Versos de sal e cinzas.

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Nem sempre me inspiram as flores e as estrelas que invadem minhas retinas e as povoam de luz e de esperança.
Também a loucura me inspira. Essa que incendeia a rotina dos dias e esgarça a certeza das coisas.
Nascem meus versos, então, cheios de sal e cinzas, como agora.
Digo: Vem! Senta-te à mesa e devoremos o desencanto das horas mortas.
Vem! Desfruta dessa tristeza que me transforma em pedra, cratera, abismo.
Vem! Te junta a mim e vamos sangrar as veias da poesia, até que os peixes cintilem na água, como as estrelas no céu. (Ludmila)
Arte do fotógrafo russo Stanislav Aristov

    

    O orvalho da alegria

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    Nestes momentos de melancolia em que a alma pede tréguas ao corpo fatigado, cala-se a boca, os olhos perdem-se na linha do horizonte e eu sorvo o silêncio, estancando em mim todo o desejo. Minhas mãos tombam inertes sobre o colo e o coração é um instrumento de argila que ecoa na gruta da carne. Por ele escorre apenas o sangue das horas. Estou inteiramente isolada em meu sepulcro que me defende da agrura indecifrável dos dias. A solidão não me espanta, antes, frutifica-se em letras vivas que brotam sonoras no solo sagrado do poema. Elas, misteriosamente, dissipam as trevas e espargem o orvalho da alegria. É preciso abandonar-se, às vezes, no meio do caminho para retornar à estrada da vida. (Ludmila com foto da Internet)

      

      Linguagem da chuva e do vento

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      Será a paz feita de silêncios? Quem a sente não consegue descrevê-la. Paz e silêncio somam-se porque são adventos da mesma natureza. No entanto, o ruído do mar também nos induz à paz. E há um silêncio mágico na linguagem do mar. Como há na linguagem do vento, e da chuva, e no canto dos pássaros. Seria o silêncio, então, uma espécie de linguagem não verbal? Uma confraria secreta onde a palavra passe se daria num alento, um respiro de quietude em meio à agitação do mundo: a turbulência do oculto nas entranhas do revelado…
      (Ludmila em Textos Clandestinos)

        

        A tecitura da vida

        grama Quando estou no jardim, como agora, sentindo a vibração da grama envolver meus pés descalços, penso: meu Deus, quem é esta mulher que se permite gozar tamanho estado de felicidade plena? Então me assusto: como consinto em vivenciar esta alegria com o mundo desabando à minha volta? Mas, eu me entrego e deixo-me inundar pelo júbilo, aos poucos…em doses homeopáticas, sentindo em cada célula de meu corpo, a doce impregnação da beatitude. É quando me submeto, sem receios, à tecitura da vida!
        (Ludmila em Textos Clandestinos)

          

          Por um fio

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          Quero de volta o cordão umbilical que me prendia ao sonho.
          Anelo pela água, pelo pulsar do sangue na tessitura de minha pele, no aconchego da placenta onde eu germinava em dedos, unhas, vísceras e ossos, na opulência da carne. Na memória do caos onde tudo começa.
          Cada linha das mãos gravando minha história, única, ligada às constelações e ao seu inalcançável brilho.
          Eu, antes do sopro em minha boca. Eu, uma palpitação, apenas, preparando-me para o vir a ser na ilusão do mundo. No âmago da loucura. Na opulência do abismo.
          Cada geografia com suas dores perpetuadas, consome-se em lágrimas e medo. Descreve-se no líquen das palavras, tantas, que ocultam o doce mistério da vida. Vida, este instinto interminável que nos empurra para o avesso do sonho. Para o oposto do brilho. Para o batismo da morte. Sempre! Sempre a vida por um fio nas mãos das moiras. Sempre…por um fio!
          (Ludmila com foto Internet)

            

            Há sempre uma vontade incontida

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            Há sempre uma vontade incontida que me preenche de estremecimentos. Um desejo que se instala em meio à sanidade e à loucura, buscando um lampejo de criação que não se concretiza, embora se pressinta, fabuloso. Vontade de ser flor em meio à terra craquelada. Vontade de ser lágrima nascida do ardor da fé que não me habita. Sentimento de ruminar essa existência, sonhando além do corpo. Além da palavra, palavra. Além da devastação da esperança. Ah! Esse silêncio de estrelas no céu de outubro, e a noite imensa…
            Quero cantar o amor, ainda que a voz saia cravejada de dardos e o sangue invada meus olhos vazios de esperança.
            (Ludmila com imagem da Internet)

               

              O sentido normal das palavras

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              O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
              Há que se dar um gosto incasto aos termos.
              Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
              Talvez corrompê-los até a quimera.
              Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
              Não existir mais rei nem regências.
              Uma certa liberdade com a luxúria convém.

              (Manoel de Barros, O Guardador de Águas, 1989)

                

                Palavras: Jóias raras no colar da escrita

                details
                E as palavras, joias raras, surgem engastadas no colar da escrita. Elas cintilam como a lua hipnotizando as retinas, provocando devaneios que geram poemas ceivados ora de placidez, ora de assombro. Elas, que têm o mister de reinventar o mundo e instaurar o indizível em sua imensidão de ritmos, povoando de quimeras as entrelinhas dos textos.
                Palavras podem tudo em sua magnificência: amar, odiar, trespassar a dor e transformá-la em versos. Forças vertiginosas de ardência e estupor. Terra e água. Trigo e roseira. Loucura e silêncio. Luz, sombra, vendaval, imensidão, embriaguez, impudor e, às vezes, o próprio esgotamento.
                E os poemas surgem, palpitantes, fertilizando as letras com seus arpejos de asas ou seus verbos de sangue. Assombrosos e antigos, misteriosos e voláteis, ardentes e nebulosos… como o próprio tempo.
                (Ludmila)

                  

                  Quando o céu transborda

                  nuvens

                  Chove e não entendo se é o vento que arrasta a chuva até os vales, ou se é o destino das nuvens, que, abruptamente, interrompe seu ciclo de alva leveza e as coloca no mapa das tormentas.
                  Chove, e meu coração acompanha a teia de gotas que se fecha sobre a pedra que submerge, sobre a rua que submerge, sobre as plantações.
                  Por dentro da chuva que cai, impiedosa, a dor das perdas, tantas, despeja-se nos rios que transbordam, nas enchentes que engolem os verdes pastos, nos sonhos que flutuam até a boca voraz do tempo que nada explica e tudo transforma.
                  Chove, e o dragão feroz que a tempestade liberta me deixa insone, afogando as palavras que não conseguem emergir.
                  (Ludmila)

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