O OVO

Lud vista por Paul

Escrever é como tecer. É trabalho feito em tear sem que nos forneçam o esquema do desenho, o padrão a se seguir na tessitura.
Palavras como fios correm soltas pelas linhas, unem-se aos nós dos verbos, a adjetivos, a pronomes. Vez por outra o escritor se embaraça num pensamento e ao tentar desvencilhar-se se surpreende com novos pontos que atiçam sua criatividade: surgem na escrita, então, sonhos, emoções, fragmentos de memórias que o levam a outros vocábulos, aforismas e o assunto muda radicalmente de abordagem. Ele cria novas frases, associa ideias, arremata com reticências ou uma afirmação e ao reler a frase toda comemora a conquista: afinal conseguiu expor de forma clara o pensamento!
Curiosamente às vezes ocorre também o contrário. Olha-se para o texto-tecido e a sensação é a de que não era bem aquele produto final que se tinha em mente. Então só nos resta desmanchar tudo e reiniciar a obra.
Propor-se a criar algo, seguir o fluxo da inspiração e transformá-lo num desenho, numa escultura, num tapete ou num texto iguala-se ao exercício de dar à luz. Esta necessidade que possuímos de perpetuar-nos no mundo é diretamente proporcional ao medo que temos de nossa finitude. Carregamos em nós este ovo latente de possibilidades criativas que precisamos conceber. Esta afirmação me leva a um sonho que tive e que quero lhes contar:
Sonhei que estava imersa na água e dela saía vagarosamente carregando em minhas mãos em concha um ovo. Sua casca era uma membrana translúcida e firme. Uma delicadeza, iluminada por luz interna. Em seu interior estava uma jovem mulher em posição fetal. Ela me olhava com olhos desproporcionalmente grandes e eu a carregava com todo o cuidado. No trajeto tentava descobrir quem era a criatura e como o ovo foi parar em minhas mãos. Não me lembrava de tê-lo expelido, mas sentia que ele, de algum modo me pertencia.
Repentinamente eu tropecei e caí. Do interior da membrana rompida um ser alado precipitou-se para o espaço. Mas não! Não era a mesma mulher que eu carregava. Era um pássaro feito de luz e transparências. Talvez um anjo? E dentro de si carregava um ovo perfeito, concluído.
“Parir uma mulher é gravidez de alto risco”, ele me disse “A mulher tem mãos que levam direto ao coração e são capazes de desatar nós, qualquer que seja a tessitura”.
Nem tive nem tempo de me assustar.
Eu observei aquele ser dissipar-se no horizonte. E preenchida por essas sensações eu despertei.
Que sonho estranho, vocês dirão. Mas, mais estanho ainda é esta necessidade que senti de torná-lo publico. De partilhá-lo com vocês que, no mínimo devem estar pensando aí com seus botões: “Mas isto é crônica que se escreva”?
Por que não, se a inspiração é sempre uma aventura?

Crônica de meu próximo livro “Cem crônicas escolhidas e alguns contos clandestino” que será lançado brevemente e foto de Paul Constantinides para a contracapa.

    

    Amigos Reais e Amigos Virtuais

    11390485_913252765383893_4315402416281616531_n (Imagem Internet)

    Tenho por hábito recortar e guardar matérias de jornais e revistas que, de alguma forma, me sensibilizam. Tenho em casa um arquivo enorme de papéis amarelados pelo tempo, conservados em pastas, dos quais não consigo me desfazer. Reler esses textos me inspira, faz-me refletir sobre o cotidiano, me enternece, às vezes, outras, me entristece. Abro as dobraduras, revejo o conteúdo dos escritos, dobro novamente e torno a arquivar.
    Semana passada repeti o ritual e, como de costume, separei a matéria de um grande jornal que falava sobre o “personal amigo”. Nela, o articulista me informava de que surgiu uma nova profissão. Você paga uma taxa, que varia entre R$100,00 e R$500,00 a hora, contrata o serviço e recebe a atenção de uma pessoa especializada em atenuar a sua solidão! E com uma ressalva: O personal amigo só lhe faz companhia. Nada de namoro ou sexo! É pura e simplesmente amizade!
    São novos tempos! Novas relações! Novas formas de suprir carências. As pessoas passam cada vez mais tempo na Internet. Abrem-se com desconhecidos. Participam de mil e uma comunidades: face, whatsApp, twitter, repartem confidências, criam dependências, matam o tempo, mas, no final das contas, por melhor que seja “teclar” com alguém, amigo tem que ser de carne e osso. Amigo é para ter-se ao lado, poder pegar na mão, chorar no ombro, dialogar sentindo o hálito, olhando nos olhos, conversando ao vivo, entendendo melhor a si mesmo e ao mundo, pela visão do outro.
    O espaço virtual, sem dúvidas, nos protege, abre inúmeras fronteiras, possibilita falar em tempo real com alguém lá das Filipinas ou de Carapicuíba, mas, ao mesmo tempo, esse ato não nos basta, bichos humanos que somos. E, bichos humanos que somos, chegamos a um tempo em que a falta de tempo é tão aterrorizante, que já não conseguimos nem ser e nem ter amigos como antigamente: Amigos para sair e tomar um chá ao final da tarde, para ir ao cinema junto, para sentar no banco de uma praça e jogar conversa fora. Amigos que nos alimentam a alma, que nos curam com a sua presença e não, simplesmente, aliviam a nossa solidão.
    Amigo de verdade tem história e segredos compartilhados, tem calor humano, vibração e cheiro. Amigo de verdade, sabe ouvir e calar-se. Reconhece nossos erros sem nos julgar e vibra com nossos acertos. Amigo de verdade tem aquela voz que reconhecemos à qualquer distância, que nos conforta e nos fortalece. Voz de Claudia, de Tereza, de Dyrce, de Lucimara, de Marilda, de Maurício, de Luiza Irene, de Mirian, de Zé Winston, de Mário, de Orlando, de Mariângela, de Jussara, de Edna, de Sônia, de Celso, de Eliana, de Eliane, de Dolores, de Célia, de Nair, de Graciela, de Eloisa, de Meiri, de Benny, de Ocílio, de Magela, de Rubinho, de Van, de Carolina, de Cris, de Valdeci, de Ana Paula… Ô meus queridos amigos, que saudade de vocês!
    (Ludmila Saharovsky)
    Crônica publicada na Revista Absollut deste mês.

      

      Caleidoscópio

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      Busco na vida, a magia. A delicadeza em meio à aridez do cotidiano, ela que espanta a rotina, que revoga a mesmice, que dissolve o tédio, que permite inesperadas descobertas: Novos sonhos, novas sinapses, trocas, encantamento. O viver é um poema contínuo que se realiza em mim a cada instante, assim, vou ocupando as moiras que tecem meu destino, com novos pontos, inusitados nós, cores e formas, alongando os fios da vida, de forma tal, que me permitam descobrir outros roteiros. Envio-lhes intermináveis novelos de linhas para que me prendam a abstratas tessituras. Preciso de horizontes instigantes que me remetam à dunas que se movem, grão a grão e possibilitem que o meu vir a ser seja repleto de ação criativa, me reinventando a cada nó. Horizontes estanques me desarmam.
      Seria um jogo? Não! Penso que viver é como inserir-se num caleidoscópio. As possibilidades estão todas ali, naquele tubo onde se espelha a vida. Cabe a mim girá-lo, formando combinações diversas, agregando cores, luzes, frágeis composições que podem reagrupar-se a partir de um sopro, de um leve movimento de dedos e formar novos desenhos. Novas possibilidades de existir.
      Faço de meu mundo este caleidoscópio. Muitos acham os desenhos embaralhados e se perdem nas combinações. Eu não! Sei exatamente a minha cor e forma, e descobrir o novo encaixe é instigante, porque é sempre outro desenho que se forma. Buscá-lo, em todas as suas variantes possíveis, para mim, é entender o sentido da Vida e vive-lo plenamente, sem temer o breve pulsar da felicidade.
      Ludmila

        

        Palavras/Silêncios

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        “O corpo é uma coisa encantada que precisa mais que comida e bebida para viver.
        Ele precisa de palavras. Porque é nelas que mora a esperança”
        (Rubem Alves)

        Amo as reflexões às quais os escritos de Rubem Alves sempre me remetem.
        Penso em sua afirmativa de que “o corpo necessita de palavras que o alimentem” e divago…Será?
        Não é em todas as palavras que moram a esperança, a beleza, a delicadeza.
        Existem algumas, venenosas, que vão se desprendendo de nós, assim…de repente, sem qualquer compromisso que não seja o de ferir. Armas palavras.
        Outras vadias, vazias soltam-se ao vento, tagareladas, esparramadas, diluídas, não deixam nem uma única pegada. Ocas palavras.
        Sem âncora, sem encadeamento, sem eco, elas como que entram por um ouvido e saem pelo outro, placebos de idéias que, se não contêm em si o germe da comunicação, a intenção da partilha, do preenchimento do outro com fé e alegria… mal também não fazem. Palavras cotidianas.
        Fala a mãe, fala o pai, fala o filho, fala a vizinha, a amiga, a avó, o padeiro, o pedreiro, o colega de trabalho. Falam o dia inteiro, mas… o que foi que disseram? Eu mesma não me recordo de um décimo do que matraquei, o que dizer então, do que ouvi? Rumino com meus botões: porquê falamos tanto?
        Nesse mundo onde “quem não se comunica se trumbica” jamais nos ensinaram o poder de comunicação que há, também, no silêncio. Nós nunca nos concedemos um único minuto, em nossas vidas, para “ouvir” com os outros sentidos: intuir, perceber as múltiplas mensagens contidas num gesto, num olhar, num suspiro. O corpo inteiro fala!
        Parece que vivemos numa época de terror generalizado ao silêncio! Ao nosso derredor precisa haver sempre algum ruído: do rádio, da TV, do walkman, do CD, da campainha do celular, do pager, tudo permanentemente ligado! E tome música, notícias, receitas, entrevistas, críticas, testemunhos, propagandas, diálogos, monólogos, gritos e sussurros. E agora, conversamos também com olhos e dedos, o dia inteiro “ligados” ao computador.
        O silêncio talvez nos assuste tanto, porque nos deixa a sós conosco mesmos, a cabeça livre para pensar, os sentidos libertos para investigar, sentir, meditar, filosofar, descobrir. E, para não constatarmos o drama de que não temos qualquer assunto íntimo que nos instigue, recorremos aos sons ininterruptos que certamente nos entorpecem os sentidos e nos libertam do compromisso com outras necessidades mais sutis. Se nós não conseguimos saber da semente, da raiz, do galho, da flor e do fruto em nós, como saber a árvore que somos? Como entrar em sintonia com o mundo que nos cerca, se não ouvimos, não entendemos, não decodificamos suas linguagens de vento, de chuva, sol, lua, primavera, outono, orvalho, sereno, neblina? Se não percebemos o som de abelhas, moscas, mariposas, sapos, cigarras, grilos, riachos, cachoeiras, mares?
        Ah! Que saudades de nossos antepassados que podiam afirmar com segurança que iria chover, gear ou haver longa estiagem apenas compreendendo o discurso da natureza. Eles ouviam e entendiam até a linguagem de seus ossos!
        Tudo se comunica, amigos, mas não apenas por palavras. O mar tem voz, a floresta fala, o livro conta histórias. Conversam pessegueiros e violetas, cães, pássaros, cavalos, constelações. Vibra o infinito, dentro e fora de nós: a melodia das esferas…
        Talvez, para tentarmos penetrar nesse mágico espaço do nascedouro das palavras – certas, consistentes, raras – necessitemos do exercício do silêncio. Quem sabe consigamos semear mais paz, amor e esperança.
        Não custa tentar! (Ludmila Saharovsky)

          

          A celebração da Morte

          A morte, na minha infância de tradições russas, sempre confundiu-se com celebração.
          Após breve missa cantada, na qual amigos e parentes encomendavam a alma do falecido, a família convidava a todos para o pominki – reunião em memória do morto- na qual era servido aos comensais um farto lanche, regado a muita vodca, e composto de apetitosos canapés. O arenque defumado, cortado em fatias grossas e servido sobre o pão preto, era iguaria obrigatória, além de pepinos, tomates e cogumelos em conserva, bem como os piroshkis – uma espécie de pastéis assados – de carne e de repolho. Inesquecível, pelo menos para as crianças, era o arroz doce, cozido com maçãs fatiadas, ameixas, uvas passas e enfeitado com variados confeitos de goma, formando cruzes, que recendia a velas e incenso.
          Sei que nos velórios ingleses é costume servir muita cerveja e bolo, ou vinho e biscoitos do tipo pão de ló torrado no forno, para ser mergulhado em cálices de vinho do Porto. Depois os amigos levam para casa, de lembrança, um doce parecido com o nosso bem casado, envolto em papel ,com símbolos de caveiras, ossos cruzados e ampulhetas.
          É no México, no entanto, que a morte é tratada com a maior naturalidade e tranqüilidade. Este convívio carinhoso e alegre com os que já partiram vem desde 1563, quando o beato Sebástian de Aparício começou uma tradição de cerimônias fúnebres junto aos índios, e que veio de encontro a costumes ancestrais há muito estabelecidos. Em todas as casas são armados altares com velas votivas, candelabros, fitas, muitas flores, incenso. São preparados pratos especiais, decorados com figurinhas de açúcar representando crânios, ossos, esqueletos, demônios. São armadas procissões de enterro com todos os seus figurantes, parecidos com nossos presépios. As famílias inteiras se envolvem, capricham na decoração, na confecção do pão dos mortos, das tortillas e feijões. Quem descreve estas cerimonias muito bem, é Guadalupe Rivera, no livro Fridas Fiestas, da editora Potter. Guadalupe, filha de Diego Rivera, viveu muitos anos com Frida Kahlo em Coyacán – México. Frida a cada ano superava-se nas comemorações em memória de sua mãe. Armava uma mesa enorme, enfeitada com caveiras e esqueletos dançantes de papier machê, que eram verdadeiras obras de arte. Guarnecia a mesa com suas frutas preferidas, com nozes, amendoins, cana de açúcar. Ao lado colocava uma imitação do túmulo feito de flores de papel, contendo o retrato da morta. Durante o dia inteiro, servia comidas tradicionais mexicanas, pães dos mortos, e biscoitos de ossinhos aos amigos que iam visitá-la.
          No Brasil, tornou-se tradicional a peregrinação aos cemitérios no dia de Finados. Túmulos são lavados, consertados, enfeitados com flores e velas. Alguns centralizam verdadeiras procissões por conta de histórias de graças concedidas…Segundo relatos de Jorge Amado, na Bahia também são oferecidos quitutes específicos em velórios e recepções após missas de sétimo dia: bandejas enormes de cuscuz de milho e de tapioca, fruta-pão, banana-da- terra e batata-doce cozidas, beijus, biscoitos, broas de fubá, queijos, bules com leite, chá e café. E quando as visitas se demoram…é providenciada, para o almoço, uma bela peixada feita com leite de coco e azeite de dendê…
          Os ritos, sejam sagrados ou profanos, ajudam-nos a encarar a morte de frente, e a suportar a dor do luto. O que não deixa de ser um grande aprendizado, inclusive, culinário!
          (Ludmila Saharovsky)

            

            O verbo Amar


            Quem entende o significado de um termo, em sua essência, tem, com certeza, uma trajetória pessoal muito mais rica e proveitosa, pois desenvolve a capacidade de ir além da palavra escrita. Quem realmente conhece o conteúdo de um vocábulo, utiliza-o com mais força, adquire um poder peculiar, uma vez que algumas palavras possuem a faculdade de construir ou destruir outro ser humano.
            Não é por acaso que o Gênesis inicia-se com a criação do céu e da terra através do Verbo, através do desejo proferido: Faça-se a Luz! E a luz se faz.
            A palavra, portanto, é uma manifestação não apenas do conhecimento, como de magia, tanto que algumas delas são transmitidas em situações especiais, sussurradas, a poucos iniciados.
            Sabemos que povos antigos como os egípcios, os chineses, os japoneses, possuem vários graus de escrita, destinados a diferentes grupos de indivíduos, de acordo com sua evolução espiritual e inteligência emocional.
            A neurolinguística, hoje, modifica padrões de comportamento através da linguagem que atua em nosso cérebro a nível do inconsciente.
            Palavras, portanto, constituem-se em iguarias raras. Precisamos aprender a degustá-las, dissecá-las, decodificá-las, penetrar em sua essência. Necessitamos de conhecê-las em sua total densidade ou completa volatilidade. Dominá-las não nos torna apenas mais ricos de significados e entendimentos; nos deixa mais sábios. Mais lapidados. Mais conscientes. Mais tolerantes. Quando descobrimos, por exemplo, que a palavra trabalho vem de tripalium – um instrumento de tortura composto de três paus, numa espécie de cruz – nossa compulsão por estarmos sempre fazendo alguma coisa, não é abalada? Não começamos a refletir sobre o sentido da ação?
            Mas, voltemos ao verbo amar, que afinal de contas deu origem a esta crônica. Qual a sua raiz?
            Aprendo com *Affonso Romano de Sant’Anna, que se remete a Bent Paroli, para nos ensinar que “a raiz da palavra amor é egípcia e não latina. Também nada tem a ver com o “ama” grego, embora este signifique “juntos”. Os gregos também falam de “eros”, mas a raiz dessa palavra indica “atividade”.
            O vocabulário egípcio traz a raiz MR. Parece estranho. Os egípcios não usavam vogal. Mas eles escreviam assim e na hora de pronunciar, a vogal aparecia. E o fato é que MR se pronunciava “amer”, “amor”. Escrita com hieróglifos a palavra MR era representada por uma espécie de pá ou cavadeira de camponês abrindo a terra. Há um sentido agrário de fecundação cósmica. Amor, então, era como um ato de cultivar a terra.”

            Este povo que reverenciava o milagre dos frutos e sementes, deixou-nos a raiz de uma palavra que hoje se vulgarizou tanto, que mal sabemos seu real conteúdo. Amar virou sinônimo de ficar, desejar, possuir, transar.
            Se voltarmos, no entanto, à sua raiz primitiva, entenderemos o quanto é significativa a imagem de semear-se em terreno fértil para que os frutos não se percam na aridez, e a delicadeza deste sentimento único prevaleça!
            O fato é que precisamos resgatar o exercício do amor, porque ele nos unge, ele nos transforma em matéria prima para a perpetuação dos mistérios da vida, em terra fértil para o inicio desta semeadura em nosso próprio interior, para que floresça um jardim de plantas raras chamadas: respeito, consideração, cuidado, carinho, dedicação, cumplicidade, saudade.
            É isso! Um lindo dia de enamorados para todos nós.
            Ludmila Saharovsky
            (Crônica publicada na Revista Absollut edição maio/junho 2012)

            *Sant’Anna, A. R. de. (2003). Amor, o interminável aprendizado. In A. R. de Sant’Anna. Melhores crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna. São Paulo: Global.

              

              Sinfonia de inverno


              Começa o tempo em que tudo hiberna.
              Somente as deusas ancestrais encontram-se atentas em seu mister
              de bordar a noite de estrelas e coalhar as águas do mar com rendas de espumas.
              Suas vozes ecoam nos campos e nas florestas em cantigas de ninar.
              Dormem os pássaros e as flores.
              Olho para a falésia que contém a eternidade: uma ternura fecunda perpassa-me a alma e me remete ao fogo e à lava. Eles que moldaram as montanhas antes que as florestas as vestissem de veludo e vozes.
              Eternidade…esse conceito acaricia meus sonhos, na medida em que me reconheço um breve sopro no coração do tempo.
              Minha memória passeia por abismos onde o eco do vento reina soberano, capturando o grito das águias e dos coiotes que compõem a sinfonia do inverno que se aproxima, grave.
              E a lua surge, soberana, no céu que nos envolve.
              (Ludmila)

                

                O eterno agora


                A mulher: Olhos perdidos no horizonte. Pensamentos que sobrevoam repetidos naufrágios.
                A mulher: Pele tatuada pelo tempo, sentidos que a arrastam para espaços familiares repletos de alaridos, de cheiros e sabores únicos, quase mágicos, de outrora.
                A mulher: Incrustada no silêncio. Ser clandestino numa cidade que a mantém ancorada na beira dos dias, desejosa de trocar palavras com a leveza com que se trocam carícias.
                A mulher: Vestida de saudades!

                Ela observa a tarde que cai sobre as falésias: o mar cinzento, o céu despojado de nuvens, o repetido mergulho das gaivotas em busca de alimento. Um cão correndo à volta de seu dono, temeroso de perdê-lo. Igual a ela, pensa, retornando sobre seus passos em busca de algum tênue sinal que lhe indique o perdido mar interno.
                Ela retém em si esse momento. Fecha os olhos e o revê, certificando-se de que a paisagem estará sempre dentro dela, mesmo quando, distante, já não puder focá-la.
                E assim, entre o sol que se põe, e o mar que se encrespa, ela viaja. Segue por um itinerário que se sobrepõe ao tempo e à memória. Lembranças de antes desta paisagem tingida pelas cores do crepúsculo. Vestígios de quando tinha asas, e seu pensamento em chamas procurava avidamente a agitação dos sentidos, a certeza de que haveria para sempre um tempo de descobertas. Tempo em que tudo era excessivo, e mesmo assim não lhe bastava. Tempo tão diferente desse, em que viaja vigiando emoções, num ritmo compassado, acompanhando a exatidão da maturidade que pulsa dentro. Buscando não mais a felicidade superficial, mas daquela outra, secreta, que lhe permita encontrar a alegria mais consistente, o existir mais pleno, a emoção mais verdadeira.
                O corpo da mulher segue sem pressa. Corpo nave, entregue à plenitude e ao sonho. Tudo tão próximo e tão distante, e o distante quase na ponta de seus dedos, gravado nas linhas de suas mãos, imerso num feixe de luz e sombras.
                Então, a mulher já não vê mais o mar à sua frente. Apenas o pressente. E regressando pela porta que se abre entre o ontem e o amanhã, ela ancora, tranquila, na eternidade do agora.
                Ludmila Saharovsky
                (crônica publicada no jornal O Valeparaibano)

                  

                  Páscoa


                  Confesso! Há épocas do ano em que me sinto muito antiga. Fico como que desfocada, totalmente excluída dessa realidade que me envolve.Tento mergulhar na rapidez do tempo presente e sua nova realidade, mas algo me arrasta inexoravelmente ao passado. É feito uma nostalgia: Uma saudade que surge devagarinho e quando me dou conta, ela já se instalou, e pronto! Entro no túnel do tempo e regresso à minha infância. E é sempre durante a Semana Santa que tenho as piores recaídas. Esse período chega despertando em mim uma solenidade, uma severidade, um mistério que hoje não mais se vivenciam. No antigamente, tudo ficava vagaroso e triste nesses dias. O martírio de Jesus refletia-se nos lugares, pessoas e costumes. O silêncio era mais denso, o luto materializado. Eu e minha família assistíamos à missa todas as noites, no monastério ortodoxo de Vila Alpina. Ouvir a leitura dos evangelhos no templo aconchegante iluminado apenas pela luz de velas, o insenso acalmando os sentidos, resultava num consolo mágico à alma dos que acompanhavam o drama da traição. Aquela, perpetrada por um dos discípulos queridos do Mestre e a negação, por três vezes, de outro. O julgamento de Poncio Pilatos, lavando as mãos num gesto que o eximia de qualquer culpa, a Via Crucies percorrida sob o peso da cruz e chibatadas, o terror da crucificação, do coroamento com espinhos eram novamente vivenciados por nós. A noite surgindo em pleno dia sobre o Gólgota, a cortina do templo rasgando-se de alto a baixo, a lança perfurando as vértebras de Jesus, a descida do corpo morto, o sudário. A pesada pedra selando o sepulcro. Esse enredo permeava de angústia meu coração de criança que doía e se apertava em nó no peito, por tantas crueldades perpetradas contra um inocente. Os aparelhos de rádio e de TV. permaneciam desligados na maioria das casas. O máximo que se permitia era assistir aos filmes bíblicos, reprisados a cada ano, com Débora Kerr, Victor Mature, Charlton Heston, Jean Simmons, sobre a Paixão: Paixão de Cristo. Carne não se consumia, e não apenas na Sexta-Feira Santa, mas durante toda a semana. Os mais devotos passavam sem ingeri-la, a quaresma inteira. Finalmente chegava o Sábado de Aleluia e pelas ruas dos bairros procedia-se a malhação do Judas. Em inúmeros postes ele era amarrado e espancado até a completa destruição, quando as palhas soltavam-se de suas entranhas de trapos. Que ritual! Parecia que, espancando o delator, finalmente, a justiça era feita! Absolutamente ninguém se lembrava do “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” que o próprio torturado suplicara naquela longínqua época!
                  Mas, o mistério dos mistérios, para mim, eram os ovos de coelho. Eles surgiam multicoloridos, em ninhos, na maioria das casas, como por encanto. Nunca conseguiram explicar-me, que relação havia entre ovos e a Ressurreição. E de coelhos ovíparos, ainda por cima! Recentemente, li que essa tradição é celta, e liga-se a Eostre, deusa da vegetação e do renascimento. Mas, a quem, realmente, isto hoje interessa? Vivemos um tempo em que mistérios caíram em desuso. Como toda a tradição desta dolorosa Via Crucies que um dia nos redimiu…
                  Feliz Páscoa!

                  (Ludmila Saharovsky)
                  (Crônica publicada no Jornal O Valeparaibano)

                    

                    Jacareí, 360 anos

                    Era 1975, e a Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes de Jacareí, lançou um concurso de crônicas, contos e poesias intitulado: A Cidade e o Rio, para o qual eu enviei este texto que acabou sendo o vencedor na categoria de crônicas.
                    Por conta dele eu recebi uma “Moção Congratulatória” da Câmara Municipal de Jacareí, naquele ano, e meu texto foi publicada com destaque nos jornais da cidade.
                    A partir de então, fui convidada para ser cronista no periódico O Combate, de meu saudoso amigo Toninho Lorena, onde permaneci escrevendo até seu encerramento, e que me deu visibilidade e rendeu convites para publicar em jornais e revistas da região do Vale do Paraíba.
                    Hoje, minha cidade comemora 360 anos. Assim, quase quatro décadas passadas, eu o publico novamente, pois faz parte de minha historia dentro da cidade que me acolheu e que me permitiu crescer e ser feliz.
                    As fotos que ilustram esse texto foram adquiridas durante minha gestão frente à presidência da Fundação Cultural de Jacareí, da coleção de Mir Cambusano e hoje fazem parte do acervo de documentos visuais do Arquivo Público Municipal.

                    Pra você, Jacarei, esta “A cidade e o rio”

                    Cidade, cidade, ci

                    É preciso que eu descubra uma forma de transpor para o papel o que me vai na alma.
                    Um processo novo que transforme a letra em vida, para que a crônica surja como a própria realidade.
                    E eu tento. Capturo o instante e o aprisiono e, suavemente, vou me introduzindo na essência das palavras, então, transcendendo os limites que o papel impõe, rompendo todas as barreiras surgem A cidade e o rio, misto de cônica, ensaio e poema, pois, que cântico maior pode existir do que o inspirado pela vida, em seu dia-a-dia?
                    Matéria prima composta pela junção da lógica e da emoção, meu tema é:
                    A cidade:

                    Ela estende-se na paisagem e desabrocha no silêncio.
                    Ouço-a dentro de mim e ao derredor – meu corpo inteiro imerso em seu, e em nós, o ritmo da essência pulsa com o sabor peculiar desse sentir abstrato.
                    Seu rosto tem mil faces e de suas entranhas surgem multidões de homens e mulheres (carregando?) carregados pelo forte instinto de sobreviver.
                    E eu vejo as placas nas esquinas com nomes dos que passaram, e vejo os largos, clubes, albergues, hospitais; a nova praça dos velhos poderes; as duas pontes sobre o eterno rio.

                    E observo o solar antigo de janelões enormes com largos corredores impregnados pelo aroma do tempo que passou. E entro nos espaços que pressinto para mim abertos, buscando neles a seqüência de ruídos para compor a melodia do amanhecer: passos, latidos, risos, buzinadas; rumor das fábricas, dos carros, do rápido das dez, que em trilhos corre e corta a cidade ao meio. E falas, gritos e frases soltas mesclam-se ao som inconfundível dos sinos da matriz. É a melodia eternamente inacabada, inabalável. A harmonia da desarmonia. A vida que se vive e se vê. E nela nascimentos e mortes se sucedem e vidas brotam qual flores em jardins, nem sempre bem cuidados: meus jardins/os seus.

                    Pergunto então: Até que ponto seus domínios me pertencem, se eu sou seu grito e ela meu silêncio e de gritos e silêncios somos ambas preenchidas? Se sua noite me acalenta e em seu novo dia eu me transformo? Se sou ator e ela o meu teatro?
                    Coexistimos. Vamos ambas crescendo e amadurecendo às margens de um rio.

                    O Rio

                    Do rio eu sigo o fluxo navegando águas nem sempre calmas por caminhos tortuosos. Enfrentando os ventos, as chuvas, as inundações.. Inserida em seu tempo e cenário. Nele ninguém me prende. Sou livre e me entrego e ele me recebe, sempre, como ao filho pródigo acolhe o pai.
                    Meu rio. Meu reinício. Meu rioinício.
                    E não é ele a grande veia que sustenta a vida?
                    Sua pujança espanta e quase dói. Dói como a busca de palavras certas para exprimir idéias pressentidas. Dói como o mistério da vida que em vão tento decifrar.
                    Minhas perguntas todas em suas águas estão lançadas. Difícil é decifrar suas respostas, embora eu sinta que nele se encontra a única verdade para mim.
                    O rio é meu segredo, que docemente eu guardo.

                    Eu, a cidade e o rio

                    Encerro a idéia, a crônica, o ensaio.
                    Termina a magia do momento aprisionado.
                    Fora encontra-se a realidade da vida, dos sinos, dos gestos, dos vários idiomas, do amor e desamor. E estão as angustias tão humanas, o nervosismo e a calma, e os monólogos e diálogos e todas as funções.

                    E permanecem rostos, praças, ruas, avenidas, buzinas, semáforos, postes e faróis. E estão as árvores que florescem e fenecem com pássaros e flores e cães e gatos vivendo nos quintais; e bancos de jardins e bancos de dinheiro, e morros e bicicletas sempre na contra mão. E permanecem os buracos, calçadas, bares, clubes, lojas e o Cinemão. E tem a JAM formando seus guardinhas e a banda e os coretos e os rojões. E o Combate, e o Diário e a nossa Radio Clube. A Prefeitura, o Fórum e as antenas/torres de Tv. E vivem engenheiros, advogados, médicos, poetas. Leões, Rotarianos e maçons. E também vivem meretrizes e pedintes, ladrões e operários. E estão a lua, o rio, as chuvas de janeiro, e o tráfego confuso, a poluição…


                    E permaneço eu também – meu nome se anuncia: Lu, simplesmente, como gostam de chamar.
                    Procuro, insistente, deixar um marco, o meu registro. Algo como se fosse: “Hei! Também estive aqui! Aqui vivi, compus, sonhei, cantei e vivo ainda.
                    Eu pássaro. Eu peixe. Eu flor e eu, também, às vezes gente. Eu, gente às vezes…
                    O resto não importa. Não passa de ilusão.
                    É noite. No silêncio do quarto ecoa seco, o ruído das teclas no papel, das frases rápidas que nascem e tingem com significados a folha em branco.
                    A madrugada se aproxima e eu me preparo. De novo sigo em busca do momento que torno a pressentir…e amanhece! E é isto, apenas, o que me vem da vida, do rio e da cidade: (da qual eu sinto, num vislumbre, todo o peso dos 323 anos que também vivi.) A vida que flui de mim a cada aurora.
                    De mim, Ludmila, nesta Jacareí.
                    (Ludmila Saharovsky em 1975)

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