Á noite, encontrei-me com o poema.

silêncio
Á noite encontrei-me com o poema.
Ele dormia intocado no silêncio de minha língua
com suas palavras permeadas de metáforas,
antes de ser verbo e se fazer carne de minha carne
e habitar as entrelinhas da matéria.
Á noite encontrei-me com o poema. e antes que ele despertasse
e preenchesse de letras rebuscadas a minha boca, preenchesse de
água e fogo minhas entranhas e saísse feito dardo sonoro iludindo meus sentidos e dando vida a abstratos pensamentos, eu o sorvi, transformei-o em sopro, em alento, em suspiro, em saliva e o protegi de mim! Então a noite encheu-se de estrelas, a poesia surgiu das trevas e alimentou-se da calmaria do tempo, e expandiu-se livre, em seu calado e insondável mistério e habitou entre nós. (Ludmila)

    

    O idioma dos sonhos e das nuvens

    estrelas
    Este idioma com que falo às nuvens
    enquanto o sono me espreita e confunde as imagens com que colonizo os sonhos
    é língua estrangeira de reduzido uso.
    A ela respondem as ondas e os rochedos
    e algum pássaro noturno, se o chamo pelo primitivo nome.
    Então, abrem-se as portas do reino,
    o sono vence a batalha e me leva ao seu domínio:
    lá onde as estrelas surgem,
    lá onde os poemas nascem,
    lá onde o silêncio reina soberano,
    lá onde a vida forja novas contendas
    e me semeia de abismos.
    (Ludmila)

             

      Tempo de delicadeza

      21927_497261430304370_42883249_nMaio: mês das noivas, mês das mães. Mês feminino em sua essência de sonhos, rituais, festas, presentes e mais presentes!
      Penso em como as coisas mudam numa “velocidade estonteante”. Não, não vou censurar as festas nem falar de hábitos de consumo que, neste nosso nascente século XXI, interferem e se refletem até nos sentimentos. Eles também mudaram!
      Hoje, a maioria das noivas entra na igreja como se entrasse num show. Seu show particular. Antes, ensaios, lista de padrinhos, lista de presentes, testes de cabelo e maquiagem, escolha de cardápios, de trilha musical para a festa que precisa ser, no mínimo, apoteótica, superlativa, inesquecível, sob os aplausos dos parentes e convidados. Mas, a vida não é uma festa permanente, e a promessa de “até que a morte os separe” precisa mudar urgentemente para “até que a vida a dois os separe”.
      Pergunto então: mas o quê foi que deixamos ficar pelo caminho?
      Creio que os casamentos ganharam em glamour, mas perderam em delicadeza, magia, intimidade, na qual o amor deveria ser o principal protagonista.
      O mesmo ocorre com o dia das mães. São tantas as mensagens que falam de amor incondicional, tantas declarações pelo facebook, pelo WhatsApp, pelo twitter…que o sentimento se banaliza! Lojas comemoram o salto quântico nas vendas de presentes, floriculturas têm filas de espera, assim como os restaurantes onde as famílias, em peso, comemoram o dia dela: o dia da mãe!
      Críticas? Nenhuma! Apenas a constatação de que vivemos novos tempos em que aprendemos a demonstrar o amor, não mais pelo sentimento em si, mas como exigem as regras ditadas pela mídia.
      Pergunto de novo: Onde ficou a delicadeza de uma flor deixada junto à xícara de café, que surpreende e nos emociona em qualquer dia não marcado na folhinha? Onde o presente da simples presença, ali, curtindo o domingo sem qualquer compromisso, que não seja o de apenas estar junto, em harmonia, celebrando a grande dádiva de partilhar a vida junto a quem nos trouxe à vida?
      Parece que a emoção, hoje em dia, vivenciada unicamente na intimidade, junto a quem amamos, já não nos basta mais. Urge escancará-la, partilhá-la com o mundo inteiro, anuncia-la nas redes sociais, sob os holofotes de um grande evento, como que para validá-la: “Mundo, veja como eu amo e celebro o amor!”
      Ah! Que saudade desse tempo de pequenas afabilidades, invisíveis ao mundo, mas, ao mesmo tempo tão enternecedoras, trocadas de coração para coração, sem tantas testemunhas oculares. Um tempo que suaviza a alma, renova os votos, nos faz sentir vontade de voltar sempre à companhia amada, seja dos pais, seja dos companheiros, para revigorar os sentimentos e acreditar piamente que existe um tempo que “refaz o que desfez”.
      É o que penso. Abraços a todos!
      (Ludmila)
      Crônica Publicada na revista Absollut

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