Sobre João Duarte Mauro


(escultura em argila queimada do artista Sérgio, do Vale do Paraíba. Foto do acervo de Fabiano Mauro Ribeiro)

A morte de João Duarte Mauro foi uma perda sensibilizante para o mundo das artes do Vale do Paraíba, onde era membro do Conselho de Cultura de São José dos Campos.
O engenheiro químico João Mauro, lotado como profissional no CTA , à parte os excelentes serviços laborados perante aquele Orgão do Ministério da Aeronautica por mais de 25 anos,era,desde que aportou à cidade em 1965, um apaixonado do movimento artístico do Vale.
Sua sensibilidade para com a nossa arte, talvez por ser filho de emigrante de primeira geração, carregada do talento que o aproxima bem do de seu irmão mais velho, Humberto Mauro, tido como pioneiro de nosso cinema em Minas, possuia aquela dose especial de percepção,que o fazia exergar um talento no artista tímido, ou um esplendor numa obra esquecida, que então passava a ser uma obra prima, desabrochando e se mostrando em sua plenitude. Era autodidata numa arte importantíssima: a de tocar a vida, guiando-se quase sempre fora dos esquemas pré-estabelecidos, daí a dificuldade na aceitação de tais temperamentos por pessoas que se subjugam aos trilhos dos caminhos convencionais.
Somente um temperamento assim, com tal sensibilidade, seria capaz de descrever com riqueza empolgante os bonecos de argila de Sergio – escultor tido como “meio pancado”, e relegado por muitos a um plano inferior, vagando por Taubaté, mas que na realidade produzia obras em argila, de um vigor, e de uma plasticidade, que o aproximava até mesmo da teatralidade dos mestres do barroco. O pobre Sergio porém, no ambiente colonialista da gente do Vale, era deixado de lado, com sua esquizofrenia e seus bonecos estranhos, até que J. Mauro, com sua vigorosa dose de fantasia, o sacudiu, e quando o conheci, era já um Sergio, que mesmo expondo seus intermináveis escritos confusos num caderno de espiral, se mostrava capaz de dizer com opinião formada:” doutor, sensibilidade artística não existe!”. Assim pois era a marca, vamos dizer sem medo, genial de João Mauro – seu posicionamento no lado de cá das telas dos pintores, das telas dos cinemas e do anfiteatro todo especial que ele montava para ver a vida.
Justino foi sua primeira descoberta, vindo da pequena Redenção da Serra, cidade próxima a receber o diluvio, dando lugar a uma repreza. Construiu-se porém, no alto do môrro, uma outra cidade, Nova Redenção! Ali Justino fazia afrescos da capela, Zé Demétrio, fez a escultura da entrada da cidade. Nesse cenário bíblico, em que uma cidade sucumbiu sob as aguas, ele iria tirar Justino, e fazer ver aos que no Vale queriam ignorar, que um talento inegável residia no confrade de Guima e Anderson Fabiano.Aqui, se buscarmos as escolas da moderna psicologia, talvez alguem vá encontrar o fenômeno da racionalização, e o desejo talvez da sua propria personalidade em se realizar, criando um Titã, num nanico – muitos apontavam defeitos na tecnica de Justino, mas se calavam. Não fôra a morte levá-lo, e ele poderia pessoalmente ter visto quadros do pintor de Redenção, numa exposição no Rio Othon, para o qual levamos através do Movimento Brasil Arte e Turismo.
Gutlich (excelente pintor holandes radicado em São José), disse-me em relação à admiração de Mauro por Justino: “Ele achava que havia descoberto um Portinari no mato…” Exatamente aí , excluindo a ciumeira do mestre Gutlich, reside o ângulo fascinante dessa personalidade excepcional, que não media distância nem achava obstáculos quando estava diante de “sua verdade”, que ele projetava como verdade global. Para ele, “Justino era um mestre dos azuis e dos vermelhos”, e antes das primeiras exposições no Vale, o orientava nos detalhes mínimos em que achava melhor as nuanças e posições dos personagens nos momentos mais felizes das telas do pintor.Fico pensando por isso com muita seriedade naquela hipótese da realização de Mauro, como pintor, através dessa pressão salutar sobre os artistas. Desnecessário para ele, porém, seria qualquer aspereza de Academias – sua academia, parodiando Humberto, em frase famosa da antiga casa de Cataguases, “era a do Quarto da Sala”, onde uma vez instalado, logo se diplomava no assunto desejado. Entretanto, apesar de sua formação com pendores para a matemática, as incursões pelos caminhos do comércio, não foram felizes, pois acima de tudo pairava uma arte de viver genuína, desinteressada, e avessa à economia, e à disciplina. A prova disso, foi a tentativa de montagem de sua galeria em São José dos Campos – viu-se a morte quase no nascedouro, em detrimento de seu diletantismo, puro, dosado em fino humor, feito para uma platéia seleta. A programação lógica do comércio não coordenava com o gênio criativo de pitoresca especulação, quase pueril – predicado de alma de artista.
Quiz viver assim, na arte, mas sem assumir compromissos, possuindo a sua escola, que por ser particular, era o seu mundo genuino, povoado ali pelas Carolinas, pelas Beneditas, pelos Zé Demétrios, e as figureiras do Morro de Taubaté, que lhe embalaram os sonhos ultimos.

(in “O Jacareisense” – 08.01.978)
Fabiano Mauro Ribeiro

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    2 pensamentos sobre “Sobre João Duarte Mauro

    1. Joao Bosco (via Facebook)
      Obrigado Ludmila Saharov por tazer a Luz João Mauro e Sergio o qual ouvi e convivei por bom tempo em Taubate na feira do pilar e na Berganha

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