Diários Imaginários 5

Abandono-me nesse velho mundo, tentando entender as emoções. Perceber-me no aqui/ agora é como um nascimento. É um sentir pela primeira vez. Sentir o cheiro único das florestas que rodeiam o mar, dos liquens, da água cristalina de tantos lagos salpicando a paisagem. Sentir o manso alvoroço dos insetos, o perfume de cada flor intacta na manhã que se prolonga dia afora e nunca encontra a noite. Sentir a voz muda das pedras, criadoras dessas praias, elementos primitivos trazidos por geleiras e que permanecem materializando diques, templos e muralhas, protegendo espíritos, permitindo travessias. Habituo-me, pouco a pouco, a sentir antes de ver. A perceber sem racionalizar, numa nova e inusitada relação com meu cérebro tão viciado em lógica. E é uma prazerosa descoberta. Busco na brisa a frescura com a qual me lavo do passado, para somente então mergulhar nas águas frias do riacho e submeter-me ao novo batismo: Em nome do Pai e da Mãe Ancestrais. E assim, com o reflexo da água colado à pele, deslizo pelo labirinto de pedras, um passo a cada vez. Esse labirinto erguido por antigas tribos nômades finlandezas para “aprisionar” os espíritos de seus mortos. Arquitetura que permanece intocável até hoje, séculos e séculos depois, nessa ilha remota, incrustada no Mar Branco. Um circulo de pedras e plantas em espiral que se abre em outro… em outro e mais outro, e se fecha em si próprio feito concha. Começo minha lenta caminhada, por sua trilha estreita e me pergunto: Quantas mulheres, de dentro de mim, me espreitam? Que gênero de equilíbrio buscam? Revivem comigo antigos rituais? Guiam-me? Protegem-me? Preparam-me? Aguardam-me? Dou-me conta de que não emiti ainda nenhum grito primal que me fará existir desse outro lado. Procuro-o dentro das entranhas, a cada passo, temendo estilhaçar com qualquer som o mágico silencio que me cerca. Meu grito não poderá ser outra vez, uma voz exterior a mim, confirmando pelo susto, que enfim inspirei… logo existo! Não. Isso seria plasmar-me outra vez em forma antiga. Meu novo grito tem que ser interno. De amor, alegria, comunhão, inclusão. E isso! De inclusão e não de exclusão, descubro. Descubro para o que serve o labirinto. E, frente a mim, abre-se , como por milagre, uma nova terra prometida. Sinto a caricia do plano que me envolve e o palpitar de outra energia . Milhares de respirações intuidas à minha volta. Milhares de faces pressentidas me saúdam sem palavras que dissolvem. Sem palavras que nomeiam, hipnotizam, criam ilusões, visões, inúteis sinapses e quimeras. Sinto milhares de toques suaves em minha pele, sob a luz desta manhã que me contem. O horizonte já não existe mais e eu mergulho na totalidade do azul celeste. Tudo o que era demasiado me abandonou. Todo o supérfluo, o material, o viscoso me deixaram. Apenas a energia em mim palpita. Uma energia imaculada dentro do silêncio. Caminho com a alma leve, assim…em festa! Passo a passo vou voltando a mim, à minha essência. Viver, hoje, me basta! Não questionar a existência, mas sê-la: Dançar, cantar, jorrar, fluir, flutuar com a vida. Uma gaivota me atravessa em pleno vôo. E só então eu grito. Eu grito!
(Ludmila Saharovsky no Arquipélago de Solovki-Rússia)

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    3 pensamentos sobre “Diários Imaginários 5

    1. Que viagem reveladora…eu diria até que foi, de uma certa forma, iniciática, verdade? Esses diários serão publicados em seu livro? Parabéns pelo texto excelente!

    2. Olá, meu amigo! Realmente eu voltei dessa viagem muito mexida! Muito tempo longe de casa (5 meses)num lugar em que a única maneira de se locomover era a pé por longos quilômetros, muita solidão, introspecção, memórias…muita dor pessoal e alheia maturadas e também muitas descobertas. Ainda não resolvi se publico os diários no livro…Vamos ver o que diz minha diagramadora…Obrigada pelas considerações. Volte sempre!

    3. Nessas viagens você sempre nos leva a acompanhá-la. Embora num outro tempo, em outra época, nos proporciona o prazer de "viajar" em sua companhia. Parabéns.

      Livingstone

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