Corpo viagem


“ O que importa não é o início nem o fim, mas a travessia.” ( Guimarães Rosa)

Passo a passo adentro o roteiro que me convida à travessia e nele permaneço atenta às minhas tantas emoções. Perceber-me neste aqui e agora é como se fosse um novo nascimento. Um respirar pela primeira vez. Tão bom sentir essa quietude, essa bem aventurança, esse esvaziar-se pleno e sem receios. Busco então na brisa a frescura com a qual me lavo do passado e, com a luz da lua colada à pele vou deslizando pelo caminho ancestral, um passo a cada vez. Sob meus pés descaços somente musgo e seixos. E eu os percebo: ora tapele aveludado, ora áspera textura suportando-me os passos. Percorro a senda com a vista e os sentidos desarmados. Quantos outros me espreitam, do meu de dentro? Que tipo de lembranças buscam? Sentem saudades? Me guiam? Me inspiram? Me preparam? Meu corpo, indiferente aos meus comandos, segue em paralelo. Não me apoio nos olhos para me guiar. Apenas a intuição, o vento e essa liberdade que vou usufruindo me norteiam…De repente um fundo inspirar corta ao meio o silêncio, e então, é como se eu ouvisse, atravessando frases, outras frases, e percebesse, atravessando rostos, outros rostos, mas tudo permeado de lentidão e imerso em densidade….Curvo-me sobre mim mesma e, num repente, todo meu passado a mim retorna: as pessoas, as florestas, as estepes, as muralhas, a neblina e, entre templos e lagoas, esse quem fui tambem caminha e tem um outro rosto: é muito jovem, de olhos excessivos, nos quais a ternura mescla-se com o medo. Viajando no interior desse outro ser, que sinto ser eu mesma, recomeço. Como se fosse um sonho. A memória toda aflorada…a alma ansiando pela redenção. E então, acende-se em mim, em nós, a exigência de estender braços, de acalentar corpos, de se entregar à emoções há tempos reprimidas. No horizonte surge uma paisagem recortada de instantes não vividos e uma tensão que se encorpora. Caminho, e meus passos me conduzem à esferas de luz e sombras. E o mar por perto abrindo-se em ondas vai revolvendo areia. E o mar, à minha volta, ressussita espectros. Por que voltei, para trilhar tantos caminhos do passado? Por que esse frio intenso e esse deslizar de dedos por um corpo frágil, vergado sob o peso da angústia? Estremeço frente à morte pressentida que me encontra, uma vez mais. Minha alma se tensiona, a espera de uma nova queda, e, súbito, o vazio…Meu antigo rosto desliza pelo tempo e lateja no silêncio, a espera que eu o reabsorva. As lembranças chegam juntas, inscritas a sangue na memória. Tantas mortes, tantas vidas, tanta historia, tanto ir e vir…e as existências, múltiplas, feito rochas plantadas no oceano, vão se conservando em água e sal. Fuga, frustrações, túmulos abertos, lágrimas retidas. Pó e cinzas. Musgo e seixos. Passo a passo abandono o centro, respiro fundo e vou seguindo em frente. Permaneço atenta às minhas tantas emoções. Meu corpo, indiferente aos meus comandos, segue em paralelo. Perceber-me no aqui agora é como se fosse um novo nascimento. Sob meus pés descalços apenas musgo e seixos. Percorro a senda com a vista e os sentidos desarmados. Quantos outros me espreitam do meu de dentro? Viajando no interior desse outro ser que sinto ser eu mesma, eu recomeço. Como se fosse um sonho. A alma ansiando por um milagre. Estremeço frente à morte pressentida que me enconta, e , súbito, o vazio…Pó e cinzas. Musgo e seixos. A senda me percorre e desarma meus sentidos…A alma anseia por milagres…Pó e cinzas…. mais uma volta e à minha frente, em desafio, o labirinto. E uma lua cheia imensa, iluminando os céus! (Ludmila Saharovsky)

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