Liturgia da Consagração

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Gesto-te, sangue de meu sangue, meu poema
e teu canto me alcança quando o meu se cala.
É para dizer-te que eu existo.
És a raiz de todas as palavras que me faltam.
Eu te nomeio, apenas, para que me fecundes com o fogo de teu verbo.
Ele que consagra a noite com o mesmo dom velado com que sangra o dia.
Toco tuas palavras que me inspiram
e se transformam em pão em minha boca
e então…
Sento-me à mesa e te comungo
nessa liturgia da consagração
em que o poema se faz carne e me habita.
(Ludmila)

    

    A vertigem do poema

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    Eu te componho em mim,
    mas não no emaranhado das frases lapidares.
    Escrevo-te nas entrelinhas da noite,
    No silêncio do estio,
    No cenário dos sonhos entre tempestades.
    Construo-te na sacralidade do profano
    onde a razão não encontra serventia.
    Na turbulência dos sentidos,
    na submissão do texto,
    na rotação do transe que move o mundo
    e na tenacidade dos desencontros
    eu me ancoro e me entrego à vertigem
    de ser o avesso do poema
    que se lê, como se não fosse….
    (Ludmila)

       

      Linguagem da chuva e do vento

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      Será a paz feita de silêncios? Quem a sente não consegue descrevê-la. Paz e silêncio somam-se porque são adventos da mesma natureza. No entanto, o ruído do mar também nos induz à paz. E há um silêncio mágico na linguagem do mar. Como há na linguagem do vento, e da chuva, e no canto dos pássaros. Seria o silêncio, então, uma espécie de linguagem não verbal? Uma confraria secreta onde a palavra passe se daria num alento, um respiro de quietude em meio à agitação do mundo: a turbulência do oculto nas entranhas do revelado…
      (Ludmila em Textos Clandestinos)

        

        A tecitura da vida

        grama Quando estou no jardim, como agora, sentindo a vibração da grama envolver meus pés descalços, penso: meu Deus, quem é esta mulher que se permite gozar tamanho estado de felicidade plena? Então me assusto: como consinto em vivenciar esta alegria com o mundo desabando à minha volta? Mas, eu me entrego e deixo-me inundar pelo júbilo, aos poucos…em doses homeopáticas, sentindo em cada célula de meu corpo, a doce impregnação da beatitude. É quando me submeto, sem receios, à tecitura da vida!
        (Ludmila em Textos Clandestinos)

          

          Por um fio

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          Quero de volta o cordão umbilical que me prendia ao sonho.
          Anelo pela água, pelo pulsar do sangue na tessitura de minha pele, no aconchego da placenta onde eu germinava em dedos, unhas, vísceras e ossos, na opulência da carne. Na memória do caos onde tudo começa.
          Cada linha das mãos gravando minha história, única, ligada às constelações e ao seu inalcançável brilho.
          Eu, antes do sopro em minha boca. Eu, uma palpitação, apenas, preparando-me para o vir a ser na ilusão do mundo. No âmago da loucura. Na opulência do abismo.
          Cada geografia com suas dores perpetuadas, consome-se em lágrimas e medo. Descreve-se no líquen das palavras, tantas, que ocultam o doce mistério da vida. Vida, este instinto interminável que nos empurra para o avesso do sonho. Para o oposto do brilho. Para o batismo da morte. Sempre! Sempre a vida por um fio nas mãos das moiras. Sempre…por um fio!
          (Ludmila com foto Internet)

            

            Há sempre uma vontade incontida

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            Há sempre uma vontade incontida que me preenche de estremecimentos. Um desejo que se instala em meio à sanidade e à loucura, buscando um lampejo de criação que não se concretiza, embora se pressinta, fabuloso. Vontade de ser flor em meio à terra craquelada. Vontade de ser lágrima nascida do ardor da fé que não me habita. Sentimento de ruminar essa existência, sonhando além do corpo. Além da palavra, palavra. Além da devastação da esperança. Ah! Esse silêncio de estrelas no céu de outubro, e a noite imensa…
            Quero cantar o amor, ainda que a voz saia cravejada de dardos e o sangue invada meus olhos vazios de esperança.
            (Ludmila com imagem da Internet)

              

              Palavras: Jóias raras no colar da escrita

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              E as palavras, joias raras, surgem engastadas no colar da escrita. Elas cintilam como a lua hipnotizando as retinas, provocando devaneios que geram poemas ceivados ora de placidez, ora de assombro. Elas, que têm o mister de reinventar o mundo e instaurar o indizível em sua imensidão de ritmos, povoando de quimeras as entrelinhas dos textos.
              Palavras podem tudo em sua magnificência: amar, odiar, trespassar a dor e transformá-la em versos. Forças vertiginosas de ardência e estupor. Terra e água. Trigo e roseira. Loucura e silêncio. Luz, sombra, vendaval, imensidão, embriaguez, impudor e, às vezes, o próprio esgotamento.
              E os poemas surgem, palpitantes, fertilizando as letras com seus arpejos de asas ou seus verbos de sangue. Assombrosos e antigos, misteriosos e voláteis, ardentes e nebulosos… como o próprio tempo.
              (Ludmila)

                

                Quando o céu transborda

                nuvens

                Chove e não entendo se é o vento que arrasta a chuva até os vales, ou se é o destino das nuvens, que, abruptamente, interrompe seu ciclo de alva leveza e as coloca no mapa das tormentas.
                Chove, e meu coração acompanha a teia de gotas que se fecha sobre a pedra que submerge, sobre a rua que submerge, sobre as plantações.
                Por dentro da chuva que cai, impiedosa, a dor das perdas, tantas, despeja-se nos rios que transbordam, nas enchentes que engolem os verdes pastos, nos sonhos que flutuam até a boca voraz do tempo que nada explica e tudo transforma.
                Chove, e o dragão feroz que a tempestade liberta me deixa insone, afogando as palavras que não conseguem emergir.
                (Ludmila)