Versos de sal e cinzas.

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Nem sempre me inspiram as flores e as estrelas que invadem minhas retinas e as povoam de luz e de esperança.
Também a loucura me inspira. Essa que incendeia a rotina dos dias e esgarça a certeza das coisas.
Nascem meus versos, então, cheios de sal e cinzas, como agora.
Digo: Vem! Senta-te à mesa e devoremos o desencanto das horas mortas.
Vem! Desfruta dessa tristeza que me transforma em pedra, cratera, abismo.
Vem! Te junta a mim e vamos sangrar as veias da poesia, até que os peixes cintilem na água, como as estrelas no céu. (Ludmila)
Arte do fotógrafo russo Stanislav Aristov

     

    João deitado

    broa de fubá
    Tantos anos vivendo aqui no vale, e, apenas ontem experimentei essa iguaria tradicional de São Francisco Xavier: broa feita de fubá e pinhão (opcional), assada enrolada em folha de bananeira. Com café coado quentinho… hum! delícia!
    O João Deitado é uma broa de fubá assada na folha de bananeira. O quitute é original de São Francisco Xavier, e foi uma influência dos tropeiros que passavam pelo Distrito, vindos de Minas Gerais e que consumiam a broa nos acampamentos a esquentando na folha de bananeira.

    Ingredientes

    1 kg de fubá- 3 ovos- 250 g de açúcar
    1 punhado de erva-doce
    2 copos de óleo
    1 colher (sopa) bem cheia de fermento
    Leite (quantidade necessária)
    Modo de fazer
    Em uma tigela, coloque o fubá, o açúcar, a erva-doce e o fermento. Misture tudo muito bem.
    Em seguida, coloque o óleo e um pouco de leite para dar ponto (não muito mole).
    Acrescente os ovos e mexa até atingir o ponto de pingar da colher.
    Controle o ponto acrescentando fubá ou leite.
    Depois, pegue uma folha de bananeira e coloque duas colheres da mistura.
    Enrole-a e leve-a ao forno quente para assar.
    Pode também ser assada na brasa.
    Se preferir, sirva com goiabada.

      

      Monteiro Lobato

      M.Lobato

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      Para chegar em São Francisco Xavier, sub distrito de São José dos Campos, obrigatoriamente passamos pela acolhedora cidadezinha Monteiro Lobato. Do site da Prefeitura, retirei as seguintas informações:
      “Antes de se chamar Monteiro Lobato, o município teve quatro denominações: Freguesia das Estacas, Freguesia de Nossa Senhora do Bonsucesso do Buquira, Vila das Palmeiras do Buquira e Vila do Buquira.
      Na língua tupi, Buquira quer dizer Ribeirão dos Pássaros. O povoado de Buquira foi criado em território de Caçapava e Taubaté sob a invocação de Nossa Senhora do Bonsucesso.
      Buquira só ascendeu à condição de Vila em 26 de abril de 1880 e, depois, a de cidade, em 19 de dezembro de 1900, criada através de lei estadual.Reduzida à condição de distrito em 1934, esta foi incorporada ao município de São José dos Campos, do qual finalmente se emancipou em 1948. Um ano depois ganhou o nome de Monteiro Lobato.
      O nome é uma homenagem ao eminente escritor José Bento Monteiro Lobato que na fazenda do Buquira, pertencente à sua avó, iniciou sua brilhante carreira literária escrevendo os admiráveis contos de Urupês. Mais tarde a fazenda do Buquira passou a se chamar Fazenda do Visconde e, depois, Sítio do Pica-pau Amarelo, que até hoje atrai grande número de turistas.”
      Sua população estimada é de pouco mais de 4.000 habitantes distribuidos mais na zona rural (2.500) do que na urbana (1.800)
      Pequena, aconchegante e pacata, Monteiro Lobato oferece aos seus visitantes, a paisagem ímpar da Mantiqueira, com trilhas na mata entre cachoeiras, o famoso Sitio do Pica Pau Amarelo, e deliciosos recantos para se tomar café, conversar, curtir amigos queridos que a elegeram para morar em meio à natureza. Pode-se provar a deliciosa comida da região em bons restaurantes com pratos fartos e muita cortesia de seus donos. Sempre que temos oportunidade vamos para lá, pois fica muito próxima de JACAREÍ e é um passeio que descansa os olhos e a alma.

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        Encontro na Mantiqueira

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        Todos sabem como amo este nosso Vale do Paraiba. A Serra da Mantiqueira, o rio Paraiba e seus afluentes, as pequenas cidades que o encrustam, a comida, o folclore, o povo, as atividades culturais, os amigos que cultivo.
        Pois bem, nos dias 17,18 e 19 de junho, São Francisco Xavier recebeu o primeiro Encontro na Mantiqueira- Literatura em foco: Reunião de escritores e palestrantes que debateram a literatura.
        O evento organizado por moradores desse distrito rural de São José dos Campos, resgatou a atividade criada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, e que foi realizada por oito anos, até ser cancelada em março, por conta da crise que assola o país.
        Inconformada com a notícia, a comunidade de SFX resolveu promove-lo por conta própria, independente do poder estadual, e, em em menos de três meses, com auxílio da prefeitura de São José dos Campos e da Fundação Cultural Cassiano Ricardo logrou êxito, com a união e o trabalho de todos: os donos das pousadas ofereceram parte das acomodações para os escritores convidados; a comunidade ofereceu refeições para os que participavam das atividades literárias por um valor simbólico; organizou o apoio logístico e a segurança com a guarda municipal; os simpatizantes ao movimento doaram livros para serem vendidos no sebo e voluntários participaram ajudando em todas as atividades. Os diversos espaços de São Xico foram ocupados por apresentação de grupos folclóricos, saraus poéticos, músicos, oficinas de encadernação para crianças e adultos, teatro de bonecos, contação de histórias, mesas de discussões literárias, debates, serenatas, apresentação de escritores autografando suas obras, enfim, inúmeras atividades tendo a literatura como foco. A livraria Xica Cultural abriu espaço para exposição e vendas de livros dos autores inscritos no Encontro e o encerramento teve o Show de Viola Caipira com a apresentação do festejado grupo Cordas da Mantiqueira. Assim, ficou mais uma vez comprovado que “a união faz a força” e que quem quer, verdadeiramente,”faz a hora, não espera acontecer.”
        Foi uma alegria enorme, fazer parte deste Encontro na Mantiqueira – Literatura em foco.

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          Bordo, logo existo!

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          Vivo um tempo de retomada. Retorno às mesmas mãos bordadeiras que guardei junto aos retalhos de cânhamo amarelado, onde, agulha e linha fixava pontos trêmulos ensinados por dona Rodeska, professora de artes manuais. Íamos, linha a linha materializando matizes e arabescos que depois alinhavávamos num caderno de capa grossa. Ele perdeu-se junto com a minha adolescência, em alguma dobra do tempo.
          Tarefas do século passado, relembro, saudosa, mas que resgato no presente.
          Bordo. E o vai e vem contínuo da agulha penetrando o pano, me relaxa. É um mantra que pratico com as mãos. Com linhas coloridas avanço: passo a passo. Traço a traço. Bordo Maria. Ela, deixada por último sobre a mesa, entre tantos outros riscos, ficou pacientemente à minha espera, na manhã ensolarada do parque. Bendito atraso, o meu! Penso e me emociono, acrescentando mais uma flor, mais um ramo, mais um detalhe. Há de sair bela! Agradeço à inspiração da artista que a criou e sigo. Ponto a ponto.Sem pressa. Desligada de tantos problemas que nos afligem, entro em outra sintonia: a da prece. Bordar também é uma forma de oração. Ave Maria! (Ludmila)

             

            A difícil convivência dos opostos

            Noell S. Oszvald

            Estamos vivendo tempos muito complicados.
            Paira no ar um certo desconforto, uma intolerância, um baixo astral que vem opondo irmãos, amigos, conhecidos que já não se reconhecem e começam, infelizmente. a se desprezar.
            Há os que adotaram a cor verde/amarela como bandeira e há os que foram hipnotizados pela vibração do tom vermelho, e o complicador é que estamos todos lado a lado, navegando num mesmo barco que se encontra à deriva.
            O enorme Titanic no qual viajamos está prestes a ir à pique. O iceberg da corrupção cresceu tanto (e hoje vislumbramos apenas a sua ponta) que, fatalmente, afundará o navio, e então estaremos, todos, no Mar das Tormentas.
            Haverá embarcações e boias para que todos nos salvemos? Não sei, mas logo, logo saberemos. Inevitável se torna, a essa altura, evitar a tragédia anunciada.
            Os passageiros da primeira classe celebram a vida no convés, enquanto o comandante nos leva para águas cada vez mais turbulentas. E nós, viajantes do andar de baixo, somos obrigados a alimentar as chamas da caldeira, com o suor de nosso corpo e o esforço sobre humano de nossos braços já cansados de remar contra a maré. Sentimos então, uma tristeza, um desânimo, uma angústia sem tamanho. Onde estará o tão sonhado porto de chegada para que, em fim, desembarquemos?
            Que itinerário é este que não escolhemos, perguntamos exaustos e começamos a nos revoltar contra tudo e contra todos: contra o navio, o capitão, a classe executiva, o mar revolto… e nossa tristeza é substituída pelo ódio. Pela raiva. Pelo medo. Passamos então a dar espaço a todos os demônios que habitam o nosso lado negro. Vociferamos contra o comandante, amaldiçoamos seus imediatos, maldizemos os passageiros privilegiados e anelamos, do fundo de nossa alma, que este navio vá à pique! Mas, detalhe: também estamos nele! Caso o navio afunde, todos pereceremos nessa viagem.
            A única forma de sobreviver que nos resta, é olharmos para o distante horizonte e acreditarmos que a tormenta há de passar em breve. Então, nos agarramos ao leme da esperança, e oramos para que a justiça, a ética e a moral prevaleçam neste mar revolto e nos conduzam novamente à terra firme. (Ludmila)

            (Crônica para a Revista Absollut com fotografia de Noell S. Oszvald)

              

              Reminiscências

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              Hoje quero celebrar a leveza dos ipês e suas flores bailarinas. Elas dançam para o sol desta manhã, que caminha entre linhas, agulhas, conversas e bordados. Quero bordar a alma em festa, o sorriso que não se apaga, a sombra que nos alcança, a aragem repleta do tagarelar dos pombos e das angolas que ciscam linhas caídas como se fossem grãos em meio à grama do jardim. E a lenta alegria que se apossa de nossos dedos matizando panos e confidências. Quero bordar as flores e as abelhas, o ruido da mata que nos cerca, o azul que se espelha em nossos olhos e nos torna também, partes de um bordado no cenário desde Parque onde, menina ainda, senti pela primeira vez um medo visceral de que a tuberculose levasse para sempre o meu avô. Hoje, ele me espia entre os ciprestes, me acaricia na brisa que sopra leve nessa manhã e me inspira a fazer da arte o meu ofício, e também a senha para me equilibrar neste mundo, matizando sonhos e esperanças. (Ludmila no Parque Vicentina Aranha, antigo sanatório para tratamento de tuberculosos em São José dos Campos)