Entrada de Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa
morada estava tão perto do abandono que dava até
para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens
profundas com os sapos, com as águas e com as
árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza
avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia
está frondoso de borboletas. No amanhecer o sol
põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me
empobrece. O rio encosta as margens na minha voz.
Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade
de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem.
Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então
comecei a fazer desenhos verbais de imagens.
(trecho de Manoel de Barros)
Advogado e poeta brasileiro, Manoel de Barros é um dos principais autores contemporâneos do país. O Pantanal é tema frequente de seus escritos.

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    2 pensamentos sobre “Entrada de Manoel de Barros

    1. Nossa! muito lindos esses textos! Como ele usa as palavras de um jeito tão diferente, e a gente entende lá dentro o que ele quer dizer! Não conhecia esse escritor! Você poderia me indicar seus livros?

    2. Eu não deixo de ler e reler Manoel de Barros desde que seu primeiro texto me surpreendeu e deslumbrou. É um de meus poetas de cabeceira. Ele é essencial para quem busca o "de dentro" das palavras! Os livros que eu mais gosto dele são: Gramática explosiva do chão, Arranjos para assovio, O guardador de águas, O livro das Ignorânças, Livro sobre o nada. Esse ano, no dia das mães, minha norinha Luciana, mandou-me de presente, lá de Olinda, a Poesia Completa de Manoel de Barros, numa belíssima encadernação de capa dura, da Leya Editora. Um presente que ADOREI e recomendo…

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