Devaneios


É incrível a sensação da grama sob meus pés descalços. Usufruo avidamente deste contato úmido penetrando por meus poros, entrededos, calcanhares.
E eu vou. Caminho. Ando. Passeio. Perambulo lentamente pelo tapete verde que se estende sob meus passos, sem roteiros nem metas de chegada. Não piso forte, apenas roço o gramado que sequer se amassa.
O vento morno acaricia-me a pele enquanto eu prossigo. Com doçura entrego-me ao sabor da calma travessia. Não sigo passo-a-passo. Eu flutuo, voejo, quase esvoaço no relvado. Ali, a árvore frondosa, a sombra farta convidando-me ao repouso. Eu deito e desfruto do silêncio ao meu redor. E eu mesma sou o silêncio e a árvore e a sombra. Eu sou o tronco fincado sobre a terra. E, a fome e a sede saciadas, desdobro-me ao sol. E eis-me pedra. Pesada, sólida, imóvel eu existo impassível. Impávida, exata eu permaneço firme: Rocha, rochedo, penhasco, fraga. Sou força bruta e me basto, incompreensível enigma do menir.Meus olhos invisíveis perscrutam oceanos, e me deixo ser polida, lascada, triturada. E eis-me espuma de cascata, delicada e branca. Eu fervo, borbulho e jorro. Evaporo. Sou chuva, rio, oceano, lago. Sou rega, sereno, aguaceiro. Sou onda, afluente, maré alta, turbilhão.Sou lágrima, suor, saliva, água. E eis-me pássaro, pulando sobre o peixe. E eis-me peixe, abocanhando a lavra. E eis-me vento, recolhendo gorjeios, balidos, risos e gemidos.Mimetizei-me em tronco e me tornei floresta. Penetrei na pedra e fiz-me fortaleza.Quedei-me na água e rolei cachoeira. Pisei na terra fértil e floresci.
E o vento soprou forte minhas sementes e eu renasci.
(Ludmila Saharovsky)

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    4 pensamentos sobre “Devaneios

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