Carlos Herglotz

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Estou muito feliz em fechar o mês de abril com chave de ouro, apresentando a vocês, este grande artista naif que é Carlos Herglotz. Suas pinturas, onde predomina, radiante, o azul cobalto, pelo visto, sua cor predileta, são de um lirismo e delicadeza ímpares. Minimalista na escolha de seus enfoques, ele contrapõe a eles, uma riqueza de detalhes tão primorosa, que nos obriga a ver nas entrelinhas. Seus quadros nos convidam a entrar em suas imagens e brincar nos labirintos coloridos que estampa.
O azul nos alicia e hipnotiza. Difícil despregar o olhar de seus desenhos.
Eu aprecio demais a arte primitivista. Ela flui nas pinturas com toda a inocência da natureza humana em seu estado de pureza original, e, ao mesmo tempo, percebe-se em cada artista, a sua própria visão de mundo e interpretação da realidade. E, a visão de mundo que Carlos Herglotz nos passa, é de fé e de esperança. Que a arte, pois, sempre nos redima! (Ludmila)

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Breve história pessoal
Carlos Herglotz nasceu em Taubaté, Vale do Paraíba. Lecionou arte e artesanato pra gente jovem, gente idosa, surdos-mudos, presidiários, ricos, pobres. Agora ensina os artesãos a preservar seus ofícios e tradições.
Apaixonado por Francisco de Assis e seus ideais, foi também frade franciscano.
Já viveu em São Paulo, no Paraná, em Sta. Catarina e no Rio Grande do Sul. Esteve um tempinho também nos Estados Unidos.
Ultimamente, passou um bom par de anos em Minas Gerais. Ah! Minas Gerais… As belezas da terra, das serras, da gente e da tradição.Tudo isso calou mais fundo ainda em seu coração. E é essa emoção acumulada que transborda em suas pinturas. Apresentação retirada do blog www.carlosherglotz.blogspot.com.br

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    E quando a palavra não existia?

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    E quando a palavra não existia?
    Quando pedra era pedra, simplesmente, reconhecida em sua essência pelo toque? E noite era noite, e chuva era chuva, e ave era ave, e as emoções que provocavam permaneciam agarradas aos nossos ossos e medulas e passavam a fazer parte de nosso inconsciente? Nesse tempo as palavras dormiam no silêncio da mente e não faziam falta. Tudo podia ser reconhecido pela cor, som, odor, energia, movimento. A cor falava aos sentidos: o homem pintava-se de vermelho e buscava ação. Dela nasciam o ardor e os impulsos, e as conquistas iam se realizando.
    O amarelo remetia à alegria, à exuberância, ao sabor doce das frutas maduras: o calor do sol incitando à vida.
    E vinha o aconchego do verde, a relva, a cama de folhas macias, o olhar vagando pelos campos infindáveis sem sustos nem atropelos.
    E no azul do céu e do mar, estava o desprendimento, o infinito, o sonho, o desejo das profundezas e das alturas.
    O marrom era a cor do campo lavrado, do cansaço ao final do dia, da magia das sementes germinadas no útero da grande mãe, a terra.
    E o negro manto do mistério recobria tudo: a noite, a caverna, o medo, os demônios, os assombros, até surgir o branco da lua, da clareza, da luz difusa, dos momentos de paz quando tudo se aquietava e o homem observava o céu buscando nortear-se pela disposição dos astros!
    Não sei se foi realmente o Verbo que criou tudo o que existe. Penso que ele nomeou as coisas que havia e então começou nosso delírio! Colocamos nas palavras um peso e uma importância que elas não podem suportar…
    Quem sou eu? Ninguém mais se identifica como a energia que permeia a forma. Ninguém se reconhece como a semente que se fez corpo composto por terra, fogo, água e ar. Por luz, cor e fantasia!
    Palavras não rompem cercas nem libertam. Elas não gemem nem choram. Não nos envolvem nos tons do arco-íris. Não nos perfumam. Não nos refletem. Não nos redimem.
    Palavras não desvendam os segredos dos oráculos. Estes se revelam nos ossos, nas vísceras, nas pedras, no fogo, na areia, nas sementes… Quiçá nas estrelas!
    Mais vale um aceno! Mais vale um beijo, um abraço, um soco, um uivo, um sorriso, um cheiro.
    “Ao criar uma palavra para cada coisa substituímos as coisas pelas palavras” já descobriu Foucault. E então mergulhamos na ilusão, mergulhamos em maya.
    A vida é dominada pela ação em si, e não pela palavra!
    Mas, basta reconhecermos em nós que a palavra é uma falácia, que o verbo nomeia mas não revela a essência, e que é no silêncio que ouvimos a voz de nossa alma, e então as cores, os sons, a luz e o movimento nos levarão para aquele outro lado, onde o verbo não se faz carne, mas assim mesmo nos habita!
    (Ludmila Saharovsky)

      

      Cora CoraLINDA

      Cora Coralina
      Livro e autógrafo de Cora Coralina, nossa poeta tão festejada, e que terá sua vida e obra trasportada os palcos, ano que vem, pela Cia. do Interior, com a direção segura de Marilda Carvalho e interpretação sempre talentosa de Ana Maturano. O projeto encontra-se em fase de pesquisa de historia e produção intelectual de nossa querida poeta dos becos de Goiás. Sucesso, amigas!( Ludmila)

         

        Árvore Adentro – Octávio Paz

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        Cresceu em minha fronte uma árvore.
        Cresceu para dentro.
        Suas raízes são veias,
        nervos suas ramas,
        Sua confusa folhagem pensamentos.
        Teus olhares a acendem
        e seus frutos de sombras
        são laranjas de sangue,
        são granadas de luz.
        Amanhece
        na noite do corpo.
        Ali dentro, em minha fronte,
        a árvore fala.
        Aproxima-te. Ouves?

        (Trad. Antônio Moura)

          

          Um fraterno mundo amarelo

          Van Gogh e Sônia
          Van Gogh
          Saímos de Paris bem cedo, logo que entrei no carro e registramos no GPS o destino Auvers-sur-Oise, minhas mãos suavam e meu coração estava sem prumo. Aquele encontro havia sido marcado anos antes, depois do saque a uma lixeira. Foi durante uma tarde enamorada. Enquanto tomávamos sorvete, vi um senhor depositar no lixo um saco de livros. Raras audácias são mais legítimas que aquelas realizadas pelos namorados. Eu, engenhosamente, pedi e ele sucumbiu. Invadiu a lixeira e o objeto do saque foi parar no porta-malas do Opala verde. Dentre os livros, uma biografia de Vincent Van Gogh, edição de Lisboa, início de século XX.
          Entramos na rodovia rumo a Van Gogh. Sabia o que encontraria lá depois de tantas leituras, visitas virtuais e viagens por suas telas, mas jamais poderia me preparar para o que sentiria naquela manhã fria e chuvosa de novembro. Logo na entrada de Oise, as pequenas casas do vilarejo já vão nos seduzindo. Uma avenida discreta faz vezes de máquina do tempo. As ruas vão se tornando mais estreitas, as pedras constantes, os telhados avisando que estão por lá há muito tempo e já viram tanto que uma vida apenas não me bastaria. Lamentei ser breve, naquele instante. Efêmera como as fumaças que fugiam das chaminés encantadas.
          O outono me presenteou; talvez me esperasse, pois sabia o quanto é imenso meu apreço pelo ilustre e antigo morador que ali repousa. As folhas extremamente douradas caiam constantemente, o vento gelado não deu trégua e a chuva fininha, caseira, arrematou o toque final ao quadro que Van Gogh me permitiu viver.
          Por todos os lados para os quais meus olhos eram sequestrados, tudo estava amarelo. As árvores, as pedras antigas, as folhas forrando o chão, as escadas, as sacadas e os telhados.
          Enquanto assisto mais uma vez as imagens da paisagem eternizada na câmera, sou capaz de sentir o frio que me arrebatou naquele dia, as folhas invadem minha tela e as lágrimas que lá chorei, agora não são menos intensas. Que poderia Van Gogh diante de tanta força amarela? Render-se e nada mais. O fez profundamente.
          Sua morada; a estátua discreta, mas elegante, avisando que ali ele viveu e pintou, ou melhor, que ali ele pintou e, por isso, viveu um pouco mais (foram 70 quadros em 78 dias); as vielas; as escadas onduladas e a cada esquina uma imagem familiar para quem o lê, admira e se espanta por vida tão especial e enigmática daquele que o tempo decidiu ser um gênio.
          É indiscutível a genialidade de sua obra, mas tem algo em Van Gogh que me encanta tanto quanto seus quadros, a amizade entre o pintor e seu irmão Theo. Talvez seja difícil compreender esse fraterno amor os que não conseguem conviver com seus irmãos. Uma leitura superficial da biografia de ambos já espantaria os individualistas. Como Theo investiu, insistiu e cuidou tanto de um irmão imprevisível, tantas vezes irascível! Não cogitou não amá-lo. Mesmo diante de sua constante metamorfose emocional, o irmão o acolheu na família que constituía. Tentou entender seu ciúme, suas angústias, sua solidão e aceitou seu talento, possibilitando que ele se manifestasse.
          Quando Van Gogh abreviou sua vida, foi com Theo que passou suas derradeiras horas, consta que conversando. Depois que morreu, o pintor de força amarela fez falta ao irmão. Theo faleceu seis meses depois; ele amou tanto seu irmão mais frágil que sua esposa fez questão de enterrá-lo ao lado de Vincent.
          Fiquei por ali, algum tempo, admirando as duas derradeiras moradas discretas, antigas, limpas. Depositei minha pequenina flor amarela e agradeci por ele ter nascido, resistido, sonhado, pintado. Agradeci sua existência humana, sua resistência artística, sua transcendência permanente em nossas paredes antes vazias. Agradeci pelo exemplo de seu irmão. A lição de Theo não é menor, seu viver nos convence da beleza daqueles que cuidam dos seus, sabendo árdua a missão, não desistem diante da facilidade de poderem escolher seus irmãos, conviver com os que privam de nossas expectativas e sonhos e não nos exigem.
          Theo e Van Gogh foram mais que amigos, foram irmãos. Poucos irmãos amaram tanto quanto o irmão de Van Gogh. Poucas imagens me calaram tão profundo quanto o cenário do repouso de ambos.

          Sônia Gabriel
          (Jornal de Caçapava, 29 de abril de 2011.)

          Não há como não se emocionar com este relato de viagem, dessa moça tão especial que é Sônia Gabriel.
          Professora de Historia, Pesquisadora de Cultura Popular, Especialista em gestão da qualidade do Processo Pedagógico, autora do livro Mistérios do Vale (já em segunda edição) e Co-autora, junto com Rita Elisa Seda de Eugênia Sereno, a Menina dos vagalumes, Sonia mantem um blog delicioso, que merece ser visitado por todos os apaixonados pelo Vale do Paraiba e sua historia, e suas historias, histórias de Sônia, que, como ninguém, sabe contá-las e nos encantar. (Ludmila)

          misteriosdovale.blogspot.com

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            Todo dia é dia de índio!

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            Foto de Andrea Ribeiro

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            Hoje, 19 de Abril é comemorado no Brasil o Dia do Índio. Comemorado?
            Bom! Deixemos pra lá!…
            A data foi criada em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas. O Dia do Índio é destinado a vários eventos que remetem à valorização da cultura indígena, além de estar voltado à reflexão sobre a importância da preservação dos povos indígenas, da manutenção de suas terras e respeito às suas manifestações culturais.
            Como imagens falam mais do que palavras, selecionei para vocês as fotos dessa fotógrafa magnífica: Andrea Ribeiro, que registra imagens de índios brasileiros desde 2005 e já fez muitas exposições sobre o tema.
            Mais fotos dessa artista poderão ser vistas no blog:

            umolharindigena.blogspot.com.br

               

              O sumiço das galinhas

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              Como todos, na vizinhança, no bairro em que morávamos em Carapicuíba, nós também tínhamos um galinheiro. Quantas vezes eu despertei ao som dos galos saudando o nascer do sol, cada qual com seu cocoricó particular – sempre estridente – como tão bem descreveu João Cabral de Melo Neto em seu poema Tecendo a Manhã:
              “Um galo sozinho não tece a manhã/ ele precisará sempre de outros galos/ de um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro; de um outro galo/ que apanhe o grito que um galo antes/ e o lance a outro…”
              Pois era exatamente assim que amanhecia nos dias de minha infância. Logo, adultos e crianças pulavam da cama para enfrentar as lides, que não eram poucas! Nosso galinheiro era um cercado de tela no fundo do quintal, onde o avô improvisara um tosco telhado de sapé que protegia o poleiro. Nas feiras-livres havia um grande comércio de galinhas poedeiras: ruivas, brancas, carijós. Seus ovos, depois de galados, eram reservados. Assim que alguma começasse a apresentar sinais de que iria ficar choca: as penas arrepiadas, a cantilena diferente, a busca de um canto para se aninhar, já a avó corria para providenciar os ovos e eu ficava torcendo para que os pintinhos nascessem logo. A transformação de um ovo num ser vivo foi o primeiro milagre que presenciei. Com o passar dos dias, eles iam ficando mais pesados e, ao serem observados contra a luz, percebia-se, nitidamente, que dentro se formavam os contornos de outra ave: o bico, os pés, as tênues veias transportando o sangue. As vizinhas dependuravam-se nas cercas que delimitavam os quintais, em busca de uma prosa que acontecia mais por gestos do que verbalizada. Ainda não dominávamos tão bem o novo idioma, assim, na base de muita mímica, eram informadas de quantos ovos haviam vingado. Ofereciam então talos de couve, folhas amassadas de alface e outras verduras que, bem picadinhas, reforçavam a dieta daquela numerosa prole alimentada também com quirera e minhocas. Em algumas semanas as aves começavam a adquirir características próprias, revelando o sexo. Os varões eram sempre os mais briguentos, sendo os primeiros a cumprirem seu destino de ensopado!
              O curioso era como cada família Identificava suas aves. Uma fita colorida atada ao pé, logo remetia as extraviadas ao seu dono, num código que permitia a todos um convívio absolutamente pacifico.
              Certo dia chegou à vila um circo mambembe composto por alguns pares de artistas, meia dúzia de caminhões, um casal de pôneis amestrados, alguns cães vestidos com saiotes e boleros, um elefante muito triste e um leão meio cansado…Não é preciso dizer que a garotada entrou em êxtase! Naquele fim de mundo, um circo era uma transformação radical da rotina. E foi! Tanto que, após anos e anos de distância que me separam dos fatos, rememoro como se fosse ontem, a indignação de D. Rosa, inconformada com o sumiço de sua carijó. Foram aqueles desocupados, afirmou ela convicta, indo tomar satisfações com o homem magrelo que, equilibrando-se sobre longas pernas de pau, gritava pelo megafone as atrações de cada espetáculo. O dialogo esquentou de tal maneira que foi preciso chamar Seu Raimundo, o guarda civil, para apaziguar os ânimos. Mas… a galinha de D. Rosa não foi a única a desaparecer misteriosamente. Outras a seguiram provocando um reboliço na rua, maior do que em dias de feira ou de quermesse! Eu sei é que, por conta do desaparecimento das aves, foi-nos terminantemente proibido rondar as adjacências. E se começassem a desaparecer também as crianças? Assim, sem ter caído nas graças do respeitável público, logo o circo foi desmontado e partiu.
              Quanto ao mistério do sumiço das galinhas…este jamais foi elucidado!
              (Ludmila Saharovsky)

                

                Poema de Assis Freitas

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                poema para todos os partos de minha costela

                as mulheres que amei sempre me foram desconhecidas,
                bebiam a minha sede e se fartavam em minha fome,
                depois se iam com meus passos tontos.
                (Assis Freitas)

                José de Assis Freitas Filho, sociólogo, jornalista e poeta baiano, de Feira de Santana, lançou este ano seus
                “Poemas de urgências para súbitos desalinhos”, a partir das publicações feitas no blog Mil e um poemas.
                A leitura de seu livro prende-nos de súbito e não nos abandona mais: poemas para todos os partos de suas palavras que nascem em nós.(Ludmila)
                Leia mais Assis Freitas nos blogs: mileumpoemas.blogspot.com e
                arvoredapoesia.blogspot.com

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