Impressões Digitais – Dailor Varela


Dailor Varela, poeta nascido em Anápolis, GO. em 10 de junho, se considera nordestino por destino e criação. Hoje ele vive em Monteiro Lobato, onde curte seus livros, seus discos, seus filhos e uns poucos amigos, dentre os quais eu tenho o privilégio de me situar. Incrustado na Mantiqueira, ele escreve longas cartas em sua velha Olivetti (ou seria Remington, poeta?)e poemas cada vez mais concentrados e saborosos. Edita também, junto com Maíra, o jornal “O Grito”.Autor de 13 livros, é um dos fundadores do Movimento Nacional do Poema Processo. Tem poemas visuais publicados e expostos no exterior. Faz parte da antologia “Os cem melhores poetas brasileiros do século” de José Nêumane Pinto. (Geração Editorial) Pai de Caio e Maíra, que ele diz serem suas obras mais que perfeitas, Dailor está de bem com a vida. Ave, poeta! Te amo, Dailor! Um beijo pelo aniversário!(Ludmila Saharovsky)

Com quantos versos se faz um bom poema?
“Amor/Humor” é um poema de Oswald de Andrade. Poesia é um exercício de lapidar palavras. Talvez o grande poema esteja mesmo no silêncio.
Antes arte do que tarde?
A arte é o encanto do mundo. É preciso fazê-la antes que venham tardes cinzas e banais.
Minha Pátria é minha língua?
Eu só existo em português. Todo o resto é uma complicada torre de Babel que jamais aprendi e não faço o mínimo esforço.
O que alimenta a alma?
O pão das canções, dos poemas e as cartas dos amigos.
Qual o verbo mais possante?
Ainda é o verbo amar, apesar da sua conjugação ser extremamente complicada, dolorosa e imprevisível.
E a palavra mais bonita?
Lua e suas variantes: Lual, luar.
Qual é a sua vanguarda?
Viver o mais longe possível das banalidades cotidianas “caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”
Que livro fez a sua cabeça?
“A terceira feira” de João Cabral de Melo Neto.
O que devora o homem?
O câncer da ambição.
Futuro do indicativo, passado mais que perfeito ou o eterno presente?
“Viver é desenhar sem borracha”(Millôr Fernandes).Eu vivo o presente alimentando meus passarinhos soltos no meu quintal. Não acredito no eterno.
O que não se acha em livros?
O sabor de um suco de mangaba, fruta nordestina.
A quem daria um dicionário de presente?
A ninguém. Pra mim escrever é algo muito além dos dicionários, seja escrita ruim ou boa. Nunca tive um em casa.
Boas idéias se embrulham com…
Se guardam nos secretíssimos labirintos da alma. Idem para idéias nefastas.
Qual a grande lição de casa?
Acordar e abrir todas as portas e janelas de casa.
Onde mora a beleza?
Na nudez feminina. Uma mulher nua é a mais perfeita criação do universo.
E a inspiração?
Um raio luminoso, cósmico que bate no artista e o transforma num veículo de divindade. A voz de Milton, por exemplo, é Deus.
O que é original?
O suicídio das estrelas no universo. Acontece a cada bilhões de anos e alguns foram registrados por astrônomos.
Quando a vida é um livro aberto?
Quando converso com meus filhos.
Ser ou não ser é a questão?
Ser a sua própria essência é difícil no meio social em que vivemos. Eu sou, mas me cobram muito, me aborrecem e eu apenas estou sendo eu mesmo. Eis a questão.
O que está escrito na linha do horizonte? Se este horizonte fica em Natal, minha terra, olhando o mar, você pode ler uma mensagem sobre nossa insignificância no planeta Terra.
Quando o abstrato não vira concreto?
Nada é concreto. A vida é abstração pura. Nós, seres humanos é que temos a idiota idéia de querer concreto onde há abstrato.
Como administrar a insustentável leveza de ser?
Para começo de conversa, Lu, tenho pânico da palavra administrar. A leveza do ser é indomável.
Criar exige inspiração ou transpiração?
A inspiração vem junto com uma transpiração sufocante. Muitas vezes tenho medo do que escrevo.
Seu livro de cabeceira é…
Nunca pergunte isso a um geminiano. A cabeceira de um geminiano é imprevisível, entre livros, CDs, etc. Mas, Mayakovsky, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Rosa Kapila estão sempre por lá.
Seu maior defeito e a maior virtude.
Ser excessivamente passional e demasiadamente poeta. Virtude? Sou um bicho calmo, caseiro, não mordo.
Defina amor.
Peço emprestado um verso do Aldir Blanc “O amor é a ausência de engarrafamento”
Defina Saudade.
Não lido com este sentimento.
Quem canta seus males espanta?
Todo dia eu amanheço cantando dentro de mim uma canção. Me faz bem.
Com quem passaria pelo túnel do tempo?
Com a poeta Dyrce Araújo
“Anarquista graças a Deus?”
Não dá, querida Lu, para não ser anarquista. O poder anda cada vez mais podre. “Podres poderes”, como diz o Caetano.
Quem merece estar em foco?
Todos os poetas, artistas. Eles iluminam as trevas do cotidiano.
Defina-se numa frase: Eu sou...
um desastrado poeta, trapezista do cotidiano, da vida prática.

O Taumaturgo da Mantiqueira
(texto de José Nêumanne)
Dailor Varela nasceu em Anápolis (GO), criou-se na Swinging London do Nordeste, a Natal (RN) de seus pais, Raul e Floripes, passou por São Paulo e São José dos Campos e vive em Monteiro Lobato. O lugar é adequado, não por se referir ao ilustre colega, mas, sim, porque ali pode exercer em sua plenitude, respirando o ar rarefeito da serra e bebendo água da bica, sua real vocação: o eremita da Mantiqueira cultiva a solidão, como raros. Ao contemplar o verde dos bosques ao redor, não se perde em divagações, mas segue o exemplo de São Jerônimo fazendo milagres de palavras: De seus dedos longos brotam regatos de versos e crescem palmeiras de poemas. O taumaturgo Santo Daí obra, no Vale do Paraíba, maravilhas com a novelha língua de Camões, Machado e Eça, assim como já os operou com poemas visuais de vanguarda no tempo do poema/processo. O roqueiro Dailove imprime ritmos sutis aos percursos verbais, da mesma forma como, nos sweet sixties, desconstruiu logomarcas para torná-las signos de uma nova linguagem, o código pelo qual se comunicavam os Beatles, os Rolling Stones e os Quatro Loucos de João Pessoa, ao som da guitarra de Zé Ramalho. Debaixo dos caracóis de seus cabelos quando negros foram cultivados sonhos e senhas. O poeta popular Pinto Varela canta o amor que praticou e o que nem experimentou; as batalhas a que compareceu e aquelas das quais se absteve; causos, calços e percalços da vida breve e mistérios dolorosos e gozosos da arte longa. O pai de Maíra salpica o sêmen de seu talento e polvilha o pólen de seu conhecimento nas alturas às quais chega sem descolar os pés do chão de Diadorim, Macunaíma, Bentinho, Câmara Cascudo e Nossa Senhora Aparecida. Apois… (José Nêumanne)

Adorei Lu!
Bom ter coisas pra ler que preenchem, que cuidam do coração da gente.bj
Rosali Maynardes

Ludmila,
Seu blog está lindo. A sua cara e a cara da sua alma. Tudo o que sempre me passou: amor, amizade, inteligência, leveza, beleza.
Agora também sou sua seguidora.
Beijos
Fatima Capucci

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    4 pensamentos sobre “Impressões Digitais – Dailor Varela

    1. Apois…Nêumanne esqueceu-se de citar Caio Araújo Varela, filho caçula do poeta e irmão de Máh Luporini. Maíra dedica ao Dailor, um poema em seu primeiro livro: "Ausências"
      Pai
      Teu amor é meu viver diário
      Cotidiano de versos.

    2. Querida Lu,
      Sempre você e sua imensa ternura para tanta emoção neste coração safenado deste velho poeta. Ando, faz tempo, muito cada vez mais cético.Mas toda esta sua ternura me faz crer que ainda existe " um tempo de delicadeza" no coração de uma amiga como você. Que bom que existissem clones de Lu espalhando ternura e delicadeza por este mundo, vasto mundo como diz o poeta Drummond. Beijos, dailoveyou

    3. Ô Dailor…o que seria de nós sem nossos amigos, e você, meu querido, há décadas que abre
      espaços em suas tantas colunas e o coração para esta que ora lhe escreve. Amizade se come com o coração…e o meu, transborda com a sua.
      Ludmila

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