O verbo Amar


Quem entende o significado de um termo, em sua essência, tem, com certeza, uma trajetória pessoal muito mais rica e proveitosa, pois desenvolve a capacidade de ir além da palavra escrita. Quem realmente conhece o conteúdo de um vocábulo, utiliza-o com mais força, adquire um poder peculiar, uma vez que algumas palavras possuem a faculdade de construir ou destruir outro ser humano.
Não é por acaso que o Gênesis inicia-se com a criação do céu e da terra através do Verbo, através do desejo proferido: Faça-se a Luz! E a luz se faz.
A palavra, portanto, é uma manifestação não apenas do conhecimento, como de magia, tanto que algumas delas são transmitidas em situações especiais, sussurradas, a poucos iniciados.
Sabemos que povos antigos como os egípcios, os chineses, os japoneses, possuem vários graus de escrita, destinados a diferentes grupos de indivíduos, de acordo com sua evolução espiritual e inteligência emocional.
A neurolinguística, hoje, modifica padrões de comportamento através da linguagem que atua em nosso cérebro a nível do inconsciente.
Palavras, portanto, constituem-se em iguarias raras. Precisamos aprender a degustá-las, dissecá-las, decodificá-las, penetrar em sua essência. Necessitamos de conhecê-las em sua total densidade ou completa volatilidade. Dominá-las não nos torna apenas mais ricos de significados e entendimentos; nos deixa mais sábios. Mais lapidados. Mais conscientes. Mais tolerantes. Quando descobrimos, por exemplo, que a palavra trabalho vem de tripalium – um instrumento de tortura composto de três paus, numa espécie de cruz – nossa compulsão por estarmos sempre fazendo alguma coisa, não é abalada? Não começamos a refletir sobre o sentido da ação?
Mas, voltemos ao verbo amar, que afinal de contas deu origem a esta crônica. Qual a sua raiz?
Aprendo com *Affonso Romano de Sant’Anna, que se remete a Bent Paroli, para nos ensinar que “a raiz da palavra amor é egípcia e não latina. Também nada tem a ver com o “ama” grego, embora este signifique “juntos”. Os gregos também falam de “eros”, mas a raiz dessa palavra indica “atividade”.
O vocabulário egípcio traz a raiz MR. Parece estranho. Os egípcios não usavam vogal. Mas eles escreviam assim e na hora de pronunciar, a vogal aparecia. E o fato é que MR se pronunciava “amer”, “amor”. Escrita com hieróglifos a palavra MR era representada por uma espécie de pá ou cavadeira de camponês abrindo a terra. Há um sentido agrário de fecundação cósmica. Amor, então, era como um ato de cultivar a terra.”

Este povo que reverenciava o milagre dos frutos e sementes, deixou-nos a raiz de uma palavra que hoje se vulgarizou tanto, que mal sabemos seu real conteúdo. Amar virou sinônimo de ficar, desejar, possuir, transar.
Se voltarmos, no entanto, à sua raiz primitiva, entenderemos o quanto é significativa a imagem de semear-se em terreno fértil para que os frutos não se percam na aridez, e a delicadeza deste sentimento único prevaleça!
O fato é que precisamos resgatar o exercício do amor, porque ele nos unge, ele nos transforma em matéria prima para a perpetuação dos mistérios da vida, em terra fértil para o inicio desta semeadura em nosso próprio interior, para que floresça um jardim de plantas raras chamadas: respeito, consideração, cuidado, carinho, dedicação, cumplicidade, saudade.
É isso! Um lindo dia de enamorados para todos nós.
Ludmila Saharovsky
(Crônica publicada na Revista Absollut edição maio/junho 2012)

*Sant’Anna, A. R. de. (2003). Amor, o interminável aprendizado. In A. R. de Sant’Anna. Melhores crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna. São Paulo: Global.

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