Diário em Solovki – Memórias de além mar

Ah…como é bom poder tocar de novo a infância, olhando esta paisagem pela janela: O pomar carregado de macieiras… No vaso de boca larga, flores recém colhidas no campo… Sobre a mesa da sala, posta para o lanche, a sempre presente geléia de morangos (feita em casa) o bule de água quente para o chá e o insubstituível pote de torradas. Tudo tão familiar e íntimo. Tudo tão presente nesta tarde que desce, vestida de sol, sobre a casa hospitaleira na qual me encontro. Sombras de rostos conhecidos afloram de dentro da claridade, interrogando-me sobre tantos caminhos que já trilhei. Inquirindo-me sobre atos, razões, sentimentos. Sobre os vivos e os mortos. Não! Agora não!eEu peço!Não me perguntem nada! Deixem-me ficar apenas, ancorada neste silêncio! Permanecer assim, despida de qualquer raciocínio, nesta relação pura com a quietude do corpo e da alma. Sem movimentos. Sem respostas. Sem compromissos. Tomada unicamente pelo prazer de saber-me em sintonia para maravilhar-me novamente com cores, sons, texturas. Livre para mergulhar no universo de uma outra casa, aquela, da infância, embutida na memória, abrindo portas muito devagar para não quebrar o encantamento. Para poder sentir de novo a vibração particular e única que alguns espaços produzem e refletem em nós. Estremecer de alegria incontida ante a visão do ícone da Virgem de Kiev, iluminado pelo lampadário, das ameixas e pêras sumarentas guardadas na fruteira, da abundancia de pão e mel na mesa sempre posta da cozinha, a toalha de flores miúdas e vermelhas, bordadas em ponto de cruz pela avó. Abraçar cada livro, cada foto, cada quadro, cada bibelô. Rever cômodo por cômodo e sua mobília improvisada. Perambular pelos recantos secretos do jardim, reconhecendo plantas e insetos. Sentar-me à velha escrivaninha colocada no terraço e reler os diários escritos em caligrafia ainda não muito definida, por uma menina que anelava um futuro feliz, e o obteve. Com alguns contratempos, é claro, mas,noves fora, as somas e divisões deram sempre certo. Toco-me, como que em busca de um reconhecimento. Toco-me do passado. Toco-me plena de ternura pela mulher que surgiu, o rosto aberto às inevitáveis tempestades. E também às tardes de sol poente, como esta. Toco-me e entro em contato com todas as mulheres que me precederam nesta família na qual nasci. Relembro seus temores, suas lutas, suas vitórias. As lágrimas de saudade pela vida que se deixou para trás, do lado de lá do oceano. Os aventais sujos de farinha, os domingos passados na faxina, a leitura de poemas infantis de Puchkin, à luz daquele abajur artesanal que imitava um cogumelo. E sombras de mãos inventando cenários nas paredes povoadas de Babas Yegás e fadas salvadoras. Toco-me e uma vertigem me atravessa a alma. Esta sou eu, no futuro, resgatando minha própria história. Esta sou eu, viajando pela pátria de meus antepassados, alimentando-me de saudades e descobertas. Esta sou eu, sou todas nós, tomando chá de jasmim numa datcha longínqua, reunindo passado e presente que tecem meu futuro. Sim, esta sou eu……
(Ludmila Saharovsky)

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