Nativitas


Natividade (óleo sobre tela de Antonio Gomide, 1962)

Nativitas

É só pensar em Natal, e nossa mente submerge num atoleiro de jingombells, hohohos, crediários que nos aliciam a comprar o que não nos fará falta, mensagens repletas de sininhos, anjinhos, paisagens nevadas, renas, papais-noéis, etc e tal! Isso misturado a anúncios de panetone, champagne, peru, tender, castanhas, amêndoas, nozes, uvas e mais, e mais e mais areia movediça de onde é difícil escapar!
Finalizamos o ano nos esfalfando em comemorações.
Mas, a bem da verdade, comemoramos o que?
Comemorar significa “trazer de novo à memória”. Rememorar. Recordar.
Trazer à memória o que nos foi caro, o que nos foi importante, o que nos deu prazer, o que nos marcou a existência, o que nos fez bem à alma, o que nos aproximou do Sagrado.
A palavra comemorar me remete sempre à imagem de degustar com a memória. Trazer à lembrança aquele lugar especial, aquelas pessoas queridas, um sentimento, uma época da vida, algo que não existe mais no presente, mas pode ser fisgado lá do passado e trazido até mim. É desse substrato que minha alma se alimenta, aquieta a mente, fortalece o corpo.
Creio que cada um de nós possui o seu substrato particular, que, tenho a certeza, passa ao largo desse natal anunciado pelas mídias, cantado em alto falantes, apregoado em ofertas dos hiper-mercados, ancorado em insanos congestionamentos à volta dos shoppings desse nosso planeta cada vez mais agitado!
Vou partilhar com vocês o que minha memória ama, comemora, e ressuscita a cada Natal: A casa quieta, o cipreste natural emitindo seu aroma de clorofila pela sala, o lampadário tremulando sua chama frente ao ícone de Virgem de Kiev (Ela, a deusa, o lado feminino da Trindade, que permitiu que em seu ventre o Espírito de Luz ganhasse a carne), o avô retocando os últimos enfeites da árvore, a avó tomando seu chá e relendo as receitas tradicionais que logo seriam confeccionadas, a mãe passando nossas roupas de domingo para a missa, o pai separando as partituras dos hinos sacros que o coral da igreja iria cantar, sob sua regência. Eu, sentada no tapete, bem ao lado do meu cão Juk, seguia com os olhos todos os preparativos, sentia um calor gostoso dentro do meu peito e agradecia ao Menino por nos proporcionar dias tão mágicos e felizes! A vida era mais calma, os apelos publicitários mais discretos, os presentes mais desejados, a família mais reunida e o espírito natalino, permeando de fé e amor nossa existência, quase se materializava naquela casa.
Vamos lá! Nesse Natal, convido cada um de vocês a mergulhar fundo nessa comemoração tão particular e única, vivenciando a bem-aventurança de presentear a alma com suas lembranças mais caras e preciosas.
Feliz Natal!
(Ludmila Saharovsky, crônica publicada no caderno Vale Viver do Jornal O Vale de 18 de dezembro de 2010)

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    10 pensamentos sobre “Nativitas

    1. celso paiva ferreira
      Lu e Li – somos um neste pensamento sobre o que comemoramos! certo – cada um de nós tem o substrato que vc falou e que sempre nos orienta e tranquiliza. Beijos pra todos os seus "gauchos" e pros outros seus que estão pelo Brasil afora!

    2. josepereira2008

      Amiga linda do coração como são belas e profundas todas as suas verdades, faço elas minhas para vc e todos a quem ama! feliz Natal.
      Grande beijo.
      José Pereira

    3. Gisele Braga Bastos
      Você hein… MARAVILHOSA!!!
      Adoro seu blog!!! Adoro Você!!!
      Você é um anjo de Deus e me inspira a sê-lo.
      Certamente foi a mais preciosa conquista do ano que se vai: ser sua aprendiz

    4. Querida Lu

      Como sempre, voce me faz chorar com as tuas mensagens tao profundas.
      Obrigada por dividir comigo o que a tua memoria ama. Obrigada por me proprocionar a oportunidade de ir no meu passado e megulhar fundo nas minhas comemoracoes privadas.
      Saudades,
      Feliz Natal!
      Mirian Ferreira

    5. edvaldoribeiro2010
      É isso ai… cara amiga Lú, a minha noção de Natal também é serena, sem o envolvimento do consumismo. Que os Deuses e as Deusas do Universo verdadeiramente influênciem nossos corações.
      É claro que algumas exceções são inevitáveis, mas que predomine a extrema misericórdia e compaixão nesse mundo tão carente de exemplos. Muita, mas Muita PAZ mesmo, nessas Festas de Fim de Ano.

      Um 2011 novinho em folha para todos…

      Também estou postando novos temas no Blog, me libertando de vários amarras e nós da minha vida, dê uma olhadinha ai ta bom, aguardo respostas.. e tbm acompanho sempre o seu blog com muita alegria e admiração!

      eroavaranda.blogspot.com

    6. Cristina Garnett
      Lud querida
      Como tudo o que você faz ,como todos os seus textos Lindo,lindo!Vou até mandar pra todos meus familiares.
      Um feliz natal com muita paz e amor
      Cristina

    7. Querida Ludmila,

      Que lindas palavras… vc é abençoada por Deus por ter o dom de escrever o q realmente gostaríamos de nós mesmos ter escritos…
      Vc é demais…
      Um Feliz Natal e um super 2011 para vc e todos aqueles a quem vc ama…
      Obrigada

      Darlene

    8. Querida Lud;

      Saudaedes de vc. e de seus textos. Grato pelo presente natalino. Este texto fez a distância entre vc. e seus amigos – posso me incluir ?, desaparecer.
      Fique com Deus ! Natal é Vida e Vida é Deus !

      Em tempo: Vou viajar pelo seu blog. maravilhoso.
      Tenha um Natal Iluminado e um 2011 resplandescente.
      Bjs.
      Cabrera

    9. Querida amiga
      Esse tempo que estamos vivendo; como você mencionou, de "atoleiro de jingombells" esfuziante e passageiro, não está aquietando meus sentimentos, e não creio ser a única. Também vivo mergulhada em lembranças de um tempo em que fui mais leve de corpo e alma.Portanto quero desejar a calmaria para essa turbulência, desejar a família reunida e o espírito natalino com nossos dedicados preparativos junto a família que construimos. Para homenagearmos a bem- aventurança do amor que Jesus nos ensinou! Feliz Natal !
      Ana Elisa

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