O sentido normal das palavras

details (1)
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

(Manoel de Barros, O Guardador de Águas, 1989)

       

    Á noite, encontrei-me com o poema.

    silêncio
    Á noite encontrei-me com o poema.
    Ele dormia intocado no silêncio de minha língua
    com suas palavras permeadas de metáforas,
    antes de ser verbo e se fazer carne de minha carne
    e habitar as entrelinhas da matéria.
    Á noite encontrei-me com o poema. e antes que ele despertasse
    e preenchesse de letras rebuscadas a minha boca, preenchesse de
    água e fogo minhas entranhas e saísse feito dardo sonoro iludindo meus sentidos e dando vida a abstratos pensamentos, eu o sorvi, transformei-o em sopro, em alento, em suspiro, em saliva e o protegi de mim! Então a noite encheu-se de estrelas, a poesia surgiu das trevas e alimentou-se da calmaria do tempo, e expandiu-se livre, em seu calado e insondável mistério e habitou entre nós. (Ludmila)

      

      O idioma dos sonhos e das nuvens

      estrelas
      Este idioma com que falo às nuvens
      enquanto o sono me espreita e confunde as imagens com que colonizo os sonhos
      é língua estrangeira de reduzido uso.
      A ela respondem as ondas e os rochedos
      e algum pássaro noturno, se o chamo pelo primitivo nome.
      Então, abrem-se as portas do reino,
      o sono vence a batalha e me leva ao seu domínio:
      lá onde as estrelas surgem,
      lá onde os poemas nascem,
      lá onde o silêncio reina soberano,
      lá onde a vida forja novas contendas
      e me semeia de abismos.
      (Ludmila)