O sumiço das galinhas

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Como todos, na vizinhança, no bairro em que morávamos em Carapicuíba, nós também tínhamos um galinheiro. Quantas vezes eu despertei ao som dos galos saudando o nascer do sol, cada qual com seu cocoricó particular – sempre estridente – como tão bem descreveu João Cabral de Melo Neto em seu poema Tecendo a Manhã:
“Um galo sozinho não tece a manhã/ ele precisará sempre de outros galos/ de um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro; de um outro galo/ que apanhe o grito que um galo antes/ e o lance a outro…”
Pois era exatamente assim que amanhecia nos dias de minha infância. Logo, adultos e crianças pulavam da cama para enfrentar as lides, que não eram poucas! Nosso galinheiro era um cercado de tela no fundo do quintal, onde o avô improvisara um tosco telhado de sapé que protegia o poleiro. Nas feiras-livres havia um grande comércio de galinhas poedeiras: ruivas, brancas, carijós. Seus ovos, depois de galados, eram reservados. Assim que alguma começasse a apresentar sinais de que iria ficar choca: as penas arrepiadas, a cantilena diferente, a busca de um canto para se aninhar, já a avó corria para providenciar os ovos e eu ficava torcendo para que os pintinhos nascessem logo. A transformação de um ovo num ser vivo foi o primeiro milagre que presenciei. Com o passar dos dias, eles iam ficando mais pesados e, ao serem observados contra a luz, percebia-se, nitidamente, que dentro se formavam os contornos de outra ave: o bico, os pés, as tênues veias transportando o sangue. As vizinhas dependuravam-se nas cercas que delimitavam os quintais, em busca de uma prosa que acontecia mais por gestos do que verbalizada. Ainda não dominávamos tão bem o novo idioma, assim, na base de muita mímica, eram informadas de quantos ovos haviam vingado. Ofereciam então talos de couve, folhas amassadas de alface e outras verduras que, bem picadinhas, reforçavam a dieta daquela numerosa prole alimentada também com quirera e minhocas. Em algumas semanas as aves começavam a adquirir características próprias, revelando o sexo. Os varões eram sempre os mais briguentos, sendo os primeiros a cumprirem seu destino de ensopado!
O curioso era como cada família Identificava suas aves. Uma fita colorida atada ao pé, logo remetia as extraviadas ao seu dono, num código que permitia a todos um convívio absolutamente pacifico.
Certo dia chegou à vila um circo mambembe composto por alguns pares de artistas, meia dúzia de caminhões, um casal de pôneis amestrados, alguns cães vestidos com saiotes e boleros, um elefante muito triste e um leão meio cansado…Não é preciso dizer que a garotada entrou em êxtase! Naquele fim de mundo, um circo era uma transformação radical da rotina. E foi! Tanto que, após anos e anos de distância que me separam dos fatos, rememoro como se fosse ontem, a indignação de D. Rosa, inconformada com o sumiço de sua carijó. Foram aqueles desocupados, afirmou ela convicta, indo tomar satisfações com o homem magrelo que, equilibrando-se sobre longas pernas de pau, gritava pelo megafone as atrações de cada espetáculo. O dialogo esquentou de tal maneira que foi preciso chamar Seu Raimundo, o guarda civil, para apaziguar os ânimos. Mas… a galinha de D. Rosa não foi a única a desaparecer misteriosamente. Outras a seguiram provocando um reboliço na rua, maior do que em dias de feira ou de quermesse! Eu sei é que, por conta do desaparecimento das aves, foi-nos terminantemente proibido rondar as adjacências. E se começassem a desaparecer também as crianças? Assim, sem ter caído nas graças do respeitável público, logo o circo foi desmontado e partiu.
Quanto ao mistério do sumiço das galinhas…este jamais foi elucidado!
(Ludmila Saharovsky)

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