Á noite, encontrei-me com o poema.

silêncio
Á noite encontrei-me com o poema.
Ele dormia intocado no silêncio de minha língua
com suas palavras permeadas de metáforas,
antes de ser verbo e se fazer carne de minha carne
e habitar as entrelinhas da matéria.
Á noite encontrei-me com o poema. e antes que ele despertasse
e preenchesse de letras rebuscadas a minha boca, preenchesse de
água e fogo minhas entranhas e saísse feito dardo sonoro iludindo meus sentidos e dando vida a abstratos pensamentos, eu o sorvi, transformei-o em sopro, em alento, em suspiro, em saliva e o protegi de mim! Então a noite encheu-se de estrelas, a poesia surgiu das trevas e alimentou-se da calmaria do tempo, e expandiu-se livre, em seu calado e insondável mistério e habitou entre nós. (Ludmila)

    

    O idioma dos sonhos e das nuvens

    estrelas
    Este idioma com que falo às nuvens
    enquanto o sono me espreita e confunde as imagens com que colonizo os sonhos
    é língua estrangeira de reduzido uso.
    A ela respondem as ondas e os rochedos
    e algum pássaro noturno, se o chamo pelo primitivo nome.
    Então, abrem-se as portas do reino,
    o sono vence a batalha e me leva ao seu domínio:
    lá onde as estrelas surgem,
    lá onde os poemas nascem,
    lá onde o silêncio reina soberano,
    lá onde a vida forja novas contendas
    e me semeia de abismos.
    (Ludmila)

          

      Árvore Adentro – Octávio Paz

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      Cresceu em minha fronte uma árvore.
      Cresceu para dentro.
      Suas raízes são veias,
      nervos suas ramas,
      Sua confusa folhagem pensamentos.
      Teus olhares a acendem
      e seus frutos de sombras
      são laranjas de sangue,
      são granadas de luz.
      Amanhece
      na noite do corpo.
      Ali dentro, em minha fronte,
      a árvore fala.
      Aproxima-te. Ouves?

      (Trad. Antônio Moura)

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