Agosto mês de desgosto? Cruz em credo! Xô azar!

Num país surrealista como o nosso, povoado por anões de orçamentos, gigantes dos mensalões, sanguessugas (que não os legendários vampiros) velhinhas de Taubaté, piratas do Tietê e pirados e alienados das mais diversas tribos…ser supersticioso nada mais é do que estar em sintonia com esses tempos! Nele convivem harmoniosamente troianos e baianos, anjos da guarda, xamãs, ciganas, pretos velhos, orixás, babalaôs, exorcistas, mães de santo. Cada tradição exige rituais próprios que vão desde o espargir de água benta, até a manipulação de arruda, incensos, patuás, amuletos, elementos da natureza: passando por oferendas, mantras, rezas, ladainhas; promovendo mandingas, correntes positivas, descarregos e toda a sorte de simpatias para nos livrar, a todos, da má sorte, do mal olhado, de companhias astrais indesejáveis e outros perigos que nos rondam e espreitam pela vida afora. E lá vamos nós bater três vezes na madeira, desvirar sapatos, evitar gatos pretos, cruzar os dedos, recitar palavras mágicas, acender velas, evocar a proteção de santos, buscar trevos de quatro folhas, banhar-nos com sal grosso…tudo para driblar a má sorte, o olho gordo, o azar! A fé remove montanhas…já bem diziam os antigos…E, como “ jo no creo em las brujas, pero que las hay…las hay, vamos, por via das dúvidas, plantando espadas de São Jorge em vasos e jardins, fazendo discretos arranjos com o poderoso comigo ninguém pode, arruda, dinheirinho em penca e afins.Existe nesse universo de supersticiosos, várias classificações. Há, por exemplo, os de vanguarda. Supersticiosos de vanguarda. Eles desprezam os lugares comuns para alimentar comportamentos sui generis, e, o principal: recusam-se terminantemente ao rótulo, indignando-se:”Supersticioso…Eu?” Mas não convidam jamais treze amigos para uma reunião, em hipótese alguma, ao se deitarem deixam as roupas pelo avesso, vão pular as sete ondinhas vestidos de branco no Ano Novo…guardam nota de um dólar na carteira, bolsa no chão? Jamais! E agem dessa maneira apenas por tradição! Há os supersticiosos negativistas, que vaticinam os maiores infortúnios, por exemplo: Se o noivo ver sua futura mulher vestida de noiva antes de subir ao altar…é casamento desfeito! Espelho quebrado? Nossa! Preparem-se para sete anos de azar! Gato preto em estrada? A desgraça está à caminho…Cachorro uivou? Coruja pousou no telhado? Presságio de infortúnio, na certa! E por aí vai! Mas, fazendo um contra-ponto a esse tipo, existe o supersticioso otimista: Sai sempre pela mesma porta que entrou, coloca camiseta vermelha no bebê para evitar mal olhado, leva o carro para Aparecida para benzer, jamais dobra um guardanapo ao final da refeição em casa de amigos…para que não se corte a amizade…Mas, no fundo, no fundo, mais charmosos mesmo são os supersticiosos criativos: Roberto Carlos e Simone jamais se apresentam em espetáculos em roupas que não sejam brancas. Juan Miro só terminava suas obras em dias que davam números ímpares. Pablo Picasso dançava nu para atrair maior inspiração…Por via das dúvidas, já que agosto tem essa tradição nefasta, vamos prevenir-nos contra todo e qualquer azar. Para cada gato preto que atravessar nosso caminho, três viradas sobre os calcanhares são infalíveis. Espelho quebrado? Enterre um caquinho num vaso e plante nele alguma plantinha bem viçosa! Cachorro uivou? Coruja aboletou-se em seu telhado? Nada que uma vela branca, acesa fora de casa e oferecida aos mortos não resolva! Ainda bem que para cada crendice popular…o próprio povo cria seus antídotos! Mas, a maior de todas as crendices é a gente recusar-se a crer em bobagens. Ignorar superstições e viver absolutamente de bem com a vida, espanta qualquer urubu que queira pousar em nossa sorte! Afinal…gente nasceu para brilhar e ser feliz…porisso…Xô azar! (Ludmila Saharovsky para o jornal Valeparaibano)

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