Encontros Fantásticos IV


“….Subitamente contemplo surpreso longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a esta senda, com os olhos adormecidos na lembrança, cantam canções para si mesmos e recordam. E algo me diz que mudaram para se deterem, que falaram para se calarem, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fecharem e recordar….”
(fragmento de “A Luta pela Lembrança” do livro “Para nascer nasci” de Pablo Neruda)

Uma suave melodia ecoava pelo ambiente: Som de instrumentos de corda, sinos, ondas e vento. Algo parecido com o que hoje chamamos de estilo New Age. Parados, um ao lado do outro, permanecemos ali, aguardando o desenrolar daquela iniciação. Não sei precisar quanto tempo ela durou. Digamos, que foi o tempo necessário! Respondemos à questões pertinentes à nossa fé. Submetemo-nos a um ritual simbólico, associado aos quatro elementos: fogo, terra, água e ar, e por fim, juramentos recitados, fomos convidados a retirar as vendas. Estávamos dentro de um amplo salão, escavado nas rochas. Ele fora escavado durante séculos, pela água de um rio subterrâneo agora inexistente. A natureza caprichara naquela inusitada decoração. Cortinas de fragmentos de rocha rebrilhavam como se fossem de pesado tafetá. Três pedras sobrepostas formavam um altar perfeito. Pelas paredes, a dança das sombras desenhava um estranho mural de seres ancestrais que davam a impressão de nos observarem amorosamente. Ali, rostos severos de anciãos com longas e ralas barbas. Na face oposta, mulheres ajoelhadas num círculo perfeito, as mãos elevadas em prece. Asas de imaginários pássaros cruzavam o teto. Num piscar de olhos, tudo sumia, para ressurgir novamente, em outras inesperadas formas. Aqui e ali, divisavam-se algumas pedras mais limosas, mais salientes, iluminadas pela luz de velas e poucos archotes. Frente a nós, o mestre paramentado, segurava nas mãos a espada da sagração. Sobre um pequeno aparador triangular brilhava a chama trina, da vida eterna.
Ao nosso redor percebemos uma assistência de uns vinte irmãos, sentados do lado direito e do lado esquerdo, fechando um semicírculo. Sentamo-nos dentre eles e o ritual prosseguiu, em forma de cânticos, relaxamento, e por fim, a lição daquela noite. A Ordem dos Buscadores não fornece nenhum material por escrito, nenhuma apostila. Nenhuma anotação é permitida. Todo o ensinamento é transmitido verbalmente e pessoalmente, o que a diferencia das demais escolas de mistérios, mais adequadas, hoje, à modernidade dos novos tempos.
Com o final dos serviços, levantamo-nos, reverenciamos o leste, de onde surge, a cada novo dia o sol, e seguimos para o átrio. Retiramos as vestes ritualísticas e silenciosamente, preparando-nos para sair. Só então nos demos conta de onde realmente estávamos: No meio da montanha! Nenhuma luz, nenhum sinal de vila ou de cidade, cercados por altos cumes, debaixo da neve andina que agora caía farta. Uma trilha em meio à vegetação, iluminada por lanternas de bolso e a grande, a enorme lua cheia nos guiaram de volta. Caminhamos em fila indiana, circunspetos, até uma pequena clareira onde estavam estacionados alguns veículos. Sem grandes delongas, nosso interlocutor nos disse que, no dia seguinte nos encontraríamos com ele, agora num lugar distinto, numa cafeteria no centro de Santiago, onde receberíamos algumas instruções. A volta foi marcada pela emoção e introspecção de cada um, rememorando as impressões causadas na alma, por aquela vivência.

Na pousada, um chocolate quente aguardava-nos.Sobre a mesa, caprichosamente posta, estava um embrulho para presente ao lado de cada xícara. Amarrada num saquinho de veludo, uma pequenina Cruz Ansata seria o único símbolo material de que agora pertencíamos àquela escola. (Ludmila Saharovsky)
Continua na próxima postagem

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