E quando a palavra não existia?

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E quando a palavra não existia?
Quando pedra era pedra, simplesmente, reconhecida em sua essência pelo toque? E noite era noite, e chuva era chuva, e ave era ave, e as emoções que provocavam permaneciam agarradas aos nossos ossos e medulas e passavam a fazer parte de nosso inconsciente? Nesse tempo as palavras dormiam no silêncio da mente e não faziam falta. Tudo podia ser reconhecido pela cor, som, odor, energia, movimento. A cor falava aos sentidos: o homem pintava-se de vermelho e buscava ação. Dela nasciam o ardor e os impulsos, e as conquistas iam se realizando.
O amarelo remetia à alegria, à exuberância, ao sabor doce das frutas maduras: o calor do sol incitando à vida.
E vinha o aconchego do verde, a relva, a cama de folhas macias, o olhar vagando pelos campos infindáveis sem sustos nem atropelos.
E no azul do céu e do mar, estava o desprendimento, o infinito, o sonho, o desejo das profundezas e das alturas.
O marrom era a cor do campo lavrado, do cansaço ao final do dia, da magia das sementes germinadas no útero da grande mãe, a terra.
E o negro manto do mistério recobria tudo: a noite, a caverna, o medo, os demônios, os assombros, até surgir o branco da lua, da clareza, da luz difusa, dos momentos de paz quando tudo se aquietava e o homem observava o céu buscando nortear-se pela disposição dos astros!
Não sei se foi realmente o Verbo que criou tudo o que existe. Penso que ele nomeou as coisas que havia e então começou nosso delírio! Colocamos nas palavras um peso e uma importância que elas não podem suportar…
Quem sou eu? Ninguém mais se identifica como a energia que permeia a forma. Ninguém se reconhece como a semente que se fez corpo composto por terra, fogo, água e ar. Por luz, cor e fantasia!
Palavras não rompem cercas nem libertam. Elas não gemem nem choram. Não nos envolvem nos tons do arco-íris. Não nos perfumam. Não nos refletem. Não nos redimem.
Palavras não desvendam os segredos dos oráculos. Estes se revelam nos ossos, nas vísceras, nas pedras, no fogo, na areia, nas sementes… Quiçá nas estrelas!
Mais vale um aceno! Mais vale um beijo, um abraço, um soco, um uivo, um sorriso, um cheiro.
“Ao criar uma palavra para cada coisa substituímos as coisas pelas palavras” já descobriu Foucault. E então mergulhamos na ilusão, mergulhamos em maya.
A vida é dominada pela ação em si, e não pela palavra!
Mas, basta reconhecermos em nós que a palavra é uma falácia, que o verbo nomeia mas não revela a essência, e que é no silêncio que ouvimos a voz de nossa alma, e então as cores, os sons, a luz e o movimento nos levarão para aquele outro lado, onde o verbo não se faz carne, mas assim mesmo nos habita!
(Ludmila Saharovsky)

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    2 pensamentos sobre “E quando a palavra não existia?

    1. Querida Ludmila
      A respeito de ” Quando as palavras não existiam”, peço permissão para refletir: as palavras, usualmente negras sobre fundo branco, você as produz brancas sobre fundo azul; a leitura nos envolve no vermelho da emoção, no amarelo de lembranças, no verde da renovação.
      Que bom as palavras existirem para você usá- las assim!
      Beijos
      Maria José

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