para tentar compreender cientificamente por quanto tempo um corpo humano suportaria tamanha tortura e suplícios.
Um condenado à morte pela crucificação levava sempre alguns dias agonizando.Sob o sol causticante, sem água, as aves de rapina à volta. O teste da lança era a prova derradeira do final. Ao Nazareno, estenderam uma lança com um pano ensopado em vinagre, relataram, para aumentar a sede. Alguns estudiosos levantaram a hipótese de que nele, em verdade, haveria poderia um preparado anestésico. Dopado, o corpo penderia, pareceria morto, e os discípulos poderiam recolhe-lo para preparar o ritual fúnebre, minimizando o sofrimento… Quem sabe até, argumentaram, conseguiram preservá-lo com vida.
Existe uma corrente de estudiosos, que acredita que Jesus foi salvo da morte por seus seguidores e viveu longo tempo pregando sua doutrina. Haverá os que concordam e os que discordam absolutamente desta afirmação, como sendo uma heresia. Dogmas da fé não se discutem. Aceitam-se ou não. E eu apenas relato aqui um documentário interessante.
O fato é que a existência deste Ser ímpar inspirou o surgimento de uma nova moral religiosa que sobrepôs-se a todos os cultos precedentes, ou seja, instituiu uma doutrina que pregou a ascendência da alma sobre o corpo, e a lei da compreensão, do respeito ao próximo e do perdão.
É uma pena, que dois mil anos depois, os homens prossigam matando, subjugando, humilhando e torturando, sem dor nem piedade, seus semelhantes, seus irmãos. Mas, se todos somos filhos de um mesmo Pai, e se toda a agressão é um pedido desesperado de amor, cabe a nós repetirmos e interiorizarmos as palavras do Mestre de Nazaré que no inspira. Ele, que, no auge do sofrimento, olhando para seus algozes, conseguiu dizer:
“Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem.”
Quantos de nós somos capazes de dize-lo, do fundo de nossa alma, sem julgar, sem pré-julgar, sem condenar?
Que a Páscoa não se resuma apenas à compra desenfreada de ovos de chocolate que já povoam, aos milhares, as prateleiras de todas as lojas e supermercados, e que consumiremos em nome de um renascer (que a data significa) muito, mas, muito distante de nós!
Creio ser esta uma bela reflexão para fazermos nesta quaresma que nos prepara para o reconhecimento do espírito que nos habita.
Ludmila Saharovsky
(publicado no site Regional News na Coluna Tertius Millenium, alguns anos atrás)

Leia mais: http://veja.abril.com.br/040401/p_064.html

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