O Pássaro da Escuridão de Eugênia Sereno


Caros amigos!
Reproduzo abaixo um trecho da misteriosa escritora de nosso Vale do Paraíba, Eugênia Sereno, autora do extraordinário romance “O Pássaro da escuridão” publicado pela Editora José Olympio e há muito esgotado. Saboreiem!(Ludmila)

Pirilampos
(Vagalumelegia)

” Pirilampos meus, brilhai! Brilhai, se acaso ouvirdes, emergentes da minha presença porvindouramente profunda, um vaporoso pânico, ferindo esferas, sob os plenilúnios apagados:
Ó luminosos, ó pequeninos, ó doação medrosa! Estou aqui, onde o corpo ficou noite e ficou ôco tudo o que foi bom. Me trouxeram, me deixaram, pois, silente, veio a barca. Esta é a margem que foge e me leva a voz ao lívido arfar da onda ínvia, livre, irredutível, a absorver searas foiçadas,seareiros quedos, retos de rastos, palmeiras ermas, cendradas messes.
Vagalumes, sou eu, fazei por perceber!
A face cansada do pensamento reclinou no roçagante regaço da sombra!
Gelando em mim está agora o coração, que se encheu de sêde e de verdades! meus cabelos se esqueceram de medrar, já não me vê o Sol que acorda o pássaro plumifulviomaviosimacio!
Só o pó me pesquisa e me explica, os sinos que amei não me atingem, aí, tantos passos passeiam meus olhos e tudo o que ficou sem motivo e se calou…
Brilhai! Brilhai! Empós dos portais imperativos, que eu não seja só no jardim opressivo, onde se hospedam meus desbaratados pesares e minha ausência contida, inscrita em concha hermética, analgésica.
Brilhai! pernoitai à flôr do meu sono estrelado e da noite perfeita! Vinde em busca de minhas mansas mãos de sombra, desprendidas, despojadas, recrescendo além do tempo e em gestos de goivos!
Durmo sob o passadouro da ilusão, no jardim augusto, onde estou sem meu corpo, onde estou sem minha vida!
Será que sou?
Será que estou?
Brilhai! O nunca-mais seja em mim, pois deixei ao menos de prosseguir e ouvir coração. Ele nem sabe que está calado e lhe arrefeceram sêdes e náuseas cãndidas, que arderam em minha bôca, enquanto houve luz no meu olhar e caiu em minha alma a fria chuva fevereira.
Brilhai! Brilhai, ó pequeninos! O olvido obumbra o jardim-glácido, onde se alojam olhos possuídos, encerrados! Como fogos-fátuos infestam esse império!
Como eu desci, desapareci para nunca mais em secreto cofre aberto e depois fechado!
Como eu não moro mais entre as coisas! Brilhai! brilhai aqui no reino-da-ex-realidade pois, ó, estou nêle, sim, estou até demais, fiquei tão chã e tão terrestre, mas, gastei demais meus macerados pensamentos ( Pois não pude ser de outra maneira! Minhas vãs alvuras de sentimentos, minha voz sequiosa de outra voz, e no fim de contas, é, hora de continua apenas ficando, é o instante de não ser carne e não saber a dor, de anoitecer e não ver as luzes, não ter lágrima e identificação e, sim de permanecer insinuada, confinada em funda bruma reclusa, que não me guarda as formas, onde chega perfeitamente tarde a carência de amor, mas é crisol de meu segrêdo: Fui a pequena amante dum pirilampo, um dulce luzeluze, para ser depois êste cheiro de poeira de rosas sêcas, esta mudez veemente maior não pode haver nas enseadas do meu sono!
por tão pequeninos, por tão meus, têm o poder de me fazer amar os imensos reinos do breu negro! E fazem-me crer que, se possível lhes fôsem chorar a prevista tristeza, chorariam um a um em meu louvor: Gotas lúcidas, gotas pulcras, meigos indumentos de amado lume, acendendo liricamente a minha calma criptotriste, sobrevoando os meus vestígios, visitando o meu imoto êxtase de enamorada extinta, baixando brandamente os brilhos preferidos, em muda e miúda angústia de elegia ingênua, pungindo o frio e os alíseos que hão de vir, para que minha imagem algida não sofra os sopros ignotos onde emudecem primaveras e fenecem campinas de sonho!
Na vida por onde passei sozinha como na altura de uma nuvem, onde eu quis ser nuvem à flor do universo, soam cansados os monótonos relógios repetidores das repetidas repetições dos templos do tédio, derivam nas almas as multidões dos rios das águas das lágrimas e não as ouço. Sequer sei das aflições e obsessões que me feriram, não sei se ainda existe a morte no jardim e nas auroras brunidas;Não sei o que ganhei, o que perdi; Fiquei exígua entre as ausências acumuladas e no entanto maior que a vaidade, que a viagem esquiva dos ventos e a fuga adunca do tempo: O efêmero perene!
Ó, Azuis silêncios esvoaçantes de vaga-lumelegias! Baixando e brilhando, vinde, vinde a mim! Ainda me duram tanto os meus indícios cá embaixo, onde deitei êste fim, que é, fatalmente, ascensão de luz me repetindo, me devolvendo aos acasos, sulcando fossos de sombra e greda e então solitude permutando!
Sou segredo pulveomudo sob a flor do goiveiro!
Sobre a flor do goiveiro eu sou a flor solta, féerica, ilocável.
Sou revérbera rosa irreal e sem aurora, que o ceifeiro não ceifa.
Brilhai, foguinhos gris, coisinhas mínimas , humilíssimas, diletas, lucíferas, tocantes, fugentes, reticentes, multipresentes, que eu tive na palma da minha mão! Estrelas que elegi, fulgorzinhos gláucicos, agônicos, que acendi em meus dedos , até à vertigem definitiva!
Brilhai, tocai de leve a pétala secreta do meu sono e os ares da minha paz! Rogaçai o que de mim ficou e o pó que é meu, esse pó fui eu.
Já me é tarde para ser amanhã, para sentir a noite pousando em meu riso e ouvir meu silêncio naquele fogo-fátuo em fuga sem rumo…
Não é hora mais de ter pressa e fatigar-me, de lamentar o coração e suas dores,de perder meu ser secreto em largas águas sem margem. Se só sou sombra mansa, embebedada de sono imenso, prêsa daquele frio, daquela certeza, daquela solução tão última, daquelas sutis sementes idênticas de esquecimento!
Brilhai, vagalumes meus! O dia cansa, cansam suas luzes escurecíveis, mas no jardim álgido, é vã a solidão que avança sobre o domicílio da ausência.
Que sono! Como durmo! Como esfumo!
Como sumo em negridão de breu! Brilhai e não me desperteis jamais, pois, dormi demais e estou a delir sem dor!
É doce em mim o olvido que me exime de emotividades! É tarde para doer a dor que feriu minha única vida!
Eu já não quero doer, só quero ser raiz fértil de tristeza, ser sigilo e fim sob a túnica de poeira sêca que me veste e que não vejo! E daí fiquei tão fria!
fiquei esquiva, oculta e transcendente!
Seja como fôr, eu restei, espalhei-me sob o país do tempo, sentindo um silêncio ao lado do meu , entre tantos inquilinos incólumes da pulvitude, conciliados, recolhidos em estreituras repartidas e juntadas, no domicílio que me limitae me arremessa e ressuma a rosa que corre em riscas remanescente…
Se ainda agora,neste instante, tristezas azuis de pirilampos ausentes caminham na minha insônia, fosforescendo azulmente nas azuladas rotas irreais do meu espírito, nos gestos fiéis da minha memória e a suavidade azulzíssima que me invade, quando assim os vejo, aos vagalumes,pois, existo ao longe, não sei s será minha ou se será deles . Ou não sabem eles que imprimem paz no que escrevo e me convencem que valeu-me vir, passar e por fim delir em sibilino exílio.” (do livro O Pássaro da escuridão de Eugênia Sereno)

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