Submerged Time

Lud Lue Paul

Estou muito feliz em compartilhar com vocês que a versão para o inglês de meu livro Tempo Submerso- Stalin: sobrevivemos ao terror, feita pelos amigos e tradutores de rara sensibilidade: Paul, Maria e Felipe Constantinides já me foi entregue. A obra, em breve, estará disponível em e-book.

    

    Gulag

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    Assistam a essa interessantíssima entrevista da jornalista Anne Applebaum, vencedora do prêmio Pulitzer de não ficção de 2004, com seu livro Gulag. Em seu prólogo ela escreve algo assustador:

    “Este livro não foi escrito para que tais fatos não se repitam novamente. Ele foi escrito porque, com certeza, eles se repetirão.” Anne Applebaum

    Meu livro, Tempo Submerso, conta um trecho da história dos Gulag Soviéticos, focando, principalmente, o primeiro deles, localizado no Arquipélago de Solovki. Muitos interlocutores, nas diversas palestras que fiz sobre o assunto, contestaram dados, argumentando que não existem estatísticas oficiais sobre o número de mortos e as barbaridades cometidas no período Stalinista. Muitos continuam simpatizantes desse socialismo, num desconhecimento fragoroso da História dos Gulag e suas trágicas consequências.

    Cada vez mais eu acredito que desconhecimento histórico nos induz à repetição dos mesmo erros.
    Muito mais que isso, a história nos atesta que, desde os anos 20 o Ocidente sabia sobre a organização destes Campos de Trabalhos Forçados, que explorava até a morte milhares de seres humanos, e nada fez. Os políticos sabiam, os intelectuais sabiam, os jornalistas sabiam, mas…os exemplos de barbárie do novo regime socialista, que prenunciava um belo futuro para a humanidade, foram mascarados por todos eles, em nome de uma ideologias que, infelizmente, até hoje sobrevive em muitos países e prossegue sendo admirada! O fato é, realmente, assustador. Quando se levanta uma bandeira, com completo desconhecimento histórico, aos mesmos fatos se repetem. Indefinidamente… (Ludmila Saharovsky)

    Para quem quiser ler o livro de Applebaum:
    http://www.libertarianismo.org/livros/aagulag.pdf

      

      Um presente raro


      Queridos amigos!
      Aqui estou, postando minha última atualização no blog deste ano de 2012, que, para mim, foi repleto de alegria, excelentes notícias, realizações, viagens, novas amizades, recados carinhosos deixados por vocês, meus leitores, que aumentaram significativamente o lastro desse Mar da Vida pelo qual navegamos! Eu aceito e agradeço por essas dádivas com o coração em festa!
      Meu livro Tempo Submerso, está sendo traduzido para o inglês e, até meados desse próximo ano, estará também na versão em e-book.
      Assim, hoje, orgulhosa, eu publico aqui, a última resenha que recebi, feita por um amigo muito especial:
      *Fabiano Mauro Ribeiro.

      TEMPO SUBMERSO – Livro da escritora Ludmila Saharovsky, radicada em São Paulo, conta uma viagem de recordação em busca de seu passado na sombria história da antiga União Soviética

      Ludmila Saharovsky, nasceu no campo de refugiados Lager Parsh, em Salzburg, Áustria, em novembro de 1948. A família sofria a perseguição da ditadura stalinista, tendo abandonado o local de origem no norte da Rússia. Na década de 50, se transferiram para o Brasil, fixando-se em São Paulo, e a seguir na cidade de Jacareí no Vale do Paraíba.
      Como diz a própria escritora no inicio da Parte II de seu livro “o passado é um vasto continente localizado em nós e habitado por múltiplas lembranças.” É assim que criada nos costumes russos, muito bem retransmitidos em suas narrativas, vai nutrindo vida a fora, o desejo do que ela chama, logo nos primeiros momentos em que desembarca mais tarde em 2003, na sua viagem de reencontro, de realizar “ a procura de seus mortos..”
      Essa procura que acaba num mítico confronto, será numa Rússia do século XXI, em que ruiu a Cortina de Ferro. Agora não se tem mais o temor das tormentas, que desde o trucidamento da família Imperial, em 1917, ocuparam a atmosfera do país, e alimentaram a chamada Guerra Fria, assombração da população mundial. A autora se serve da tinta final para o quadro que ela deixou inacabado um dia na sua infância. É doloroso porém a constatação das nuvens carregadas lembrando as incrustações frias de Solovietskie Ostrova, que faz parte de sua revista, no mar que por ironia, se chama “Mar Branco”.
      Essas sombras foram as que geraram afinal o seu regresso, a sua peregrinação, aos recantos onde ficaram pedaços dos corpos e dos espíritos de sua gente submergidos no tempo. Tempo Submerso, exatamente como salienta a autora do prefácio, é o tempo que Ludmila vem redescobrir e tentar aflorar em sua viagem.
      Mas em oponibilidade às sombras, está a luz nas recordações familiares com Ivan Fiodorovich Saharov, o avô e Alecsandra Dmitrivna Kudriavseva, a avó. Lembranças das habilidades e do convívio com Ivan, que desgastado o corpo, contrai tuberculose. Sua sabedoria, porém, sua habilidade em lidar com coisas da natureza e do dia a dia situado nos costumes típicos do povo russo, torna-o a figura de maior ternura na vida da autora, que narra esse lidar com minúcia cativante. É o seu grande anjo da guarda na nova vida no Brasil, uma vez que os pais têm de se ausentar para o sustento dos 5 refugiados. O avô está assim mais próximo dela do que o pai.
      Abre-se aí um aprendizado amplo e agradável de se ler, com os costumes e o convívio na família russa. Alecsandra tem uma personalidade delicada, dispensando extremo cuidado na condução da vida dos netos, ainda que cheia de atribulações, mormente num país estranho. Ivan, apesar de militar graduado pela antiga Academia Militar de San Petrsburgo, mesmo portador da doença crônica, era um sensível pelos próprios descendente, pela natureza, e pela religião católica ortodoxa – isso a autora frisa ao se recordar da sua preocupação, já morando em São Paulo, em modificar a consistência das velas utilizadas nos ícones no Monastério Ortodoxo de Vila Alpina. Ele se apaixonava pelas pedras e seus mistérios, e mergulhava na leitura de antigos livros de Montezuma, sobre os astecas. Um personagem que tem passagem livre para os grandes romances dos autores russos clássicos.
      Mas o Tempo Submerso, é um tempo de duas polaridades, sendo uma outra cruel, que é latente em todo o decorrer do livro – a lembrança dos Gulags, implantados pela ditadura de Stalin, sendo o primeiro deles instalado no antigo Mosteiro originário da velhíssima Catedral da Transfiguração do Salvador, em Solovki. Esse templo depois de várias modificações e de ter sido fechado em 1923, veio a abrigar o primeiro Gulag, de nome SLON, enunciando o nome do Departamento, mas que num trocadilho significava “elefante”. Em 22, bolcheviques teriam ateado fogo ao edifício. A palavra Gulag é um acrônimo de Glavnoie Upravlenie Lagerei (Administração Central dos Campos).
      Num desses Gulags, ficaram os mortos do passado da autora, que levou os nomes peregrinando nos setores disponíveis no momento, agora aparentemente livres para pesquisas – Fiodor Saharov, Natalia, Nadejda, Irina. Todos ascendentes, e que os vivos ainda deixaram com vida na Rússia. A encarregada dos sistemas, burocrata, mas solicita, atende à autora. Nas consultas e pesquisas, vai surgindo uma galeria de horrores daquele passado submerso, através fotos e apontamentos. O tempo submerso permanece, mas agora é móvel no revolver lembranças gravadas a ferro e fogo – e a autora se familiarizou definitivamente com ele. O final é para o leitor, que lerá tudo de uma assentada, e saberá ajuntar esse depoimento como página importante de testemunho de uma das maiores barbáries que a humanidade já contemplou, tal e qual o nazismo, e que por certos canais ainda merece certo ofuscamento em divulgar.
      *Fabiano Mauro Ribeiro

      Fabiano é advogado, pesquisador de historia e arte e colabora para várias publicações nacionais no gênero.

      *Fabiano…sem palavras! A emoção desse texto que me enviou, eu guardei no compartimento de presentes raros, no baú mais precioso de meus tesouros.
      Beijão, amigo!

      Ludmila Saharovsky

          

        Tempo Submerso

        Pessoas queridas!
        Lanço meu livro Tempo Submerso, a princípio, no Vale do Paraíba, agora nos dias 12 de maio em Jacareí, e em 17 de maio em São José dos Campos. Publico para vocês, a capa e o convite. Ficarei muito feliz em recebê-los e abraçá-los! (Ludmila)

        Capa Ludmila_Tempo Submerso

        Parte I

        Solovietskie Ostrova

        Estou absorta na pequena embarcação balançando sobre as ondas do Mar Branco.
        O vento intermitente e úmido me fustiga. É verão, mas a temperatura de oito graus me obriga a enterrar a cabeça no gorro de lã grossa e a proteger o rosto com o capuz do sobretudo enquanto observo o ocaso naquela madrugada clara, sob o Círculo Polar Ártico. Uma luz difusa ilumina a noite e a transforma num cenário raro. Mal o sol se põe e já se levanta. Assim, dia e noite não se delimitam, ao contrário, alternam-se, sem o contraste de luz e trevas a que estou acostumada. Este espetáculo me fascina: Noites Brancas.
        Percebo que alguém me observa. Viro e vejo, envolta pela neblina, uma mulher que aparenta ter a minha idade. Ela também está só naquele tombadilho. “Vem com os romeiros?”, pergunta. “Não. Não sou peregrina. Venho à procura de meus mortos”, respondo. Ela balança a cabeça num sinal de que entende a razão de eu estar ali. “Mas você não parece russa!”. Sorrio. “E você, vem a passeio?” “Também não. Trago a minha mãe. Ela busca a sepultura de seu pai. Parece que ele foi executado na ilha.” Fitamo-nos, depois, o mar. Assim ficamos em silêncio por algum tempo até ela apontar para uma luz que lentamente se materializava no horizonte: Solovki.
        Meu corpo estremece e a emoção me paralisa em meio à neblina que tão pouco revela. O pequeno espaço é tomado pelos viajantes. Todos querem ter a primeira visão reveladora do arquipélago. Mais um pouco e as cúpulas arredondadas e brancas do Monastério Ortodoxo despontam delineando aquele espaço santo, onde sob o domínio dos Bolcheviques, em 1920, instalou-se o primeiro e o mais temido Gulag soviético. Comoção. Algumas mulheres, com lenços coloridos na cabeça, fazem o sinal da cruz. Outras apertam as mãos sobre o peito. Os homens fumam. Pigarreiam. Tiram fotos. O barco balança muito em meio às ondas vigorosas. Há passageiros que passam mal. O capitão abre caminho e joga as grossas cordas para os marujos que já o aguardam no cais. O alvoroço se instala. Cada um se prepara para deixar a embarcação. Atracamos. Olho o relógio. São três horas da manhã. No mastro, o ícone de São Nicolau sobressai em cores fortes. (Ludmila Saharovsky)


          

          Solovki (trecho do livro Tempo Submerso)


          Solovky é um arquipélago de muitos espectros. Nele, cada pedra, cada trilha, cada lago são testemunhos de que a evolução humana é um percurso de dor e medo. Sua geografia, delimitada pelo assombro, contem o presente como se fora o desenho de uma paisagem dentro de outra, milenar. E pedras sobrepõem-se a pedras, feito almas calcinadas. Ali, a historia foi escrita, desde sempre, pelos mortos. Os vivos não passaram de fantasmas, de coadjuvantes, num roteiro composto de lágrimas e sangue.
          A paisagem, soberana, tira o fôlego: florestas frondosas emolduradas por lagos calmos e transparentes, o solo de turfa e o céu infinitamente azul. As pedras roladas, trazidas pelo degelo dos icebergs recebem o nome de peregrinas. Pedras peregrinas. Estão presentes, nos mais variados tamanhos, em toda parte. Sobrepõem-se na construção das muralhas, dos templos, silos, canais, aterros, dumbas.(3) Acomodam-se na pavimentação das estradas seculares, nos degraus escavados em meio às montanhas, na sustentação dos imensos crucifixos votivos.
          Há três mil anos a.C. foram dispostos em labirintos que se conservam inalterados até hoje, a céu aberto. Explicam os arqueólogos que eles delimitavam áreas de sepultamento entre os povos primitivos que por ali passaram: os finlandeses, os suecos, os noruegueses, que deixavam enterrados, naquele final de mundo, olhando para o mar, os seus mortos. As almas presas naquelas armadilhas circulares não tinham como retornar para assombrar os vivos e assim permaneceram por séculos, atraindo sempre para seu território, outros mortos. (Ludmila Saharovsky)
          Foto de Irina Orlova

              

            Tempo Submerso


            Tempo Submerso é meu primeiro livro de fôlego. Eu o escrevi na Rússia, no arquipélago de Solovietskie Ostrova, embaixo do Círculo Polar Ártico, onde fiquei 4 meses. É a história do primeiro Gulag criado em 1922, para onde foram mandados meus bisavós paternos, após a Revolução Bolchevique, e onde todos foram assassinados por ordem de Stalin. Não é um livro autobiográfico, mas tem muito de nossa história familiar, encaixada nesse período tenebroso da Cortina de Ferro. Pretendo publicá-lo em breve. Ele contem fotos, documentos, entrevistas inéditas e muita história.

            cap VI
            As crianças dos Gulags


            O tratamento para as mulheres presas no Gulag de Solovky era muito mais rígido do que para os homens. Pelo severo regimento do antigo monastério, cuja tradição permaneceu inalterada, mesmo com os templos transformados em prisões, a entrada das prisioneiras nas construções principais e seus arredores era terminantemente proibida. Em vista disso, elas eram encaminhadas para outras partes da ilha onde ficavam em campos isolados por três cercas de arame farpado. Seu transporte para as frentes de trabalho nas lavanderias, olarias e regiões de extração e manuseio da turfa era feita em comboios fortemente vigiados.
            A rotina nos campos femininos era muito extenuante. Mulheres de várias classes sociais, com educação, instrução, usos e costumes absolutamente diversos eram agrupadas aleatoriamente, encontrando sérias dificuldades em se adaptarem à vida em barracos coletivos.
            Prostitutas, vendedoras de cocaína, contrabandistas, assassinas, ladras eram colocadas junto com aristocratas, professoras, cientistas, donas de casa, o que gerava um clima de permanente confusão e revolta.
            A necessidade de criar-se algum alento, algum tênue espaço para sonhos nesse cenário de dor e sofrimento fazia com que romances entre os prisioneiros proliferassem e, “apesar do forte esquema de segurança imposto”, os contatos físicos aconteciam, e, em decorrência deles, também a gravidez.
            Em pouco tempo, um dos grandes problemas do novo regime bolchevique passou a ser a quantidade de crianças que nasciam nesses campos. A grande maioria das mulheres que engravidavam era constituída por criminosas profissionais. As futuras mães, que no início eram poupadas dos trabalhos mais pesados, recebiam uma alimentação melhor, e também se beneficiavam de anistias que, muito raramente eram concedidas às mulheres com filhos pequenos. Mas, nem todas engravidavam nos campos. Muitas chegavam a eles grávidas, apartadas de seus maridos, condenados como “inimigos do povo”. Enviadas para trabalhar em diversas frentes, para as quais não podiam levar seus bebês, eram obrigadas a deixa-los aos cuidados de outras, mais velhas e afastadas dos trabalhos por doença. Essas babás improvisadas não possuíam qualquer responsabilidade nem paciência com os pequenos, aproveitando-se da situação para furtar e comer a fração de alimentos que lhes era destinada, abandonando-os em qualquer canto, sujos, famintos, doentes. Em vista disso foi necessário criar nos Gulags, junto aos alojamentos femininos, também berçários, que, no entanto, revelaram-se de pouca serventia, pois os problemas de doença e mortalidade prosseguiram. As mães que amamentavam eram liberadas de quatro em quatro horas, pelo período de 15 minutos. Voltando ao trabalho eram acompanhadas pelo choro desesperado de suas crianças ainda esfomeadas, envoltas em trapos, sujas, cheias de feridas, piolhos e percevejos, que permaneciam abandonadas, sem um gesto de carinho, sem o conforto de um banho e sem sol. A falta total de assistência médica e mesmo de remédios básicos respondia pelos óbitos freqüentes. Aos poucos o choro dos pequenos era substituído por fracos balidos, até que a inanição também os aniquilava. As mães podiam permanecer com seus bebês até que esses completassem um ano e meio, quando eram enviados para os orfanatos na certeza de que nunca mais se encontrariam.


            “Nos orfanatos a situação era desesperadora. Para lá eram encaminhadas crianças de todas as idades e todas as proveniências: filhos de presos políticos, dos Kulaks (22), crianças órfãs das diversas guerras, os bezprezornie (23) os filhos dos ciganos, presos por vadiagem, os enjeitados, os fugitivos. Deixados sem qualquer supervisão nem atividade, havia inúmeros casos de estupro dos maiores que sodomizavam os menores, espancamentos, fome, dor, desespero, desesperança….Minha mãe que trabalhou num desses orfanatos relatou-me que vários jovens desenvolveram comportamentos esquisofrênicos, como por exemplo, passar dias a fio batendo com a cabeça na parede, e não pararem nem com o sangue escorrendo por suas faces…Outras, desenvolviam uma espécie de ausência, permanecendo com o olhar perdido em algum ponto do infinito, sem comer, sem beber, sem dormir…até tombarem mortos para o lado… Essa dor, essa vergonha, nós carregaremos para sempre !”
            (depoimento dado por uma moradora de Solovky que pediu para não ser identificada)

            “Muitas mulheres eram estupradas pelos membros do partido comunista, após seus maridos serem enviados aos campos, condenados por conspirarem contra o governo. Muitos, inclusive, eram considerados culpados, unicamente por terem uma esposa bonita e desejada. As que engravidavam desses estupros eram mandadas para os Gulags femininos de Solovky. Inúmertas tentavam abortar em condições precaríssimas, introduzindo pedaços de ferro dentro do útero, sofrendo hemorragias e infecções que as levava à morte. As que sobreviviam eram castigadas por esse ato, com o isolamento na temida Ilha dos Coelhos (Zaitchiki). Nuas, famintas, acabavam morrendo sem qualquer assistência ou matando e comendo os filhos indesejados. Essas notícias chegavam até nós, moradores dessa ilha, relatadas pelas guardas, com as explicações de que “as inimigas do povo” não mereciam viver, pois não eram humanas, não tinham o menor instinto maternal”
            (depoimento da mesma moradora)

            (22) Kulak: apelido dado aos camponeses prósperos ( às vezes, ter uma vaca era considerado ser próspero) que também foram perseguidos pelo regime

            (23) Bezprezornie: jovens de rua, pequenos delique, em sua maioria órfãos ou crianças que fugiram de suas casas por conta da fome e/ou da falta de cuidados dos pais.

            ~~~~~~~~~~~~


            Olho Solovki e sua geografia entalhada pela dor e pelo medo. Olho suas estradas centenárias que serviram de passagem da vida para a morte.
            Olho para o céu noturno, a constelação de Órion sempre presente, e me pergunto se as estrelas, como as nossas retinas, podem ser impregnadas pelo halo dos espectros, ou se apenas os refletem em meio à neblina…
            Olho para a pequenina ilha dos Coelhos e imagino o que sentiram as dezenas de mulheres estupradas e grávidas que lá foram deixadas, completamente nuas no inverno, sem mantimentos, sem assistência, sem explicações… O que se passou em sua alma?
            Forçadas pelas circunstâncias a comer seus filhos natimortos, num ritual macabro de fome e desespero equiparados às fêmeas de outras espécies, que devoram as placentas e os filhotes fracos, para preservá-los do sofrimento e de sua inadequação àquele mundo: Os sentidos confundidos pela loucura, pelo terror, apenas o instinto de sobrevivência se perpetuando….Quem pode imaginar o que experimentaram? Em que abismos internos mergulharam? Quem acudiu seus gritos de dor e desespero? Quem presenciou seu completo abandono? Sua regressão à irracionalidade? Sua morte lenta em completa degradação?
            Caminho entre as pedras que recolheram também suas pegadas e me pergunto: Como, meu Deus, pedir-lhes perdão? Como consolá-las, abraçá-las, agasalhá-las, limpar o sangue de suas mãos e seus cabelos, confortá-las, tentar fazê-las compreender que um grave desvio de comportamento pode transformar o homem nesta besta virulenta, sádica e insensível ao sofrimento humano.
            Entro na gélida capela de pedras onde elas se recolhiam para fugir às tempestades de neve e de vento. Onde elas deitavam-se umas sobre as outras, na tentativa de se aquecerem e, pela manhã, as que permaneciam por baixo amanheciam mortas, congeladas. Penso em seus corpos retirados e deixados sob a neve. Na primavera, com o degelo, eram carregadas para o mar. Mar Branco…Que ironia…..

            ~~~~~~~~~~~~


            Não! Eu não conseguia dormir após ouvir estes relatos feitos pelos guias e fazer as anotações em meu diário improvisado. Caminhava então, lentamente até o cais e olhando para aquele horizonte feito de água que me rodeava, ficava imaginando ossos humanos trazidos até mim pela maré. Longos ossos carcomidos pela areia e água salobra invadiam meus pensamentos enquanto eu regressava ao quarto que alugara, na Rua Severnaya,16, com vista para o mar. Sentada defronte à escrivaninha, uma densa névoa me envolvia e eu mergulhava num torpor…numa espécie de túnel sem saída. Vagava pelo passado buscando explicações que não havia, que nunca haverá, e escrevia. Plasmava no papel as emoções que me invadiam em ondas inquietantes e me povoavam com espectros

            Não só os homens tem um destino traçado. As nações também.

            (Ludmila Saharovsky)

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