Tempo Submerso


Tempo Submerso é meu primeiro livro de fôlego. Eu o escrevi na Rússia, no arquipélago de Solovietskie Ostrova, embaixo do Círculo Polar Ártico, onde fiquei 4 meses. É a história do primeiro Gulag criado em 1922, para onde foram mandados meus bisavós paternos, após a Revolução Bolchevique, e onde todos foram assassinados por ordem de Stalin. Não é um livro autobiográfico, mas tem muito de nossa história familiar, encaixada nesse período tenebroso da Cortina de Ferro. Pretendo publicá-lo em breve. Ele contem fotos, documentos, entrevistas inéditas e muita história.

cap VI
As crianças dos Gulags


O tratamento para as mulheres presas no Gulag de Solovky era muito mais rígido do que para os homens. Pelo severo regimento do antigo monastério, cuja tradição permaneceu inalterada, mesmo com os templos transformados em prisões, a entrada das prisioneiras nas construções principais e seus arredores era terminantemente proibida. Em vista disso, elas eram encaminhadas para outras partes da ilha onde ficavam em campos isolados por três cercas de arame farpado. Seu transporte para as frentes de trabalho nas lavanderias, olarias e regiões de extração e manuseio da turfa era feita em comboios fortemente vigiados.
A rotina nos campos femininos era muito extenuante. Mulheres de várias classes sociais, com educação, instrução, usos e costumes absolutamente diversos eram agrupadas aleatoriamente, encontrando sérias dificuldades em se adaptarem à vida em barracos coletivos.
Prostitutas, vendedoras de cocaína, contrabandistas, assassinas, ladras eram colocadas junto com aristocratas, professoras, cientistas, donas de casa, o que gerava um clima de permanente confusão e revolta.
A necessidade de criar-se algum alento, algum tênue espaço para sonhos nesse cenário de dor e sofrimento fazia com que romances entre os prisioneiros proliferassem e, “apesar do forte esquema de segurança imposto”, os contatos físicos aconteciam, e, em decorrência deles, também a gravidez.
Em pouco tempo, um dos grandes problemas do novo regime bolchevique passou a ser a quantidade de crianças que nasciam nesses campos. A grande maioria das mulheres que engravidavam era constituída por criminosas profissionais. As futuras mães, que no início eram poupadas dos trabalhos mais pesados, recebiam uma alimentação melhor, e também se beneficiavam de anistias que, muito raramente eram concedidas às mulheres com filhos pequenos. Mas, nem todas engravidavam nos campos. Muitas chegavam a eles grávidas, apartadas de seus maridos, condenados como “inimigos do povo”. Enviadas para trabalhar em diversas frentes, para as quais não podiam levar seus bebês, eram obrigadas a deixa-los aos cuidados de outras, mais velhas e afastadas dos trabalhos por doença. Essas babás improvisadas não possuíam qualquer responsabilidade nem paciência com os pequenos, aproveitando-se da situação para furtar e comer a fração de alimentos que lhes era destinada, abandonando-os em qualquer canto, sujos, famintos, doentes. Em vista disso foi necessário criar nos Gulags, junto aos alojamentos femininos, também berçários, que, no entanto, revelaram-se de pouca serventia, pois os problemas de doença e mortalidade prosseguiram. As mães que amamentavam eram liberadas de quatro em quatro horas, pelo período de 15 minutos. Voltando ao trabalho eram acompanhadas pelo choro desesperado de suas crianças ainda esfomeadas, envoltas em trapos, sujas, cheias de feridas, piolhos e percevejos, que permaneciam abandonadas, sem um gesto de carinho, sem o conforto de um banho e sem sol. A falta total de assistência médica e mesmo de remédios básicos respondia pelos óbitos freqüentes. Aos poucos o choro dos pequenos era substituído por fracos balidos, até que a inanição também os aniquilava. As mães podiam permanecer com seus bebês até que esses completassem um ano e meio, quando eram enviados para os orfanatos na certeza de que nunca mais se encontrariam.


“Nos orfanatos a situação era desesperadora. Para lá eram encaminhadas crianças de todas as idades e todas as proveniências: filhos de presos políticos, dos Kulaks (22), crianças órfãs das diversas guerras, os bezprezornie (23) os filhos dos ciganos, presos por vadiagem, os enjeitados, os fugitivos. Deixados sem qualquer supervisão nem atividade, havia inúmeros casos de estupro dos maiores que sodomizavam os menores, espancamentos, fome, dor, desespero, desesperança….Minha mãe que trabalhou num desses orfanatos relatou-me que vários jovens desenvolveram comportamentos esquisofrênicos, como por exemplo, passar dias a fio batendo com a cabeça na parede, e não pararem nem com o sangue escorrendo por suas faces…Outras, desenvolviam uma espécie de ausência, permanecendo com o olhar perdido em algum ponto do infinito, sem comer, sem beber, sem dormir…até tombarem mortos para o lado… Essa dor, essa vergonha, nós carregaremos para sempre !”
(depoimento dado por uma moradora de Solovky que pediu para não ser identificada)

“Muitas mulheres eram estupradas pelos membros do partido comunista, após seus maridos serem enviados aos campos, condenados por conspirarem contra o governo. Muitos, inclusive, eram considerados culpados, unicamente por terem uma esposa bonita e desejada. As que engravidavam desses estupros eram mandadas para os Gulags femininos de Solovky. Inúmertas tentavam abortar em condições precaríssimas, introduzindo pedaços de ferro dentro do útero, sofrendo hemorragias e infecções que as levava à morte. As que sobreviviam eram castigadas por esse ato, com o isolamento na temida Ilha dos Coelhos (Zaitchiki). Nuas, famintas, acabavam morrendo sem qualquer assistência ou matando e comendo os filhos indesejados. Essas notícias chegavam até nós, moradores dessa ilha, relatadas pelas guardas, com as explicações de que “as inimigas do povo” não mereciam viver, pois não eram humanas, não tinham o menor instinto maternal”
(depoimento da mesma moradora)

(22) Kulak: apelido dado aos camponeses prósperos ( às vezes, ter uma vaca era considerado ser próspero) que também foram perseguidos pelo regime

(23) Bezprezornie: jovens de rua, pequenos delique, em sua maioria órfãos ou crianças que fugiram de suas casas por conta da fome e/ou da falta de cuidados dos pais.

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Olho Solovki e sua geografia entalhada pela dor e pelo medo. Olho suas estradas centenárias que serviram de passagem da vida para a morte.
Olho para o céu noturno, a constelação de Órion sempre presente, e me pergunto se as estrelas, como as nossas retinas, podem ser impregnadas pelo halo dos espectros, ou se apenas os refletem em meio à neblina…
Olho para a pequenina ilha dos Coelhos e imagino o que sentiram as dezenas de mulheres estupradas e grávidas que lá foram deixadas, completamente nuas no inverno, sem mantimentos, sem assistência, sem explicações… O que se passou em sua alma?
Forçadas pelas circunstâncias a comer seus filhos natimortos, num ritual macabro de fome e desespero equiparados às fêmeas de outras espécies, que devoram as placentas e os filhotes fracos, para preservá-los do sofrimento e de sua inadequação àquele mundo: Os sentidos confundidos pela loucura, pelo terror, apenas o instinto de sobrevivência se perpetuando….Quem pode imaginar o que experimentaram? Em que abismos internos mergulharam? Quem acudiu seus gritos de dor e desespero? Quem presenciou seu completo abandono? Sua regressão à irracionalidade? Sua morte lenta em completa degradação?
Caminho entre as pedras que recolheram também suas pegadas e me pergunto: Como, meu Deus, pedir-lhes perdão? Como consolá-las, abraçá-las, agasalhá-las, limpar o sangue de suas mãos e seus cabelos, confortá-las, tentar fazê-las compreender que um grave desvio de comportamento pode transformar o homem nesta besta virulenta, sádica e insensível ao sofrimento humano.
Entro na gélida capela de pedras onde elas se recolhiam para fugir às tempestades de neve e de vento. Onde elas deitavam-se umas sobre as outras, na tentativa de se aquecerem e, pela manhã, as que permaneciam por baixo amanheciam mortas, congeladas. Penso em seus corpos retirados e deixados sob a neve. Na primavera, com o degelo, eram carregadas para o mar. Mar Branco…Que ironia…..

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Não! Eu não conseguia dormir após ouvir estes relatos feitos pelos guias e fazer as anotações em meu diário improvisado. Caminhava então, lentamente até o cais e olhando para aquele horizonte feito de água que me rodeava, ficava imaginando ossos humanos trazidos até mim pela maré. Longos ossos carcomidos pela areia e água salobra invadiam meus pensamentos enquanto eu regressava ao quarto que alugara, na Rua Severnaya,16, com vista para o mar. Sentada defronte à escrivaninha, uma densa névoa me envolvia e eu mergulhava num torpor…numa espécie de túnel sem saída. Vagava pelo passado buscando explicações que não havia, que nunca haverá, e escrevia. Plasmava no papel as emoções que me invadiam em ondas inquietantes e me povoavam com espectros

Não só os homens tem um destino traçado. As nações também.

(Ludmila Saharovsky)

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    Um pensamento sobre “Tempo Submerso

    1. Você me concedeu um grande privilégio, em ser amiga de uma pessoa iluminada… é uma das melhores amigas que cruzaram minha história. Para os que não te conhecem, vou dizer que é amiga, generosa, alegre, caridosa, encantadora admirável, enfim poderia ficar dias e dias tecendo elogios, mas resumindo vou dizer que você é 'A AMIGA' que é um desses anjos que Deus colocou na terra para alegrar os caminhos dos que têm o privilégio de sua amizade…Bjs.

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