Quisera escrever-te um soneto

poema liquefeito
Quisera escrever-te um soneto
mas me faltam rimas.
Vestida de palavras
penetro no silêncio
que nas estrofes reina
e, em meio às linhas
surge teu nome
liquefeito.
Ele abre-se em mim
flor de algodão e arpejos
e o poema nasce, rutilante.
Ele escorre feito mel e me alimenta.
Só assim consigo concebê-lo:
Em transe!

(Ludmila)

    

    Ternura antiga

    corpo mulher

    Ternura antiga

    Eu te convido à minha casa. Entra!
    Pousa teu olhar sobre as videiras.
    Eu as plantei para saciar-te a sede.
    E o pão também é teu
    São teus o vinho e o lume.
    Para consagrar-te nao construi altares
    Só te falei numa linguagem pura
    E a essencia do amor selou o entendimento
    E teu corpo estremeceu dessa ternura.
    (Ludmila)

       

      Mar de dentro

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      Eu era o mar por onde navegavas: cintilação, estrela, nuvem, alga, quimera, feixe de luz, barco de espuma, bruma.
      Teu corpo envolto por um sopro azul flutuava no itinerário lento das marés. E um manto de escamas o recobria.
      E havia dunas e aves que sonhavam ultrapassar a inatingível linha do horizonte.
      E havia o vento que varria as nuvens, que encrespava as ondas, que levantava a areia, que me dilacerava as entranhas.
      Em ti dançava o sal das águas e em mim o medo cego dos naufrágios. (Ludmila)

        

        Setembro avança

        primavera-4
        Setembro abre sua cauda de flores e aromas e se deita no colo dos dias. E eu, sonhando já com frutos e sementes deixo que ecoe, pleno em mim, seu nome: Primavera.
        Os jasmins desabrocham perfumando corpos, e os manacás, e as tímidas violetas. A alegria chega pelo ar e coroa campos e montanhas.
        O Vale se enche de um amor antigo, enquanto o céu pasta no rio com seu rebanho de nuvens. A natureza alarga seus braços e nos envolve cheia de promessas.Quem dera fôssemos o mel da vida! (Ludmila)

          

          Versos de sal e cinzas.

          06 (1)
          Nem sempre me inspiram as flores e as estrelas que invadem minhas retinas e as povoam de luz e de esperança.
          Também a loucura me inspira. Essa que incendeia a rotina dos dias e esgarça a certeza das coisas.
          Nascem meus versos, então, cheios de sal e cinzas, como agora.
          Digo: Vem! Senta-te à mesa e devoremos o desencanto das horas mortas.
          Vem! Desfruta dessa tristeza que me transforma em pedra, cratera, abismo.
          Vem! Te junta a mim e vamos sangrar as veias da poesia, até que os peixes cintilem na água, como as estrelas no céu. (Ludmila)
          Arte do fotógrafo russo Stanislav Aristov

            

            Mia Couto, no dia do poeta

            luz e sombra 6

            “Nocturnamente te construo
            para que sejas palavra do meu corpo
            Peito que em mim respira
            olhar em que me despojo
            na rouquidão da tua carne
            me anuncio
            e me denuncio
            Sabes agora para o que venho
            e por isso me desconheces.”

            ________ Mia Couto
            em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”
            Foto Internet

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