Contam os antigos…

Contam os antigos...

Ninguém soube como tudo começou. De repente não se falava de outra coisa: a cidade fora visitada por extraterrestres. E não era a primeira vez! De repente, sem que ninguém soubesse como ou por que, as comadres reuniam-se e passavam o dia comentando sobre os tais dos “marcianos”.
O tempo passava, todo mundo esquecia, mas desta vez aconteceu logo com o seu Jurandir, o boticário mais respeitado do pedaço.
Contou ele que vira as luzes piscando e se aproximando na neblina da madrugada que o pegara insone, observando a Mantiqueira do terraço da sala. Naquela época, todos acreditavam em tudo, principalmente, quando nada acontecia.
Eis que a notícia do disco voador começou de mansinho, como as grandes epidemias que se espalham, aparentemente vindas do nada: seu Jura fora raptado por uma nave, bem na porta de sua casa, localizada na principal praça da cidade, ao lado da igreja e de frente à Câmara Municipal. Começou tudo com as luzinhas no céu, que ele saiu para ver mais de perto, de pijama e chinelos. Esquecera até do boné contra o sereno. A cidade dormia seu justo sono: Nenhuns cachorros sem dono ou bêbado vadio serviram de testemunhas. Nenhuma dama da noite perambulava pela quadra, quando o brilho materializou-se num funil, ofuscando-o, hipnotizando-o, até que se sentiu suspenso no ar e depois… depois não se recordava de mais nada!
Os mais velhos garantiram que seu Jura estava variando. Oitenta anos! Não seria para menos! Depois que dona Mocinha morreu, ele nunca mais foi o mesmo. Não dizia coisa com coisa, tomara-se recluso e ante social, e agora vinha com essa patacoada sem pé nem cabeça. Disco voador na cidade, e logo na Praça da Matriz! Onde é que já se viu?
O fato é que a história mexeu com a população mais do que se poderia esperar, principalmente com a moçada! À noite, ninguém conseguia dormir. Grupos organizavam-se para vigílias permanentes. O céu noturno era perscrutado com binóculos, lunetas, óculos de grau. Qualquer vidro de aumento, à mão, servia para o intento.
Quando a notícia parecia esfriar, logo surgia outra, e a mais recente dava conta de que seu Jurandir tinha em seu poder, uma prova. Uma prova incontestável de existência dos ETs.
Os chefes de reportagem dos principais jornais ordenaram aos seus noticiaristas que municiassem o povo com revelações assombrosas. Tabloides vendiam feito água!
Seu Jura aparecia estampado, diariamente, nas primeiras páginas até dos periódicos da Capital. Tornou-se presença obrigatória nas rodas de prosa das esquinas, na mesa do bar do seu Constâncio, nos programas de auditório das rádios da região, e estaria até na TV, se essa já existisse. Mas, o tempo passava e a tal da prova nunca que era apresentada, até que, por natural cansaço, todos começaram a acreditar que ela já fora mostrada, e que provocara um choque geral.
Os mais enfáticos chegaram a afirmar que seu Jura tomara-se portador de poderes paranormais, a partir do objeto secreto que os marcianos lhe confiaram. Filas de crédulos começaram a formar-se em frente à sua casa em busca de soluções para os mais variados problemas. Ele resolvia desde olho gordo, passando por amores impossíveis, perdas de emprego e até aleijões.
Hoje, seu Jurandir da Farmácia empresta o nome à principal avenida da cidade. Lembram os antigos que fora um personagem ilustre, um ser humano ímpar. Um benfeitor. Quanto aos extraterrestres… mas quem foi que disse que eles existiram?
(Ludmila Saharovsky)

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