Pedra da Memória

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“Acordar não é de dentro.
Acordar é ter saída.”
(João Cabral de Melo Neto)

Tudo dorme. Em mim tudo dorme: veias, nervos, poros, linfa.
A noite encantou meus olhos quando a primeira estrela fixou-se nas retinas.
A noite apossou-se de meu corpo e em ondas inundou-me de silêncio. Este, criador, onde tudo germina.
E o tempo regressou da Eternidade e trouxe consigo a pedra da memória que se fechou, impenetrável, sobre o meu plexo.
Alguém decifrará minhas cantigas, minhas palavras de amor e de alegria? Meus sonhos, fantasias, meus delírios?
Caminho na noite com a pedra da memória imersa em meus ossos. Eu, seu fóssil. Eu: a pedra, a memória e a rota. Eu: o silêncio, a noite e o norte.
Tudo que é vivo dorme em mim. Tudo dorme.
“Acordar é ter saída?”
(Ludmila)

    

    Lugares de antes

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    Um longo e estreito corredor levava aos fundos daquela casa de minha infância. “Fundos” lia-se na rara correspondência que lá chegava. Da pequena janela avistavam-se outras, tímidas, de venezianas sempre verdes e sempre semi cerradas preservando a preciosa intimidade. Caminho por esse corredor de volta ao meu quarto de menina. Meu e dos avós. Tento delinear sua presença entre aquelas paredes, mas os mortos partem sem deixar vestígios ou qualquer tênue sinal da vida que por ali passou. A menina que lá viveu também se foi. Perdeu-se num recanto inacessível do passado, como as dálias, as abelhas, o negro cão de olhar sempre alerta, os grilos cantores, as preciosas joaninhas, as pedras do jardim. Mas a luz continua a entrar pelas frestas da janela. A luz que revela as mesmas lágrimas de uma saudade antiga. Essa, que insiste em sobreviver. (Ludmila)

      

      Mar de dentro

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      Eu era o mar por onde navegavas: cintilação, estrela, nuvem, alga, quimera, feixe de luz, barco de espuma, bruma.
      Teu corpo envolto por um sopro azul flutuava no itinerário lento das marés. E um manto de escamas o recobria.
      E havia dunas e aves que sonhavam ultrapassar a inatingível linha do horizonte.
      E havia o vento que varria as nuvens, que encrespava as ondas, que levantava a areia, que me dilacerava as entranhas.
      Em ti dançava o sal das águas e em mim o medo cego dos naufrágios. (Ludmila)

         

        Ave, poesia!

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        Há certos momentos obsessivos em que intuo tua presença que em mim lateja. Estrelas preenchem meus olhos e a lua é foice de luz que me atravessa a alma andarilha. Fecho os olhos para ouvir-te e tua canção é sangue que alimenta minha loucura. Na catedral que ergo em mim para adorar-te, esse fervor coagula minhas crenças e tua rude beleza então se revela. Ave poesia! (Ludmila)

           

          Há dias em que escrever não basta.

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          Há dias em que escrever não basta.
          É quando uma estaca crava-se no peito e emudecem as palavras.
          A mão pende, inativa. Reflui a canção na boca. A tristeza entra pelo papel, áspera, profunda e o exílio me toma em seus braços.
          Fujo de mim. Mas quem foi que cortou o cordão umbilical que me ligava aos sonhos? (Ludmila com ilustração da Internet)

            

            Indizível nome

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            Doce…que seja doce o poema, mas, o coração estremece ante o arbítrio do barro misterioso no qual germinam as sementes das palavras. E é entre soluços que eu o concebo. Doto-o de guelras para que respire e de mandíbulas para que abocanhe as letras. E lhe ordeno: Faça-se poema! E ele se faz numa palpitação que delira ao ver-me. Eu: múltipla, ardente, arrebatada, apaixonada pela minha criação. Então, o poema me transcende e me chama pelo indizível nome. (Ludmila)