Pertencimento 2

Sim, era Andina aquela Cordilheira, à qual chegamos pelo Chile. Este país de natureza ímpar que, segundo a descrição de Neruda, foi feito a partir dos quatro elementos que sobraram após o Criador ter concluído sua obra: terra, fogo, água e ar. Ele os recolheu, manuseou-os amorosamente entre as palmas das mãos, formando um longo fio que colou arrematando a face oeste do continente, gerando uma das mais belas geografias de nossa América Latina
No Chile tudo é exuberante. Os lagos, o pacífico oceano azul. O verde das planícies férteis e estreitas. A distante ilha dos pascoenses, com seus imóveis e gigantescos moais… Mas a cordilheira….Ah! a cordilheira é lilás. Ao menos no inverno. E é tão vasta, tão imponente, tão silenciosamente imersa em mistérios que se perpetuam no tempo. E a noite dela é insone. Insone, pois centenas de olhos faiscavam em seu corpo de rocha viva e seguiam nossas pegadas de discretos visitantes. A cada novo passo, a luz de archotes iluminava um pouco mais as trevas e desvendava um outro trecho do caminho pouco trilhado pelo qual seguíamos. Um percurso que nos levava para dentro, para o interior desconhecido de suas entranhas, até que chegamos a uma fenda que, transposta, abriu-se num salão de grandes proporções. Ele fora escavado durante séculos, pela água de um rio subterrâneo agora inexistente. O vento, pelo estreito túnel que percorríamos, trazia o ar que alimentava a nós e às chamas. A natureza caprichara naquela inusitada decoração. Cortinas de filamentos de rocha rebrilhavam como se fossem de pesado tafetá. Três pedras sobrepostas formavam um altar perfeito. Pelas paredes, a dança das sombras desenhava um estranho mural de seres ancestrais que davam a impressão de nos observarem amorosamente. Ali, rostos severos de anciãos com longas e ralas barbas. Na face oposta, mulheres ajoelhadas num círculo perfeito, as mãos elevadas em prece, os cabelos presos em tranças. Asas de imaginários pássaros cruzavam o teto. Num piscar de olhos, tudo sumia, para ressurgir novamente, em outras inesperadas formas. A voz grave do Mestre rompeu o silêncio, dando-nos as boas vindas e conduzindo o ritual. Hoje, tantos anos passados, quando me recordo dessa viagem, parece que vivi um sonho. Um sonho que teve testemunhas vivas, que prosseguem ao meu lado e me auxiliam a entender um pouco mais a vida e seus mistérios. Não. Não consegui permanecer indefinidamente na Cordilheira Andina, como era meu desejo. Ela é que gravou-se para sempre em mim.
“…Subitamente contemplo surpreso longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a esta senda, com os olhos adormecidos na lembrança, cantam canções para si mesmos e recordam. E algo me diz que mudaram para se deterem, que falaram para se calarem, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fecharem e recordar….”
(fragmento de “A Luta pela Lembrança” do livro “Para nascer nasci” de Pablo Neruda)

(Ludmila Saharovsky)

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    4 pensamentos sobre “Pertencimento 2

    1. Olá, Ludmila,

      Seus textos trazem a curiosidade do "olhar do outro", do que está fora e quer entrar…de vez em quando também sinto isso. Estamos precisando muito de olhar o mundo com os olhos dos outros… deu vontade também de ir ao Chile! Buscar Neruda e seus doces sonetos (refiro-me a "Cem sonetos de amor")…Enjoy your trip! abç

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