Baba Yagá e Lhubatchka

Num país muito distante daqui, atrás de vales e montanhas, vivia um rico mercador, cuja mulher morreu, deixando-lhe a pequenina Lhubatchka, sua única filha.
Passado algum tempo, ele casou-se novamente, na certeza de que sua esposa seria uma segunda mãe para sua amada filhinha.
A madrasta mostrava-se gentil e amorosa com Lhubatchka quando o pai estava por perto, mas, quando ele partia…Não havia maus tratos que ela não fizesse com a pobre garotinha.
Finalmente, decidiu livrar-se da menina de uma vez por todas! Aproveitando-se de uma viagem do marido, ela chamou a enteada e lhe disse:
“Quero que você vá à clareira da floresta, na casa de minha irmã e lhe peça que me empreste linha e agulha, pois eu quero fazer-lhe uma camisa. Vá, vá! Depressa, menina! Depressa!”
Lhubatcka achou aquele pedido muito estranho, mas, como não tinha saída, obedeceu. Antes, porém, resolveu passar pela casa de sua tia, irmã de sua falecida mãe, para que a aconselhasse.
“Bom dia, titia!”
“Bom dia minha sobrinha querida! Mas que surpresa tão boa! Sua madrasta sabe que você veio me visitar?”
“Não senhora! Minha madrasta mandou-me ir à casa da irmã dela, na floresta, para buscar agulha e linha, pois ela quer me fazer uma nova camisa”!
“Ela mandou você ir à floresta? Mas a única pessoa que mora nessa floresta é a terrível Baba Yagá! E ela adora comer criancinhas! Há muito que eu conheço suas histórias, e vou ensiná-la a escapar dela.”
Dizendo isso, a tia deu-lhe um lencinho de seda colorido, um rolo de fita de cetim vermelha, uma garrafinha de azeite, um filão de pão preto fresquinho e um belo pedaço de presunto.
“Agora, escute-me com atenção: no jardim de Baba Yagá tem um espinheiro que irá emaranhar-se para não deixá-la voltar, então, você amarra seus ramos com esta fita.”
“O portão da casa da bruxa abre-se para você passar, e depois se fecha. Passe o azeite em suas dobradiças e elas irão se abrir com facilidade.”
Baba Yagá cria muitos cães famintos. Atira-lhes alguns nacos de pão para distraí-los. E, por último, ela tem um gato enorme treinado para arrancar os olhos das crianças que tentam fugir. Dê-lhe este pedaço de presunto.”
“Agora vá! Não tenha medo!”

E assim Lhubatchka seguiu o seu caminho. Andou e andou pela floresta, e quando já quase não se agüentava de tão cansada, viu finalmente a isbá da bruxa, no meio da clareira. A fantástica choupana dançava sobre duas pernas de galinha gigantes, pra lá e pra cá. Pra lá e pra cá! A cerca que a protegia era feita de ossos humanos, e em cima de cada osso brilhavam olhos vermelhos de caveiras. Ao perceber que a menina se aproximava, o casebre parou de dançar e a sebe e o portão se abriram permitindo-lhe que entrasse.
Lá dentro, uma velha arcada trabalhava num tear. Seu nariz quase tocava o queixo, do qual saltava uma verruga imensa! Seus longos cabelos brancos estavam presos num coque descabelado e, em sua boca enorme apareciam vários dentes de metal que rebrilhavam conforme ela falava com voz rouca e esganiçada. Realmente a bruxa era muito mais feia e mais terrível do que Lhubatchka poderia imaginar!
“Ora, ora…se não é a filha do mercador, minha querida sobrinha…O que a traz à minha modesta cabana?”
“Boa tarde,titia! Minha madrasta pediu-me que viesse aqui buscar agulha e linha para ela fazer-me uma nova camisa.”
“Muito bem, muito bem, respondeu a velha. Enquanto eu vou buscar o que me pediu, sente-se aqui na minha roca e continue a fiar…”
Assim que a menina sentou-se para fiar, a bruxa saiu para o quintal, chamou sua criada e lhe deu a seguinte ordem:
“Rápido, sua inútil, coloque lenha no fogão para aquecer a água, então, lave bem essa minha sobrinha que eu vou comê-la hoje no jantar! Agora vou dar uma voltinha no meu pilão e quando eu voltar quero encontrar tudo preparado!”

A menina ouviu a conversa de Baba Yagá e ficou apavorada! Tão logo a bruxa saiu, cavalgando em seu pilão, ela aproximou-se da criada e lhe falou:
“Ouça, boa moça, se você não esquentar a água para meu banho, eu lhe darei esse lindo lencinho de seda.” E dizendo isso, entregou-lhe o presente.
Baba Yagá logo voltou de seu passeio pela floresta, e, impaciente foi gritando pela janela:
“Você ainda está fiando, minha sobrinha?”
“Sim, titia, estou trabalhando, como você mandou!”
Enquanto a bruxa guardava seu pilão, Lhubatchka jogou o pedaço de presunto ao gato e perguntou-lhe como poderia escapar daquela casa. E o gato respondeu:
“Sobre a mesa da velha bruxa há uma toalha e um pente. Eles são mágicos”. Apanhe-os e saia correndo. Corra o mais rápido que puder, porque Baba Yagá irá atrás de você! De quando em quando, abaixe-se e coloque seu ouvido sobre a terra. Quando ouvir que Baba Yagá está próxima, atire ao chão a toalha. Ela se transformará num rio muito fundo e caudaloso. Até a bruxa atravessá-lo a nado, você já terá ganho uma boa dianteira!”
Quando se agachar novamente com o ouvido colado ao solo e ouvir que a terra está tremendo, é porque a bruxa está lhe alcançado de novo. Então, pegue o pente e o atire ao chão. Ele se transformará num bosque tão fechado que Baba Yagá não terá como passar.
Lhubatchka apanhou a toalha e o pente e saiu da isbá em desabada correria.
Os cães quiseram despedaçá-la, mas ela lhes atirou os nacos de pão e eles a deixaram passar. As portas do quintal se fecharam num golpe, mas a menina untou as dobradiças com o azeite e elas se abriram de par em par. Mais adiante, os galhos do espinheiro lhe fecharam o caminho, mas ela amarrou-os com a fita de cetim e pode passar.
Enquanto isso, o gato sentou-se na cadeira da roca e começou a fiar, mas a única coisa que conseguiu foi embaraçar e arrebentar todos os fios.
Baba Yagá, chegando perto da janela perguntou.
“Você ainda está fiando, minha querida menina?”
“Sim, estou, titia!” respondeu com a voz rouca o gato.”
A bruxa entrou na cabana e vendo que a garotinha não estava ali, e que era o gato que estava no seu lugar, ficou furiosa!
“Ah, gato imprestável Porque deixou minha sobrinha escapar? Sua obrigação era arrancar-lhe os olhos, caso ela tentasse fugir!”
“Estou a vida inteira a seu serviço, e nesse tempo todo a senhora jamais me deu um pedacinho sequer de queijo embolorado, já a sua sobrinha trouxe-me um belo pedaço de presunto!” o gato respondeu. “Então eu deixei-a ir!”
Baba Yagá foi, aos berros, tirar satisfação com os cães, com o portão, com o espinheiro, com a criada e todos não se furtaram de lhe responder à altura!
“Nós lhe servimos a vida toda, e a senhora jamais nos deu uma casquinha, que fosse, de pão velho, enquanto sua sobrinha nos regalou com um pão fresquinho e delicioso!” disseram os cães.”E nós não a atacamos!”
“Eu abro e fecho a sua passagem desde que mora nesta floresta, e a senhora jamais passou um pouquinho de sebo em minhas dobradiças, já sua sobrinha fez o favor de untá-las com azeite!” esclareceu o portão. “E eu me abri para ela passar!”
O espinheiro respondeu: “A senhora jamais podou meus galhos. A menina prendeu-os com fitas de cetim!” E nós não a arranhamos!
“Eu estou aqui desde que nasci, e a senhora jamais me deu um trapo que fosse, mas a sua sobrinha presenteou-me com um lenço de seda colorido!” disse a criada. Por isso eu não a preparei para sua refeição!”
Baba Yagá morrendo de ódio e amaldiçoando a todos, atrelou o seu pilão e saiu em desabada correria atrás de Lhubatchka.

A menina colocou o ouvido sobre a terra, como o gato lhe ensinou, e, ao ouvir a bruxa se aproximando, jogou a toalha que, imediatamente transformou-se num caudaloso rio.
Baba Yagá chegou à sua margem, e vendo o obstáculo que havia, em vão tentou obrigar o pilão a atravessá-lo à nado.
“Eu só ando sobre a terra”, respondeu o pilão, recusando-se a entrar na água.
Baba Yagá, trincando os dentes de raiva, não teve outro remédio senão voltar à sua cabana, reunir os seus bois e levá-los à beira do rio. Assim que os bois beberam toda a água do rio, a bruxa pode continuar sua perseguição à garotinha.
Lhubuchka colocou outra vez seu ouvido sobre a terra e percebeu que a bruxa estava novamente muito próxima. Atirou então o pente ao solo. Imediatamente uma intransponível floresta surgiu de seus dentes mágicos.
Baba Yagá pôs-se a roer os troncos das árvores com seus dentes de metal mas, apesar de toda sua fúria e seu esforço, não deu conta de abrir um caminho, assim, derrotada,voltou à sua cabana de pés de galinha, que dançava na clareira.

Enquanto isso, o comerciante voltou para casa, depois de sua longa viagem e foi logo perguntando à esposa:
“Onde está Lhubatchka, a minha filhinha querida?”
“Ela foi passear em casa de sua tia!” respondeu a mulher.
Passados alguns minutos, para espanto da madrasta, a garotinha entrou correndo e logo se atirou nos braços do pai.
“Onde você estava?” perguntou-lhe o mercador.
“Ah, papai! Minha madrasta mandou-me à casa de sua irmã para buscar linha e agulha para fazer-me uma camisa. Acontece que sua irmã era a malvada Baba Yegá, que por pouco não me comeu!”
“Mas como você conseguiu escapar da bruxa, minha pequena?”
Lhubuchka, então, contou para seu pai tudo o que havia sucedido, nos mínimos detalhes, assim como eu lhes contei nessa história.
O mercador, inteirando-se das maldades da madrasta, expulsou-a de casa, e viveu próspero e feliz com sua filhinha, por muitos e muitos anos!

(Conto de fadas russo, em tradução livre de Ludmila Saharovsky)

Dedico esta tradução às minhas meninas queridas e suas crias lindas: Márcia e Alecsia; Luciana, Nicolas e Anninha; Clarisse, Lórien e Maria Claudia; Rosali e Miguel e também à Luca, que aniversariou dia 10 de outubro. Beijão a vocês! Vovó Lud

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    7 pensamentos sobre “Baba Yagá e Lhubatchka

    1. Emocionante!!! Me peguei com os olhos estatelados de emoção e aflição. Coração ainda ofegante, mas já nos braços do Papai. Amei Ludmila, obrigada por dividir e deixar acordadinha a criança que mora em mim. Bj grande com toda pureza da Lhubatchka.

    2. Lud, eu e Anna acabamos de ler juntas o conto e adoramos… Ela se assustou, vibrou, amou as ilustrações, enfim, se encantou… Quer imprimir para levar para os amiguinhos na escola. Bjs

      • Que bom , Luciana! Fico feliz que Anninha tenha vibrado com a história da Baba Yagá! E viva oc contos de fada de todas as culturas! Beijão procês!

    3. Que fantástico e lindo trabalho, Ludmila!
      Sou pedagogo e psicólogo e admiro muito o valor e a beleza dos contos. Primeira vez que tropeço com contos russos. Me alegrei muito!

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