E ela surgiu – Afrodite

O oposto da Vênus de Willendorf, nossa rainha é o triunfo da imagem apolínea sobre os calombos e volumes da mãe terra. Aqui desapareceu tudo que é gordo, frouxo, sonolento. O olho ocidental está aberto e alerta ( o que aconteceu com o outro? Razão pela qual a sua imagem é geralmente mostrada de perfil ou de um modo em que a pupila que falta e sempre faltou não possa ficar em evidência. Um lembrete para a nossa dualidade, para a eterna contradição?). O olho ocidental forçou os objetos a entrarem em sua moldura congelada. Mas a liberação do olho tem seu preço. Tensa, parada e truncada, Nefertite é o ego ocidental num mostruário público. O fascínio radiante dessa persona sexual suprema nos chega de um palácio-prisão, o cérebro superdesenvolvido. A cultura ocidental, elevando-se para a luz solar apolínea, desfaz-se de um fardo (Dionísio) para cambalear sob o outro (Apolo).
O busto de Nefertite é artística e ritualisticamente completo, augusto, duro e estranho. A Rainha é um andróide, um ser fabricado. Olha a distância longínqua, vendo o que é melhor para o seu povo. Mas os olhos, com o traço felino de cajal, são frios. É a autoridade autodivinizada. Uma rainha meio masculina, uma vampira de vontade política. Sua força sedutora ao mesmo tempo atrai e avisa que mantenha distância. É a personalidade ocidental barricada por trás de sua dolorida e gélida linha de identidade apolínea.
A cabeça de Nefertite é tão volumosa que ameaça partir o pescoço como um talo. É inchada ao ponto da deformidade. Parece futurista, com o cérebro ampliado antevisto como o destino de nossa espécie. O alto da cabeça é cheio como um funil com auma chuva de energia hierárquica, que inunda o frágil vaso do crânio e empurra o rosto para baixo com violência como a proa de um navio. Como carga, Nefertite traz seu excesso de pensamento.É sobrecarregada pela vigília apolínea, um sol que jamais se põe. Traz o fardo do Estado (da sociedade, da identidade) sobre a cabeça. Se Vênus de Willendorf é só corpo, Nefertite é só cabeça. É o sol da consciência nascendo sobre um novo horizonte, a moldura da “vitória” do homem sobre a natureza. É bela mas assexuada. É como Atenas nascida da testa de Zeus, uma deusa blindada, de cabeça pesada. (Maria Tereza Campos)

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