Diários Imaginários 3

Finalmente, após longa e solitária caminhada, alcanço o cimo da colina. Observo o vale silencioso e verde que se incrusta entre as montanhas e, cercada por esta natureza vibrando em cores e cheiros eu me descubro infinitamente limitada e frágil! Adentro por uma picada aberta por outros passos que me precederam, que amassaram um pouco do alto capim, permitindo-me um caminhar mais seguro e chego a um prédio desmoronado. Largas pedras arredondadas espalham-se pelo chão. As finas treliças de madeira que deveriam sustentar seu reboco sobrevivem dentre os escombros. As gretas úmidas e escuras mostram-se recobertas de limo alaranjado: incubadoras perfeitas para a população de insetos e pequenos roedores que lá se perpetua. Subo pelo que restou de uma escadaria e paro rente ao vão que se abre sobre mim. Seria um campanário? Sob o teto abaulado e ainda firme, me deslumbro. Arbustos brotam de dentro das paredes e emolduram inúmeros afrescos! Descorados, fragmentados, eles permanecem ali, desafiando o tempo. Afrescos! Observo-os em sua inacreditável sobrevida. Que força deles se emana! Fixo meu olhar e lentamente começo a perceber uma seqüência de cenas que descreve o primeiro casal no paraíso. Depois, pedaços de asas e a mão erguendo a espada flamejante, o rosto corroído pelo tempo, mas, ostentando mechas doiradas de longos cabelos anelados. Quase ouço a voz imperativa do anjo, ordenando-lhes que se retirem. Do outro lado, mais asas… e o vulto de uma jovem meditando. Seria a Anunciação? E quem a pintou? No mapa que me orienta, o local traz uma indicação: Ruínas do séc. XII. Afrescos entre arbustos a céu aberto num vale perdido entre montanhas, pintados há quase novecentos anos…Que presente raro! Penetro neste templo ou no que permanece de sua esplendorosa arquitetura com emoção e reverência, buscando em mim também vestígios de sentimentos religiosos sedimentados pelo tempo. Instintivamente faço o sinal da cruz e me ajoelho naquele lugar santo. Cavalos pastam ao meu redor. Ao meu redor, também, pardais e gralhas. E um céu azul, vazio de nuvens. A grama, agora muito alta, dificulta meus passos. E o som do vento… Fecho os olhos. Transporto-me no tempo e me ancoro naquele em que a fé realmente movia montanhas e erguia, sabe-se lá com quantos sacrifícios, paredes como estas. Símbolos de um período em que Deus, certamente, achava-se mais presente entre os homens de boa vontade. Tempo em que Sua graça inspirava pintores e profetas. Tempo de muitos ermitãos, grutas, cânticos e orações. Tempo em que os templos eram realmente refúgios para os que queriam proteger-se das tentações mundanas. Tempo em que a fé abria caminhos em meio ao mar, inspirava cruzadas, batalhas e peregrinações a lugares ermos para erguer capelas e monastérios. Depois…a destruição. Eu nunca vi, em parte alguma do mundo, tantas igrejas erguidas e destruídas, e novamente reerguidas. Na Rússia, as cúpulas redondas de seus campanários, à distancia, tornam-nas semelhantes a pequeninos cogumelos brotando em meio às florestas.Tão numerosas e únicas em sua arquitetura ímpar! Algumas permanecem imponentes, conservadas, as paredes brancas rebrilhando ao sol. Outras, muitas, jazem como esta… Esqueletos insepultos. O que eles nos dizem? Não sei….ou talvez saiba, e tenha medo de verbalizar…
(Ludmila Saharovsky em Solovky-Rússia)

Querida Lu

Não vejo a hora do livro ser publicado para poder ler a historia toda de uma vez. Os pedacos que você ja nos deixou ver são excelentes, portanto só imagino o livro todo. Esperando ……
Beijos de Las Vegas
Mirian Ferreira

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