Este final de semana, aproveitamos para retornar ao Uruguai, rever o Forte de São Miguel e passar um dia no Hotel Fortim de São Miguel, inserido no Parque. Recomendamos este passeio para todos os amigos que vão até o Chuí, para fazer compras. Para se chegar ao Forte, basta seguir na Avenida Brasil, na direção contrária ao comércio, ou seja, à direita, se tomarmos como parâmetro o regresso ao Brasil. Passa-se pela aduana uruguaia, nesse local, sem problemas, e sem necessidade de Carta Verde, pois o Forte fica a menos de seis km. de distância. O Hotel fica ao lado do Forte, basta atravessar a Avenida. É uma bela construção erguida em 1942 e recebe muitos caçadores, quando se abre a temporada de caça ao pato selvagem. As fotos descrevem o local melhor do que as palavras. (Ludmila)
Arquivo do autor: Lu Saharov
José Menino
José Menino – Uma pria perdida na infância
Filha de imigrantes, com parcos recursos para grandes viagens de lazer, férias para mim eram o acontecimento do ano. Passar uma semana na praia, Deus do Céu, como era bom!
Meus pais acreditavam que banho de mar possuía poderes terapêuticos e o sol ajudava a fixar o cálcio nos ossos, potencializando o efeito do óleo de fígado de bacalhau que eu engolia sob protestos, diariamente, tapando o nariz! Assim, mal despontava janeiro, passagens compradas antecipadamente, lá íamos nós até a Praça da Sé, embarcar em outro ônibus que nos levava até Santos.
Creio que nunca fui tão feliz como naquelas temporadas!
Percorrer a Serra do Mar, a estrada cheia de curvas, maravilhando-me com a paisagem, o nariz grudado à janela, vendo os anúncios passarem por mim, flutuando nas montanhas, era uma emoção inenarrável.
Tudo era mágico: a neblina, os precipícios, as altas pontes, os túneis, os automóveis que paravam na subida da serra com o motor “fervendo”, os ouvidos tamponados pela pressão. E depois o cheiro: Aquele odor ardido da Usina de Cubatão, cuspindo longas labaredas de fogo pela alta chaminé, anunciando que, finalmente, o mar estava próximo.
Nós sempre nos hospedávamos numa modesta pousada, de frente à Praia do José Menino. Tudo, a partir de então entrava num ritmo diferente: a rotina, o cenário, a comida, as pessoas, mas, sobretudo, os sentimentos. A felicidade podia ser tocada e o era. Ela deixava em mim marcas físicas: arrepios, o riso que não desgrudava da boca e uma certa angústia em ver que não podia interferir na passagem do tempo e fazer de conta que os dias de verão nunca terminariam!
O pai e a mãe, descontraídos, vestiam-me com roupas novas e íamos passear na orla. Tirávamos os sapatos e deixávamos que as ondas se quebrassem sob nossos pés descalços, saboreando picolés de coco e chocolate, meus predileto! E havia a lua, imensa, refletida na água! Pela manhã, bem cedo, o perfume do óleo de bronzear já enchia o corredor, saindo de todos os quartos. Nas mesinhas do refeitório, bananas, suco de laranja, café ralinho, pão e as bolinhas geladas de manteiga eram um verdadeiro manjar dos deuses! Depois, o chapéu de palha, os tamancos de solado de madeira, óculos “gatinho” e a obrigatória saída de banho confeccionada em algodão branco e felpudo eram acessórios que não podiam faltar. Ah! e havia também a boia preta, aquela velha câmara de pneu, gorda de ar, que o dono da pensão nos emprestava para brincar nas ondas.
Os guarda-sóis começavam a surgir, mas eram poucos, assim como as esteiras feitas de palha; mas havia as sombras de árvores disputadas por brancas mães e avós, apertadas em seus maiôs de lastex e cercadas por crianças barulhentas e felizes como eu! Poucas horas depois, e o sol já ardia na pele, assim, com as bochechas afogueadas, nariz lambuzado de pasta d’água, cabelos endurecidos pelo sal das ondas e o fundilho do maiô cheio de areia compactada, eu voltava à pensão, rezando para que não houvesse fila aguardando a vez de entrar debaixo da ducha comunitária, instalada no corredor. Minha pele ardia demais sob a mistura de óleo, sal e areia!
Após o almoço de salada, arroz com feijão, macarrão e frango geralmente ensopado, a sesta era obrigatória. O dia, dividido em dois, durava o dobro, pois à tarde a maratona se repetia. O regresso pra casa era triste demais, mas, a certeza de que outro janeiro em breve chegaria, espantava as lágrimas e a contagem decrescente dos dias começava ali mesmo. Hoje, essas recordações passam por minha cabeça, feito filme, e eu me espanto:Era eu mesma a protagonista?
Digam-me, por favor, a quem posso pedir de volta minha infância?
(Ludmila Saharovsky)
cronica publicada no jornal O Valeparaibano
Onde a poesia?
O que é utopia: Eduardo Galeano
Porque escrevo
Perguntam-me porque escrevo
Creio que nasci sob o signo da escrita. O ato de escrever é tão inerente a mim, que não consigo separar-me dele. Escrevendo eu consigo entender o mundo, entender a mim mesma e à realidade que me cerca. Escrevendo me aproximo, sem timidez nem receio das pessoas.
Quando criança, ao apagar a luz do quarto, eu mergulhava num universo perfeito, imaginado ali mesmo, entre os lençóis da cama. E me viciei. O mundo de dentro era bem melhor que o de fora… Não necessitava de palavras, apenas pensamentos. Ah… aquela felicidade rara do silêncio dos peixes, das formigas, das borboletas. Elas viviam sem emitir qualquer som, e, no entanto se entendiam. E porque este medo da palavra verbalizada?
Ele existia porque minha língua era estranha. Meus amigos de carne e osso não a compreendiam. As palavras saíam titubeantes, entrecortadas, estrangeiras de minha boca.. .Isto quando já não morriam prematuramente na garganta. Ah… como eu quis então me comunicar emitindo apenas sons, feito os animais. Os sons agônicos me fascinavam. Mas, infelizmente eu nasci pertencendo ao reino dos humanos. E tive que superar minhas dificuldades. Abrir a boca e falar. Mas, antes disto, sentei à mesa e escrevi. Escrevi cartas para amigos imaginários. Escrevi confidências em diário trancado com uma chavinha de borda rendada. Escrevi contos que traduzia. Depois, histórias que eu mesma imaginei. Escrevi poemas. Escrevi estudos. Escrevi discursos. Escrevi crônicas. E não parei mais. Fiz da escrita meu norte. Meu porto seguro. Minha estratégia para fugir da solidão. Minha senha para entrar na casa de pessoas que de outra forma não contataria. Meu ritual para fazer novas conquistas. Para seduzir. Sim, seduzir. A escrita sempre foi minha arma secreta. As letras sempre me arrastaram para a vida. Sua força latejava em minhas veias. Seu exercício enfeitava-me mais do que qualquer roupa, qualquer jóia, qualquer adereço raro. Diferenciava-me na multidão. Minhas palavras escritas, pressentidas, eram como que flores perfumando o caminho em meio à neblina. E estrelas iluminando um céu nem sempre varrido de nuvens. Elas eram minha secreta e íntima melodia. Minha ligação com o divino em mim. Minha ligação com o divino de cada um que se aproximava de mim. Meus pensamentos transformados em escrita eram partículas de luz dançando dentro de meu corpo. De meu cérebro, de minhas entranhas. Eram unicórnios observando a lua refletida nas lagoas.
Eram princesas de longas cabeleiras douradas preparando-se para o florescer da paixão. Eram a eternidade colorida por mil arco-íris.
Eram montanhas esvoaçantes e árvores deslizantes. Eram o meu mistério. São o meu mistério. Meu jardim secreto. Meu sagrado, que tenho o privilégio de comungar com quem me lê.
Ludmila Saharovsky
Minicontos de ouvir
Dia das mães
Quando eu era criança, e o Dia das mães caia no dia 10 de maio, eu pensava que era por causa do aniversário de minha mãe. Vai ver…era mesmo! Hoje ela completaria oitenta e oito anos, mas, há trinta e sete, minha mãe faz festa naquela etérea estação do outro lado da vida, e eu, do lado de cá, comemoro a sua leveza de ser! Beijos, mãe!
(Ludmila)
Exercício para materializar lembranças
“A lembrança pura não tem data. Tem uma estação” ensinou-nos Bachelard, e ele estava certo!
“Aquilo que a memória amou fica eterno” disse Adélia Prado. Mas, como alcançar esse território da eternidade e trazê-lo para o presente?
Penso que recordar é uma outra forma de habitar o tempo, e o veículo que nos leva a ele é a saudade. Saudade de pessoas que foram importantes em nossa vida. Saudade de lugares, de cheiros, gostos, do timbre de uma voz. Saudade de uma determinada música que se alojou em nossa alma e não se desprende. Saudade de emoções, da infância, da juventude que passou voando! Um instante, um inspirar e expirar, apenas, e já se fez passado.
“Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas”, escreveu Rubem Alves. Pois a minha, lhes digo: é um trem carregado de reminiscências. Um trem daqueles em que os vagões se perdem na contagem, de tantos que são e, ao mesmo tempo, ele não passa de um vislumbre! Ele não passa de uma estrela cadente cortando os céus, como na música de Raul Seixas: “Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem/Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon/ Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem.” Olho o trem e não consigo toma-lo rumo ao passado! Não consigo aprisionar, materializar, sequer organizar minhas memórias, quanto mais torna-las vivas! Elas vão e vem ao seu bel prazer, e quando penso que, enfim, eu consegui aprisionar alguma, aí é que ela me escapa!
Com o decorrer do tempo fui aprendendo que, para habitar o território das lembranças é preciso tornar-se mestre no ofício da imaterialidade. Se pensamento é energia pura, as lembranças ficam ali, no vácuo. Elas não são os pontos luminosos. Não! Elas são a sua sombra, por isso é tão complicado retê-las. Por isso lembranças não tem datas, apenas estações. Apenas emoções. E eu pratico. Fecho meus olhos e me deixo flutuar nessas estações, como quem não quer nada… Então, minha alma lança o anzol no mar da memória, e, na maioria das vezes, traz a pesada ausência enroscada nas algas do tempo, em seixos, em calhaus, em musgo. Até livrar-me disso tudo, a ausência já escapou, não teve tempo de virar presença, mas, algo ficou no ar, feito um sopro ecoando no silêncio, que me estremece, me arrepia, roça meu íntimo, suavemente, e se esvai. É assim, feito o farfalhar da seda que não toco, mas adivinho, leve! Ah! A insustentável leveza das recordações! Creio que é por isso que escrevo tanto! As palavras tem o poder, tem a magia de materializar lembranças no papel. Palavras são feito pedras que atiramos no lago e que vão formando aqueles círculos visíveis, que vão se abrindo mais e mais e se permitem ser tocados, quando a pedra que os provocou, já nem tem mais importância alguma.
Todo esse texto, essas reflexões, são para trazer, você, minha mãe, à essa estação que sua ausência criou em mim, e que as lembranças jamais preenchem, e que as saudades jamais saciam, e a eternidade não consegue aproximar…
Ludmila
Jacareí: Tempo e memória
Amigos me estranham. Sumiu porquê?
Sumi não…é que estou em gestação, respondo! Gestando um novo livro que me tem envolvido em seu enredo.
Aliás, estou numa viagem no tempo. No tempo passado. Revisito lugares, me encanto com fachadas de casarões que redescubro e de pessoas que os habitaram. E vou encontrando jardins e sacadas, sentindo cheiros bons de licores caseiros, servidos em varandas ensolaradas ao cair da tarde.
Hoje, estive com dona Nicota, no Botequim do Café, que ela abriu lá no Mercado Municipal, provando seu delicioso bolinho caipira. Gente, que delícia! Recomendo muito o endereço! A receita? Bom…isso é uma outra história! Depois fui à beira de nosso Rio Paraíba conversar com as lavadeiras. “Quanto é pra lavar um cesto de roupas, comadre?” “ A senhora dá o sabão?” “Não! Pode incluir o sabão” “Então é dez tostões a baciada… “ Passo, na volta, na Rua da Biquinha e encho meu cântaro de água cristalina, que ofereço a vocês. Estão servidos?
Ontem comprei massa, na Fábrica de Macarrão dos Lencioni, na esquina dos Quatro Cantos, verdadeiro pedacinho da Itália no coração de Jacareí. Lá estão instalados também os Zonzini, com sua venda de secos e molhados ( o vinho tinto importado, que fica nas cartolas, lá no depósito é fantástico…recomendo!) os Mercadante, os Tarantino, os Perreti, o Scavone, atendendo garbosos cavalheiros em sua barbearia (olhei de soslaio e creio que o Dr. Pompílio estava lá, fazendo a barba!), e mais adiante a família Marino, com seu açougue. “Tutti Buona gente!”
Daqui a pouco, vou me arrumar para ir à Estação, ver o trem passar…Quem sabe vejo aquele rapaz simpático que sempre vai à Capital, e, me acena da janelinha…E, à noite, não posso perder a apresentação da Orquestra Sinfônica dirigida pela maestrina, dona Dionisia Zicarelli. Estão vendo como tenho ocupado meu tempo?
Então, se quiserem encontrar-se comigo, é só ir até a Rua Direita, que, com certeza irão me achar…ou ir até o Beco do Caranguejo! De lá, no Morro do Marreli é um pulinho!
Até mais, amigos!
(Ludmila)
PS. Esses e outros personagens estarão contando suas histórias sobre Jacareí, e dando mil e uma receitas deliciosas nesse livro que escrevo…mas, só para abrir seu apetite, aí vai a receita do licor de leite, do “Diário de 1946″ de Dona Cida Cortez.
1 litro de leite, 1 garrafa de álcool de cereais, 1 kilo de assucar, 2 favas de baunilha, 2 pares de chocolate, rodelas de limão.
Depois de fervido o leite junta-se o álcool, assucar, o chocolate ralado e a baunilha em pedaços; por último as rodelas de limão. Deixa-se em infusão 9 dias, mexendo-se todos os dias. Passa-se em escossia e filtra-se.
Gostaram? Pois no livro terá bem mais…Aguardem!

































