Eu não sou Nélida Piñon

Um homem excessivamente alto e magro, aparentando uns setenta anos, tocou, de leve meu ombro, no interior do sebo que costumo freqüentar. Trajava terno já em desuso, de cor escura, a lapela larga lembrando os anos cinqüenta, que combinava perfeitamente com o resto de sua indumentária: camisa de colarinho e punhos discretamente puídos, gravata de nó perfeito num tom violáceo descorado e sapatos pretos polidos que apresentavam visíveis rachaduras no couro.
“Meu nome é Arbex. Theodor Arbex”. O som grave de sua voz saiu da boca de lábios finos e expressivos. “Pois não”, respondi, interrompendo a contra gosto o exame do primeiro volume de uma rara edição das obras completas de Dostoievsky, impressa em Portugal, e que trazia a seguinte dedicatória:
Para Andrei, com amor eterno de sua Ulliana. Agosto de 48.
“Vejo que a senhora está entretida com escritores russos, no entanto necessito urgentemente que me acompanhe.” “O Sr. fala comigo?” “Certamente!”
Por um momento, hesitei entre segui-lo ou simplesmente dar-lhe as costas e prosseguir na excitante tarefa de garimpar exemplares antigos para resgatá-los, movida pelo prazer inexplicável que cultivo, de inalar seus aromas, adivinhar-lhes a idade, saborear seu conteúdo, manusear aquelas páginas frágeis e amareladas imaginando quantas mentes os absorveram e quantas opiniões formaram-se a partir de seus relatos. Mas, por um desses caprichos do destino, tornei a depositar Fiodor Mikhailovitch entre seus pares, resolvida a acompanhar aquele estranho personagem que, sem dúvida, me impressionara. Que loucura pensei, enquanto caminhava ao lado daquela figura que parecia saída de algum filme noir, e me guiava por alamedas centrais, depois por vielas tortuosas, até que paramos defronte a um antigo sobrado, cujo portão abriu-se, não sem algum esforço.“Chegamos.”
Três ou quatro degraus separavam o pequeno jardim da porta de entrada. Um manacá preenchia com seu aroma adocicado toda a paisagem.
“Há tempos que a procurava”, disse-me abrindo a casa e fazendo-me adentrar num vestíbulo repleto de livros espalhados pelo chão.Meu ar de espanto parecia não incomodá-lo. “Acomode-se por favor, enquanto providencio um chá. É só abrir espaço no sofá.”
Do átrio pude perceber uma sala repleta de tomos dos mais variados autores, dispostos em estantes improvisadas. Alguns achavam-se acomodados no sofá de couro desgastado, outros ocupavam a escrivaninha de mogno que conservava ainda alguma imponência… e muitos espalhavam-se pelo chão.
“O Sr. possui belíssima coleção” consegui balbuciar, enquanto atravessava o corredor, totalmente tomado por caixas de livros sobrepostas, deixando um exíguo espaço para a caminhada até a cozinha., onde o quadro se repetia. Era impressionante!
“A senhora se incomoda se tomarmos o chá aqui mesmo? Estou tão feliz por tê-la encontrado… tão honrado que tenha aceito meu convite! Sua carreira literária, seu talento inigualável para a escrita, quantas vezes repito seu nome..Nélida…Nélida Pinõn. Eu tanto a admiro que resolvi nomeá-la herdeira do único bem que possuo….minha biblioteca”.
Um indizível mal estar percorreu-me o corpo. Mal tive forças para prosseguir segurando aquela xícara. “Desculpe-me Senhor, creio que houve um equívoco. Um enorme equívoco. Eu Não sou Nélida Pinõn”, consegui balbuciar com um fio de voz.
“Como não é Nélida Pinõn? A Sra. não nasceu na Galícia?”… “ Nâo!”
“Não mora no Rio de Janeiro?”… “Não!”
“Hoje não é dia 22 de agosto de 1984?”… “Não!”
“Então…queira perdoar-me, por favor…devo ter invadido o sonho errado”…
(Ludmila Saharovsky)

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