Discordar é viver

Vocês já se sentiram, em algum momento da vida, nadando contra a corrente? Falo da corrente existencial, que nos arrasta a todos, indistintamente, e tenta soterrar-nos na vala do lugar comum.
A resistência a ser igual, a pensar da mesma maneira e ter reações comuns a todos, não é um exercício que se pratica por livre e espontânea vontade, apenas para ser gauche na vida. Não é postura que se escolhe com intuito, único, de diferenciar-se da manada, de ser independente a qualquer custo, de ser sempre do contra.
Trata-se, eu diria, de uma necessidade existencial urgente/urgentíssima. Algo visceral, imantado em nosso ser e por isso mesmo, um percurso árduo, perseverante e absolutamente solitário.
Alguns nos vêem, por conta disso, como a um bando de chatos de plantão, que tem um prazer mórbido de discordar e destoar da maioria. Os mais condescendentes talvez nos qualifiquem de excêntricos ou extravagantes. Mas, a grande maioria absolutamente não nos compreende. E, em contra partida, nem nós a eles. É muito difícil assimilar antagonismos. Exemplo: Como não abdicar de um cargo de projeção e responsabilidade que assumimos, quando as discordâncias, mais do que ideológicas, tornam-se internas? Como ir contra nossos princípio e valores éticos, sem os quais, o poder só corrompe? Mas o poder, embora ilusório e passageiro, como tudo na vida, para a grande maioria de nós, vale qualquer manobra, qualquer sacrifício, qualquer conduta, inclusive as traições. A história que o diga!
Porque concordar com a voz geral que aclama um determinado livro ou autor que figuram meses em listas de mais vendidos, como gênio? Como poderia um medíocre ter tamanha projeção mundial? argumentam… De outro ponto de vista eles não assimilam nosso prazer em passar infindáveis horas nos deliciando com uma literatura quase marginal, garimpadas em prateleiras escuras dos sebos e livrarias, porque ausente das indicações críticas, e, por isso mesmo, descartadas, mas que cumprem seu papel: O de enriquecer a mente com insights que aprofundam nosso entendimento da condição humana. O fato de nos entretermos com poesia, então…nem se comenta! Ou com filmes de arte e música erudita… Não compreendem a aversão que temos por programas como o Big Brother, e a tanta porcaria que pulula nos canais de TV.
Isto, sem tocar no ponto doloroso e polêmico de verdades/dogmas que costumam ser defendidas como imutáveis, e geralmente até a morte! Verdades imutáveis…Que horror! As verdades são épicas, mudam com os avanços tecnológicos, científicos. Acompanham as mudanças de regras e conceitos. Clareiam-se pela compreensão de mistérios. Florescem e frutificam de acordo com o progresso de nosso entendimento e conceituação.
Creio que o mundo caminha melhor e se torna mais suportável, pela diversidade de opiniões e percepções, e não pelo uníssono das certezas inquestionáveis. Elas, as tais das certezas, podem até torná-lo mais forte, mas em compensação, mais cego, mais surdo a vozes sutis, e assim, elas vão derrubando tudo, violentamente, à sua passagem. Muitas vezes quase nos levam junto, aos que estamos à margem, de roldão. Mas, os que estão à margem, sempre perscrutam mais, divisam outras alternativas e, solitários podem agarrar-se a algum tronco submerso, estender a mão ao próximo e o salvar.
Por isso, de vez em quando, ocorre o que chamamos de milagre…
(Ludmila Saharovsky)publicado no jornal O Valeparaibano

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