Os anjos de Novembro

Imagine que seu telefone toque e que, do outro lado da linha, uma voz amiga anuncie simplesmente: “Os anjos estão chegando”.
Suponha que você abandone qualquer coisa que esteja fazendo e, incrivelmente tocada pela inusitada mensagem, dirija-se até a porta de entrada de sua casa, abra-a e convide: “Entrem! Sejam bem vindos!”
O dia apenas começa a se delinear, cedo, cedo, nesse tempo de verão. Os primeiros raios de sol brilham tímidos, por entre as longas saias das samambaias penduradas na varanda, enquanto os anjos, três ao todo, acomodam-se ali, bem à sua frente, no sofá da sala; mais pressentidos do que visualizados: As leves e longas asas entreabertas, as vestes translúcidas, os pés calçados em finas sandálias de cetim, os cabelos, descendo em ondas pelos ombros. Você se intimida. Não sabe ao certo como tratá-los. Afinal, é a primeira vez que os recebe assim, também anunciados.
“Será que gostariam de tomar um chá de bergamota?” “Preferem um suco natural?” “Um copo de água fresca da moringa de barro?”
Na sala expande-se o silêncio e um singular aroma de jasmim e musgo. Você fecha os olhos e se acomoda na poltrona buscando nos escaninhos da memória todas as imagens angelicais arquivadas desde a infância: O anjo da guarda de túnica azul celeste, os braços estendidos, emoldurado na gravura sobre a cama, guiando-a através de tantas pontes sobre abismos; os gordos e sorridentes querubins espiando-a dos ícones do quarto; o arcanjo sério e esguio, apontando sua espada fulgurante para a saída do perdido paraíso; o suave anjo da Anunciação…Os serafins, os anjos barrocos, os góticos estampados em tantos afrescos de templos seculares… A que casta, a que estirpe os que hoje visitam-na, pertencem? Parecem tão humanos! Não fosse pelas asas…
Você entreabre os olhos e percebe que eles a observam fixamente.
“Viemos aqui para ouvir seus pedidos” dizem sem falar. A estranha melodia de sua fala reverbera em sua cabeça e você se emociona. Pede-lhes: “ Deem-me um tempo…por favor!” Necessita de acalmar o coração, controlar a ansiedade. Quer pensar. Pedir com qualidade, sem esquecer-se de nada. Pedir para todos, pois sabe que, se egoisticamente desejar só para si, poderá espantá-los, criaturas fraternas que são. Concentra-se então em seus desejos. Pede-lhes alegria, prosperidade, justiça. Saúde, paz, tolerância, harmonia. Enumera todos os detalhes. Pede para as crianças do mundo, para os filhos, os amigos e os inimigos, como se lhes falar fosse a coisa mais natural do mundo! Então, cala-se e espera. E no silêncio poderoso que se instala tem a certeza de que abriu seu coração. A manhã avança. Os raios de sol já alcançam-na e ferem seus olhos. Você desperta. “Que sonho lindo eu tive”, recorda! Dirige-se à cozinha para preparar o lanche da família. Abrindo a porta da varanda, uma pena branca, longa, inconfundível, estremece entre as samambaias e voa leve, em sua direção. No ar, um perfume de flores e de anjos permeia esse dia único de novembro, colorindo-o de paz e luz…(Ludmila Saharovsky)

Para Benny Lima. Ela sabe porquê!

    

    Mel de violetas

    Mel de violetas
    Caros amigos que me leem, eu nunca vivenciei algo semelhante. Acreditem se quiserem: A porta do meu armário de cozinha abriga uma colméia! Tudo começou quando uma abelhinha solitária resolveu adentra-lo pelo orifício da fechadura.Dona Wanda, minha assessora para assuntos domésticos, contou-me o ocorrido, mas eu, dispersiva como toda criatura que tem gêmeos no ascendente, registrei a informação em alguma gaveta de meu cérebro e prossegui em minhas múltiplas atividades, fato que me enquadra naquele percentual de seres que conseguem alhear-se de algumas informações, às vezes até importantes.
    Pois bem, passados alguns dias, mergulhada na tarefa de preparar o almoço domingueiro, ouvi um tênue farfalhar vindo do móvel em questão. Meu Deus! Seriam baratas? Ah! Eu odeio com todas as forças de minha alma esta espécie asquerosa de insetos! Não consigo, por mais que me esforce, entender sua serventia para o equilíbrio da natureza. O almoço que esperasse! Retirei gavetas, mantimentos, talheres, louça, panos de prato.Revirei o armário de ponta a ponta, e nada! Quando recolocava no lugar o último copo,de novo, o ruído! Olhei, apurei a vista, coloquei os óculos:Nada se mexia! Sentei-me desanimada, olhar perdido pelas paredes, e eis que, de dentro do orifício da porta surgiu uma abelha. E atrás dela outra e mais outras.Num voo curto sobrevoaram o espaço da cozinha e pousaram sobre o açucareiro, depois sobre o pote de mel e, como que seguindo um roteiro pré estabelecido foram deliciar-se com as flores das violetas, dispostas em vasinhos nos beirais das janelas. Íntimas do espaço, em fila indiana, retornaram ao ponto de partida, ou, melhor dizendo, à porta de partida.
    Encantada com a descoberta, chamei pelas crianças: “Venham depressa, ver as abelhas na cozinha da vovó!” Qual o que! Os desenhos do Discovery Kids estavam bem mais interessantes, e eu precisando de testemunhas! Gritei por meus filhos, que me responderam: “Mãe, mas qual é a urgência de ver abelhas na cozinha?” ”Mas não são abelhas voando, simplesmente na cozinha, gente” “Elas formaram uma colmeia escondida dentro da porta do armário, que deve estar cheia de favos repletos de mel em seu espaço oco” “E o mel logo estará vazando pelas frestas” “E a casa inteira embalada pelo zumbido atrairá a atenção dos vizinhos que espalharão a novidade.” “ E virão os repórteres e ficarão de plantão em frente à nossa casa, para transmitirem ao vivo”. “E o mel, não será qualquer um não! Será mel de violetas!” “ E, já pensaram que a porta, agora cheia de vida, poderá recuperar sua memória de cedro e brotar, abrigando entre seus galhos pardais e beija flores…e a mesa da copa seguir-lhe o exemplo?” “E a hera estampada nos azulejos começar a se espalhar, e contornar a geladeira, o botijão de gás””E se as rolinhas se aninharem no forno de microondas?” “Eu não conseguirei mais manter os gatos à distância, nem as borboletas, nem os grilos!”
    “Lá vai a mãe, viajar de novo, e nosso almoço, dona Lud como é que fica?”
    Ah! me desculpem os filhos, os netos, as visitas domingueiras, mas, uma porta produzindo mel,quem é que aguenta? Claro que eu tive que correr ao computador, e documentar o ocorrido: Mel de violetas. Vocês acreditam? Não? Pois venham experimentar! Já está todo engarrafado! (Ludmila Saharovsky)

      

      O sorvete de groselha

      Desde que imigramos para o Brasil, vínhamos morando em modestos cômodos de algum fundo de quintal. “Fundos” vinha escrito na correspondência, raríssima, que recebíamos. Agora, nessa outra casa não! Nela havia um jardim só nosso, com pequeno alpendre e janelas que se abriam para a rua. Um luxo único! Eu nem consegui pregar os olhos na noite que sucedeu ao dia de mudança! Observava encantada meu novo quarto, acostumando-me ao seu cheiro, aos ruídos que vinham da rua, a uma outra disposição da antiga mobília que compunha um ambiente nada familiar e por isso mesmo instigante: Que aventuras me aguardariam naquele bairro, naquela casa, em outra escola, eu imaginava, excitada, o olhar fixo no teto. Vocês não calculam a extensão da felicidade em possuir-se um quarto apenas para si: Poder ouvir o rádio até a hora que bem entendesse, ter uma cômoda e um guarda-roupa particulares, esparramar livros e cadernos sem precisar escutar as reclamações da avó! Mas, essa casa recém alugada possuía duas janelas que davam para a rua e, de uma delas, eu me apossei de pronto! O fato de não termos televisão, ainda, já nem me importava tanto. Afinal, de minha janela, todas as manhãs eu assistia o passar da vida: Via o leiteiro que deixava os litros cheios no canto do alpendre, carregando os vazios; o afiador de facas que tocava uma gaitinha anunciando sua presença: firuli…firuló. O verdureiro que empurrava ele próprio a carrocinha com alfaces recém colhidas, cheiros verdes e outras verduras, o vendedor de bijus e pirulitos batendo a matraca. Pela rua passavam bicicletas, carroças puxadas por cavalos, mães levando os filhos, pela mão, para o colégio com aquelas maravilhosas lancheiras de couro que possuíam repartição até para a garrafinha de suco. Elas constituíam-se em meu maior objeto de desejo. Eu ficava imaginando-me também portando uma, à tira-colo, o que evitaria que livros e cadernos fossem contaminados por aquele cheiro de pão com bife, ou pão com ovo de meu lanche, que ia simplesmente acondicionado num guardanapo, no fundo da mala escolar, junto à garrafa térmica contendo suco ou leite achocolatado. E à tarde passava o sorveteiro. Então… era uma festa! Primeiro a ladainha para conseguir a permissão de compra com o avô. Depois as recomendações de praxe: devagar…sem morder…olhe a garganta…E aí, aquela groselha gostosa, materializada em formato sempre tubular, escorrendo pelos cantos da boca, deixando grudado no palito o gelo branco e insosso.
      À noite, a criançada corria pela rua empoeirada, num alucinante pegador de bate latas ou esconde esconde, até que surgia o rapaz vendendo amendoim torradinho. A lata que lhe servia de fogareiro soltava mil estrelas prateadas produzidas pelo girar alucinante que avivava as chamas em seu ventre. Que horas seriam? Não importava. Havia como que um consentimento tácito entre a turminha: Depois do rapaz do amendoim, cada qual ia para sua casa. Menos eu. Eu já vivia dentro. Os avós não me deixavam brincar na rua. Coisas de moleques! Menina educada não vai! E não ia mesmo!
      Da minha janela eu via passar os namorados, os bêbados, os cães vira-latas, os caminhões da feira, os caminhões de água que, com grossas mangueiras assentavam o pó da rua, as freiras do colégio, os cegos vendedores de vassouras, num caleidoscópio de imagens plasmadas para sempre em minha mente. Era dali que eu observava a vida, tentando adequar-me à ela. E o tempo passou. De repente, eu cresci, amadureci mas não perdi a mania de ficar debruçada em janelas, agora virtuais, metade protegida pela casa,metade absorvida pelo mundo, vendo a vida passar, feito filme…
      (Ludmila Saharovsky)

        

        Matéria de Sonho

        Lentamente amanhece.
        E se a infância viesse até ela outra vez?
        E a infância vem, como que atendendo a seu anelo.
        Vem, não se sabe de onde, talvez de dentro dela mesma.
        Vem, e feito aquele pássaro que regurgita o alimento para saciar a fome das crias, coloca em sua mente a matéria viva da memória.
        E ela torna-se então seu próprio sonho.
        Memória…um retornar ininterrupto sobre os mesmos passos. Um caminhar sobre rastros indeléveis, sobre pegadas que o tempo não consegue desmanchar naquela terra antiga. Resgate de paisagens recobertas de neblina, e de um céu iluminado tantas vezes por relâmpagos de medo.
        Sobrevoar um território único onde se misturam inconfundíveis sons e cheiros. Espanto e descobertas. Invernos e verões. E para onde sempre se retorna, em busca de respostas.
        E assim se tece, vagaroso, o conhecido enredo. Poderá mudá-lo? Tenta: Desnuda-se. Queima aquelas vestes impregnadas de vivências. Não as quer mais… São tão pesadas! Em vão! As cinzas que delas resultam, grudam novamente em sua pele e refazem a mesma fantasia. E entre luzes e sombras ela caminha.
        Entre dias e noites, entre dúvidas e sobressaltos repassa aquele instante de sua vida: É um pássaro teimoso, voando rumo ao sol,e o amanhecer tão longe ainda! E se fugisse? Mudasse o itinerário? Colorisse as penas? Alongasse as asas? Engrossasse o trinado? Perdesse o norte? Como se construiria seu destino? Conseguiria ser aceita por um novo bando?
        Pensa em tudo enquanto vai prosseguindo em seu voo: Ali, campos de trigo, rios , montanhas, um vale imenso, um longo e sinuoso rio. Depois vilas, casas, jardins, quintais com dálias e abelhas. E um ancião sentado, embalando um sono de criança. Ela pára e observa aquele quadro, e uma ternura ímpar a envolve. Aquela cena lhe parece tão familiar! Ah! O aconchego, a nutrição do afeto, a sede saciada. A voz tão conhecida entoando uma velha cantiga de ninar. Confiante ela pousa tranquila naquele ninho e sua alma se aquieta. Um céu azul instala-se entre nuvens e todo o medo e insegurança se dissipam.
        Lentamente amanhece e a infância, resgatada, dorme tranquila, em seu regaço.
        (Ludmila Saharovsky)

          

          O nada, o oco, o vazio…

          Flaubert, no volume “Cartas Exemplares” (organizado por Duda Machado) escreveu, em 1852 para uma amiga (aliás, o único contato que ele mantinha com o mundo exterior era através da correspondência com poucos amigos) que queria redigir um livro sobre o nada, sobre o vazio. A que nada será que Flaubert se referia? A que vazio? Seria o existencial? O metafísico? O espiritual? O material? O nada…simplesmente, coisa alguma?
          Pareceu-me, no contexto, que Flaubert buscava uma obra que não tivesse um tema, que se sustentasse apenas pelo estilo. Um estilo tão aprimorado que se tornou inconfundível. Também pudera! Após uma desilusão amorosa, ao que se sabe, ele retirou-se da sociedade, isolando-se no campo, em solidão total. Ali, durante trinta anos dedicou-se exclusivamente ao trabalho literário. Pois é! Flaubert e sua famosa Madame de Bovary, que no fundo devia ser seu alter ego…Mas, por que Flaubert e seu desejo de compor um livro sobre o nada me vieram à mente?
          Talvez porque hoje, eu também esteja querendo divagar sobre o nada. O nada da recusa de reflexões, da rejeição de argumentos, do oco das palavras. O nada do esvaziamento de doutrinas, da perda da fé, do vácuo de ideais. Quero escrever sobre este algo absolutamente sem conteúdo a que temos assistido, lido, ouvido: sobre a política do vazio, sobre o niilismo, a falência da verdade, os desencontros, os desentendimentos, as antíteses, as diáteses, as diásporas, só porque são palavras que me soam igualmente sem sentido no contexto de uma crônica.
          Quero alcançar a sabedoria vegetal, a sabedoria mineral, porque a humana já me desgastou o suficiente. Quero mergulhar no nada, porque não aguento mais carregar as dores desta rotina de não ter possibilidades nem opções para mudar absolutamente um ínfimo percurso, neste mundo no qual existo. Quero mergulhar no vazio, porque cansei de todos os regimes, anarquias, utopias, propostas e promessas de construção de uma sociedade melhor, mais justa e fraterna para todos. Enfastiei-me de praticar valores éticos, morais, justiça, paz, respeito, honestidade, serenidade, que se diluem neste universo denso de idiotices. Quero uma dobra do tempo na qual não exista qualquer fresta, qualquer possibilidade de quem quer que seja invadir meu cotidiano com discursos tolos, inconsistentes e insustentáveis! Ah!…Eu desejo tanto pegar minha bicicleta azul e pedalar, pedalar, pedalar neste benfazejo vazio, em busca da Terra do Nunca, e nela, finalmente, esvaziada desta racionalidade que me sufoca, respirar! (Ludmila Saharovsky)

            

            Sob suas transparentes asas

            Há objetos, situações, lugares, que, inexplicavelmente, marcam-nos para toda vida. E digo inexplicavelmente, pois, por mais que tentemos, não conseguimos dissecar esses sentimentos. Há que senti-los. Em se tratando de objetos, alguns nem têm a importância que outros, mais valiosos, bonitos e singulares deveriam possuir, porém, numa abordagem pessoal de valores, nós os tornamos únicos e mágicos.
            Penso nisso, enquanto observo uma antiga gravura que preservo afixada sobre a escrivaninha, desde sempre! Nela, a estampa de duas crianças atravessando um pontilhão se perpetua. Atrás, zeloso, o Anjo da guarda. Mas por que eu a mantenho, por tanto tempo, mesmo manchada, descorada, corroída nas bordas? Não sei! Que sentimento tão leve de ternura ela me inspira? Esse calorzinho na alma! Eu a conservo porque necessito dessa proteção à qual tenho direito adquirido, desde o momento em que soube que anjos da guarda existem, com a única função de nos cuidar! Com o passar dos anos, fui conhecendo e me familiarizando com muitos deles, diferentes e interessantes: Góticos, barrocos, medievais. Doces e severos. Místicos e profanos. Eu os desenhei, descrevi, fotografei. Eu os admirei em museus, templos, galerias. Eu os vi em filmes, procissões, peças teatrais: Arcanjos, Querubins, Serafins. Alguns, muito populares como Daniel, Gabriel, Rafael. Outros quase desconhecidos como Sanvi, Sansavi, Samangelaf. E Samuel que se deitou com Lilith, a primeira mulher rebelde das Escrituras. E Pygar, anjo cego e futurista que atravessou os céus com Barbarela. E Seth, irrequieto e contemporâneo que resolveu sentir nossas humanas emoções, materializando-se no Cidade dos Anjos. Tantos referenciais, tantas figuras majestosas… e eu guardando essa velha estampa desbotada! Por quê? Porque gosto de seu clima! E não pensem que sou alguma angiologista compulsiva. Aliás, nem tenho afinidade com essa matéria. Não li um livro sequer da Bonfiglioli. Desconheço qual dia regem, a que hierarquia pertencem, que evangelista inspiram. Para mim, anjo é questão de foro íntimo. Inexplicável. Crer ou não crer neles, é opção individual! E eu creio! Sinto-me mais segura imaginando que caminha ao meu lado um guarda costas celestial exclusivo, a cujos cuidados retribuo com velas acesas, fé e muitas preces. Preces diversas das que eu fazia, há muito tempo, ao pé de minha cama, olhando aquela figura diáfana: A leve túnica de cor azul celeste como seus olhos, os longos cabelos louros ondulados na altura dos ombros, ela guardava meu sono e me protegia ao despertar: Santo anjo do senhor…meus zeloso guardador…. Um ser cujo comportamento, eu intuo, segue exatamente ao descrito no poema de Neide Archanjo, que recito, a guisa de oração: “O dia/ passado entre acácias/ e esquecimentos/ já se foi./ E dormem pessoas/ desassossegos./ Não o anjo./ Diante da presença/ que se desenha úmida/ porque chove/ e a noite é imensa /repito o nome/ que lhe dei./ Do umbral/ ele sorri/ em aliança” Pois assim é. Para explicar-se um anjo e o que ele representa , só a poesia ou a oração, ambas, linguagens da alma, que conseguem colocar-nos em sintonia com o Sagrado que nos habita. (Ludmila Saharovsky)
            (crônica publicada no jornal O Valeparaibano)

              

              Zenilda Lua, Tempo de delicadeza


              Meu pai agreste se foi bem cedo. Cativo do álcool abriu todas as torneiras do desafeto e nos deixou numa véspera de domingo ao entardecer.
              Meu pai católico, provedor de versos curtos, soltava fogos de artifícios, era cantador e pescador de primeira. Tinha voz terna e um cheiro diferente que eu infante desconhecia a procedência.
              Quando mais tarde dando falta de ternura e da sua mão que nunca mais tocara a minha, entendi a rudeza da sua fala e passei a detestar aquele cheiro com a maior força que a verdade pode guardar.
              Meu pai abortou as nossas passagens mais engraçadas. Proibiu flores e cantigas. Ficou sovina. Suspendeu sentimentos essenciais e por muitas vezes fez de sua presença um incômodo.
              Estendíamos a fita de cor para refazer os laços que a bebida havia esgarçado, ele nunca aceitava. Fortalecendo na gente aquela dor amargosa e deselegante.
              Não chorei a morte do meu pai. Suas escolhas renegaram minhas lágrimas, amor e fonte de ajuda. Após deixar seu corpo na lápide dois do cemitério São Miguel, voltei para casa descoberta e forte.
              Memórias.
              Guardei seus chinelos e o lençol que cheirava cigarros. A rede de pesca, arreios e sela, atrás da porta, adornavam silenciosamente a sisudez daquela tarde.
              Meus quatro irmãos e minha mãe choravam quando os abracei e saí indecifrável.
              Hoje entendo que tudo aquilo foi um aprendizado necessário para fortalecer minhas intenções.
              O quanto à literatura foi importante para mim naqueles tempos espinhosos de aconchego falho, liberdade negada, falta de despedida e bênçãos. Tudo aquilo promoveu em mim o desejo sóbrio de cuidar dos que me cercam. Percebi a família como base detentora de valores que regem nossa vida e história.
              Pobre meu pai, sem convenção espiritual ou intelectual perdeu-se nas teias venosas da caminhada etílica. Ouvindo Chico Buarque numa dessas manhãs risonhas de domingo, lembrei-me dos olhos claros que meu pai tinha e desprovida de dor chorei sozinha.
              “Depois de te perder
              te encontro com certeza
              talvez num tempo de delicadeza
              onde não diremos nada
              nada aconteceu
              apenas seguirei como ‘encantada’, ao lado teu”…
              Zenilda Lua

              Zenilda é uma amiga enluarada, que renova a linguagem, escrevendo textos deliciosos e delicados como este que publico, hoje, para vocês. Textos que nos tocam e emocionam. Beijão, amiga!

                

                Em nome do Pai

                De meu pai russo, além dos anticorpos que me afastam definitivamente de toda e qualquer bebida destilada (que ele consumia prazerosamente) herdei uma biblioteca dos clássicos russos, escritos no idioma original: Tolstoi, Lermontov, Dostoievski, Pushkin, Gogol, Boris Pasternak. Afastada da pequena colônia que ainda sobrevive em São Paulo, busco neles o exercitar da língua mãe, receosa de esquecer expressões e palavras. Tenho comigo que olvidando meu idioma natal, o sentimento de orfandade baterá muito mais forte, tornando-me estrangeira dentro de mim mesma, turista acidental perdida numa memória que, se não bem vigiada, irá esgarçar-se sem possibilidades de restauro. Os livros trazem-me de volta a uma dimensão de luz na qual as palavras materializam-se em vozes, em comentários tão familiares, em frases ouvidas dezenas de vezes, impregnadas de significados que preencheram minha infância: Nomes próprios, apelidos, evocações, provérbios, costumes, religiosidade. Só quem domina um idioma por origem, e dele é afastado, saberá do que estou falando. Mas, o pai relia incontáveis vezes Guerra e Paz, Anna Karenina, Irmãos Karamazov, e também as aventuras completas dos Três Mosqueteiros e O Homem da Máscara de Ferro de Alexandre Dumas, vertidas para o russo. Volta e meia eu o surpreendia mergulhado nessas obras que ele qualificava como sendo “de grande fôlego”, cujos personagens passaram a fazer parte integrante de seu cotidiano, habitando-o com a desenvoltura íntima de quem já faz parte da família. O interessante é que Wladi (jamais chamei o pai de pai, e sim pelo diminutivo de seu nome próprio, Wladimir) mergulhava nas histórias e emocionava-se com elas como se as estivesse lendo pela primeira vez . “Será que você avalia, perguntava-me ele, as características tão peculiares à alma russa, imersa desde a mais remota antiguidade, em batalhas físicas e morais…uma alma coletiva empolgada e arrebatada, moldada por uma religiosidade de entrega e temor a Deus, de súplicas de redenção e arrependimento pelas falhas humanas cometidas em momentos de covardia? Veja Tolstoi, por exemplo: um homem de educação refinada, um conde, um visionário, um profeta cuja fama atravessou fronteiras, o idealizador da política da não violência, lido e citado inclusive por Gandhi! Um escritor de cuja mente saíram romances inesquecíveis! Você sabia que ele viveu por cinqüenta anos atormentado por uma relação tempestuosa com sua mulher, entremeada por ameaças de suicídio e desaparecimentos, em meio aos quais geraram dezesseis filhos e morreu ancião, na estação de Astropovo, não longe de sua casa em Iasnaia Pollina, fugindo de sua Sofia Andreievna? Quem consegue explicar tamanha loucura?” Eu ouvia as histórias do pai atentamente. Era melhor que qualquer filme, qualquer novela. Sua admiração pelos escritores russos extrapolava os limites das obras criadas. Ele devorava também suas biografias, tentando acompanhar a lógica do pensamento de cada um, sua doutrina política, as angústias existenciais, como uma forma até, eu quero crer, de desculpar as suas próprias e inúmeras fraquezas. Quando o levei para o hospital, abatido pelo cansaço de viver, ele absolutamente aceitou qualquer trégua. Naquela manhã, ao lado da mesinha de apoio do sofá da sala estava aberto o romance Ressurreição. Nele, Tolstoi procurou criar um novo homem, com maior lucidez, tentando conduzir os povos a uma harmonia utópica, a uma ética que, infelizmente, só se concretizou nas ficções. Vladi partiu há quase quinze anos, quem sabe em busca da realização de todas essas utopias tão peculiares à alma russa, ou, quiçá, à todas as almas sensíveis de qualquer parte desse mundo, que hoje tanto me amedronta! Tomara que tenha conseguido! (Ludmila Saharovsky)

                  

                  Que mistério tem Clarice?


                  Leio nos jornais que a obra de Clarice Lispector está sendo discutida em Nova York, quase 28 anos após sua morte ( dez.1977). Clarice, essa criatura linda, misteriosa e intensa, transmitiu-nos através de seus escritos, conceitos que possibilitam inúmeras interpretações pessoais, de acordo com nossas próprias idiossincrasias, dos mistérios da vida. Eu a conheci num longínquo janeiro de 1972 ( ou seria 73?), sentada numa pracinha, no calçadão do Leme, o olhar perdido no horizonte. Foi assim: Todas as férias de verão, passávamos, eu e as crianças, em Copacabana, no apartamento da família. Explorar as inúmeras livrarias, garimpando exemplares pela sonoridade dos títulos, tornou-se uma deliciosa rotina de todas as tardes, através da qual acabei conquistando a amizade de um livreiro. Foi seguindo sua orientação que adquiri o livro “Felicidade Clandestina” e comecei a leitura naquele mesmo dia, enquanto as crianças brincavam ao meu redor à sombra esparramada de um “chapéu de sol.” O conto, “O ovo e a galinha” me surpreendera. “De manhã, na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo…O ovo não tem um si mesmo. Individualmente ele não existe. Por isso a galinha é o disfarce do ovo…” Que loucura! pensei. Fechei o livro, tentando assimilar aquele significado e só então me dei conta de que, do banco ao meu lado, uma mulher me observava. Gostou do livrro? Perguntou-me, carregando nos erres. Ainda não sei. Acabo de comprá-lo. Tem uma linguagem diferente de todos os que tenho lido. E o que gosta de lerr? Gosto de Osman Lins, de Nélida Piñon, da poesia de Hilda Hilst. Gosto de escritores que inovam a linguagem, prossegui, animada em poder fazer-lhe algumas confidências. (Porque será que confidenciar a estranhos é sempre mais fácil?) Sabe, eu comecei a escrever crônicas para o jornal de minha cidade, então vou aprendendo com esses autores, uma nova maneira de dizer as coisas… Isto é ruim, disse-me ela . Você só se transforma num bom escritor quando perde o medo de expor suas próprias idéias, quando aprende a contar sua história com suas palavras. A senhora é professora de literatura? perguntei . Não. Sou Clarice Lispector. Escrevi o livro que você está lendo. Olhei-a com atenção e espanto. Uma mulher de pele muito alva, o rosto marcado por uma cicatriz de queimadura. Magra. Os olhos claros num corte oblíquo refletiam um olhar triste. A voz grave, de fumante. Bonita? Não diria… Feia? Também não! Uma mulher forte, de presença marcante. Ao saber quem era, intimidei-me. Creio que era a primeira vez em que me deparava com uma escritora, assim, olho no olho, cuja obra eu ainda desconhecia. Como prosseguir a conversa? Passado algum tempo em silêncio, ela levantou-se e despediu-se, dizendo mais para si mesma, do que para mim: Escrever é olhar as velhas coisas com novos olhos. Boa sorte! Nunca mais a vi. Voltei inúmeras vezes àquele banco, perguntei por ela na vizinhança. Ninguém soube me dar qualquer informação, mas, a partir daquele encontro, algo em mim se modificou. Tornei-me sua leitora voraz. E assumi seus conselhos. Há trinta anos venho me expondo nas páginas de revistas e jornais, numa relação de troca com vocês, leitores, nesta feliz triangulação amorosa entre autor, texto e leitor e agradecendo sempre à Clarice por este aprendizado. ( Cronica Valeparaibano/2005) (Ludmila Saharovsky)

                    

                    Matéria de sonho

                    Lentamente amanhece.
                    E se a infância viesse até ela outra vez?
                    E a infância vem, como que atendendo a seu anelo.
                    Vem, não se sabe de onde, talvez de dentro dela mesma.
                    Vem, e feito aquele pássaro que regurgita o alimento para saciar a fome das crias, coloca em sua mente a matéria viva da memória.
                    E ela torna-se então seu próprio sonho.
                    Memória…um retornar ininterrupto sobre os mesmos passos. Um caminhar sobre rastros indeléveis, sobre pegadas que o tempo não consegue desmanchar naquela terra antiga. Resgate de paisagens recobertas de neblina, e de um céu iluminado tantas vezes por relâmpagos de medo.
                    Sobrevoar um território único onde se misturam inconfundíveis sons e cheiros. Espanto e descobertas. Invernos e verões. E para onde sempre se retorna, em busca de respostas.
                    E assim se tece, vagaroso, o conhecido enredo. Poderá mudá-lo? Tenta: Desnuda-se. Queima aquelas vestes impregnadas de vivências. Não as quer mais… São tão pesadas! Em vão! As cinzas que delas resultam, grudam novamente em sua pele e refazem a mesma fantasia. E entre luzes e sombras ela caminha.
                    Entre dias e noites, entre dúvidas e sobressaltos repassa aquele instante de sua vida: É um pássaro teimoso, voando rumo ao sol…e o amanhecer tão longe ainda…E se fugisse? Mudasse o itinerário? Colorisse as penas? Alongasse as asas? Engrossasse o trinado? Perdesse o norte? Como se construiria seu destino? Conseguiria ser aceita por um novo bando?
                    Pensa em tudo enquanto vai prosseguindo em seu vôo: Ali, campos de trigo, rios , montanhas, um vale imenso…Um longo e sinuoso rio. Depois vilas, casas, jardins, quintais com dálias e abelhas. E um ancião sentado, embalando um sono de criança… Ela pára e observa aquele quadro, e uma ternura ímpar a envolve. Aquela cena lhe parece tão familiar! Ah… o aconchego, a nutrição do afeto, a sede saciada. A voz tão conhecida entoando uma velha cantiga de ninar. Cofiante ela pousa tranquila naquele ninho e sua alma se aquieta. Um céu azul instala-se entre nuvens e todo o medo e insegurança se dissipam.
                    Lentamente amanhece e a infância, resgatada, dorme tranqüila, enquanto um outro pássaro, adulto e sereno, voa feliz!
                    (Ludmila Saharovsky, crônica publicada no jornal Valeparaibano)

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