Testamento para El Greco

Os amigos me estranham. O que houve? Você anda sumida ultimamente…
Sumi mesmo? Não sei…o que ocorre é que tenho sentido uma satisfação ímpar em ficar comigo mesma, lendo, escrevendo, pensando sobre a vida. Às vezes escolho companhias mais que perfeitas, como agora, de Nikos Kazatzakis, e sinto-me plenamente feliz, preenchida por seus textos líricos, fortes, verdadeiros. Ele consegue levar-me por caminhos de emoção, dos quais usufruo em doses homeopáticas, para que perdurem por muito tempo. Precisa-se estar só e muito leve para penetrar nos pensamentos deste grego que escreve:
“Guardo minhas ferramentas: visão, olfato, tato, paladar, audição, intelecto. A noite chegou, o trabalho do dia está feito….Lanço um último olhar ao meu redor. A quem devo dizer adeus? Às montanhas, ao mar, à parreira carregada de uvas de minha varanda? À virtude, ao pecado? À água que refresca? Futilidades…futilidades…Todos baixarão comigo ao túmulo. A quem devo confiar minhas alegrias e tristezas, os desejos quixotescos e místicos de minha juventude? A quem relatar quantas vezes escorreguei e caí, quando, todo agachado, me arrastava para a ascensão áspera e incômoda de Deus… Tranqüilamente, sem compaixão, aperto um torrão de terra cretense na palma de minha mão. Tenho esta terra sempre guardada comigo, através de todas as minhas andanças, apertando-a nas minhas mãos em momentos de grande angústia e recebendo força, como se apertasse a mão de um amigo querido. Este solo eu fui eternamente. Este solo serei eternamente…”
Este texto me emociona. Não consigo ir adiante. Paro e o releio até decorá-lo, até citá-lo de memória. Paro e o absorvo em mim, para traçar paralelos com o que vivenciei também, por isso ele me toca tão profundamente.
Sòmente as pessoas que precisaram deixar para trás suas origens é que podem compreender esse apego à terra. É como se ela fosse parte integrante da identidade mais secreta de cada ser. Lembro-me de que o avô me pedia, repetidamente, para que eu não esquecesse de colocar em seu ataúde, quando chegasse a hora, um pequeno vidro com a terra de São Petersburgo, sua cidade natal. Porque ele a trouxera de tão longe? O que um punhado de areia poderia significar? Custei a entender. Aquela terra eram seus ancestrais, amigos, infância, mocidade, sonhos, vivências, fé, cultura. Era o germe de toda sua vida – a Rússia. Sim, aquele chão primeiro, que recebera seu umbigo, o seguira por toda parte: Iugoslávia, Sérvia, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha, Áustria e finalmente Brasil. Foi com o avô que aprendi o quanto o conceito de pátria é importante. E, à distância ele se manifesta com muito mais conteúdo e força. Adquire montanhas, vales, cidades, rios, famílias, um idioma. Passa a ter uma vibração, memória, alma, devoção, crença, valores. Faz parte da história pessoal de cada um, suas paixões, idéias, ideais…
Por isso, brota em mim uma tristeza incomensurável quando abro os jornais diariamente e leio sobre o que alguns brasileiros fazem ao Brasil. Mergulhar nesta avalanche de roubos, escândalos, irresponsabilidades, desgoverno me faz pensar: O que significa Pátria para estes homens? Onde, em cada um deles, o Brasil se esconde? (Ludmila Saharovsky crônica publicada no jornal Valeparaibano)

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    4 pensamentos sobre “Testamento para El Greco

    1. Eu li esse livro, autobiográfico, de Kazatzakis e ele realmente é uma aula de filosofia de vida. Agora, a ligação que você fez com a obra e as suas considerações a respeito de nacionalismo, amor e respeito à pátria são muito poéticas e oportunas. Quanto mais eu leio suas crônicas, mais eu fico gostando desse blog. Parabéns! Luis Antônio Alvarenga

    2. Tenho procurado, sem sucesso, esse livro, para poder terminar de escrever um conto baseado em El Greco. Infelizmente, as grandes livrarias não o têm. E as pequenas só querem saber dos best-sellers.

      A escritora saberia me dizer onde posso encontrá-lo?

      Gostei muito de seu espaço. Fui colunista de um jornal do vale também.

      Um abraço

    3. Seja muito bem vindo, Otto! Eu amo esse autor. Li todos os seus livros, mas, o Testamento para El Greco é , de longe, o meu preferido. Procurei o título no site Sebos on line e tem um livro disponível, por R$150,00. O preço está salgado, mas vale a pena! Grande abraço e boa sorte em seu garimpo!

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