Contos Mínimos: Refém

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Respeitei as doze formigas que, em fila indiana caminhavam perdidas pelas táboas do assoalho de meu quarto.
Respeitei a procisão solene que, dia seguinte, atravessou a cozinha e perdeu-se no túnel escuro escavado sob a rozeira, na grama do jardim. Respeito hoje, o batalhão que me carrega, presa subjugada, e me enfia, sem cerimônias, na boca do formigueiro. Respeitarão as formigas minha condição de refém?
(Ludmila)

    

    Conto mínimo: Caixa de Pandora

    Todos os objetos daquela casa tinham uma historia, que ela ouvia, muda. Os ícones narravam os inúmeros casamentos, batizados e enterros celebrados na família. O samovar descrevia os invernos rigorosos regados a chá e novidades; as cartas, tantas, diziam das saudades geradas pelas separações inesperadas; as fotos expunham sua genealogia; os tapetes, rotos, as inúmeras viagens pelos continentes, embalando sonhos. Mas, um tímido frasco, descoberto na gavetinha secreta do móvel entalhado em madeira antiga, guardava sua historia hermeticamente fechado. Levou dias para destampá-lo, sem danificar a delicada rolha. E quando o abriu…o perfume liberado fê-la verter tantas lágrimas que, rapidamente, cerrou o frasco, sem forças para reviver aquele enredo.
    (Ludmila)

      

      Contos Mínimos: Caixa de Pandora


      Todos os objetos daquela casa tinham uma historia, que ela não se cansava de ouvir, extasiada. Os ícones, de Pskov, narravam os inúmeros casamentos, batizados e enterros celebrados na família. O samovar, feito em Tulla, descrevia os invernos rigorosos regados a chá e novidades; as cartas, tantas, diziam das saudades geradas pelas separações inesperadas; as fotos expunham sua genealogia; os tapetes, rotos, as inúmeras viagens pelos continentes, embalando sonhos. Mas, um tímido frasco, descoberto na gavetinha secreta do móvel entalhado em madeira antiga, guardava sua historia hermeticamente fechado. Levou dias para destampá-lo, sem danificar a delicada rolha. E quando o abriu…a dor represada fê-la verter tantas lágrimas que, rapidamente cerrou o frasco, sem forças para vivenciar aquele enredo.
      (Ludmila)

         

        Conto Mínimo: Achados e perdidos

        Entre a grama do jardim descobriu uma moeda, que guardou no bolso.
        Entre as conchas da praia encontrou um anel, que vestiu no dedo.
        Entre os papeis da escrivaninha localizou uma carta de amor, que reviveu lembranças.
        Entre as lembranças do passado deparou com um suspiro, que, em vão, tentou devolver ao peito.

        (Ludmila)

          

          Conto mínimo: Um dia é da caça, outro…


          No meio da galeria o homem observa, maravilhado, o quadro da grande caçada: cães farejando a mata, excitados cavaleiros montando garbosos animais, raios de sol infiltrando-se pela densa floresta. Mas…e a presa? Onde a presa? Toca a corneta, e eis que a sala é tomada pelo som dos latidos. Tiros começam a espocar em sua direção. Quando ele se dá conta, já não há saída. No assoalho da sala, o sangue escorre…
          (Ludmila)

            

            Conto mínimo: Filhotes

            O filhote de Labrador com o qual presenteamos os garotos, animal dócil e obediente, submeteu-se durante meses ao treinamento:
            ” Em pé”!
            “Sentado!”
            “Junto!”!
            Cão inteligente, disseste orgulhoso.
            Hoje, ruídos incomuns despertaram-nos ao amanhecer. Às vistas do cão, deitado tranquilamente sobre o tapete do quarto, as crianças disputavam, rosnando, a posse do travesseiro.
            (Ludmila)

               

              Conto mínimo: Arco-iris


              Houve um país em que o dirigente proibiu a cor.
              De suas torres cinzentas proclamou o manifesto:
              “Nada de flores, frutos, borboletas.”
              “Nada de pássaros, cerca-vivas, jardins.”
              Homens, só toleraria camuflados.
              E assim foi, até que, certa manhã, no céu surgiu o arco-íris.
              (Ludmila)

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